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Os grandes incêndios que atingem Espanha e França não podem ser entendidos apenas como consequência de temperaturas elevadas, vento e seca. Esses fatores agravam o problema, mas o que realmente transforma um fogo em catástrofe é a combinação entre abandono do mundo rural, acumulação de combustível vegetal e falta de ordenamento do território. É aí que está o ponto central da prevenção, e é também aí que muitas políticas públicas falharam.
Durante anos, vastas áreas agrícolas foram sendo abandonadas, sobretudo em territórios onde a atividade rural deixou de ser economicamente viável. Esse abandono tem um efeito direto: campos sem cultivo, terrenos sem limpeza e vegetação espontânea a crescer sem controlo. Quando isso acontece, desaparece o mosaico de usos do solo que antes quebrava a continuidade do combustível. Em vez de paisagem diversificada, o território passa a funcionar como uma massa contínua de material inflamável.
A ausência de pastoreio é outro elemento decisivo. O gado, em muitas regiões, sempre teve uma função silenciosa mas essencial: reduzir mato, consumir erva seca e ajudar a manter o território mais limpo. Quando o pastoreio desaparece, cresce a vegetação fina que arde com facilidade e permite que o fogo avance depressa. Sem essa gestão natural, o território torna-se muito mais vulnerável, e o combate passa a depender quase exclusivamente da resposta de emergência, que chega sempre depois do problema instalado.
Também o ordenamento do território foi frequentemente negligenciado. A expansão urbana em zonas florestais, a construção dispersa, a ocupação desorganizada do espaço rural e a falta de faixas de proteção criaram condições ideais para o desastre. Quando casas, estradas, matas e terrenos abandonados se misturam sem critério, o risco multiplica-se. Não só há mais hipóteses de ignição, como também há mais dificuldade em proteger pessoas e bens quando o fogo começa.
A prevenção séria exigia uma política continuada de gestão da paisagem. Isso incluía apoiar a agricultura de pequena e média escala, incentivar o pastoreio em transumância, limpar faixas de combustível, recuperar caminhos rurais, proteger áreas sensíveis e evitar a continuidade florestal sem interrupções. Em vez disso, muitos governos preferiram respostas reativas, investindo sobretudo no combate, nos meios aéreos e nas operações de emergência, como se o incêndio fosse um fenómeno apenas a tratar no momento em que já está fora de controlo.
É por isso que culpar apenas as alterações climáticas é insuficiente. O clima mais extremo aumenta o risco e intensifica os fogos, mas não explica sozinho porque é que eles ganham tanta dimensão. A catástrofe depende também da forma como o território foi abandonado, da falta de gestão do solo e da ausência de uma estratégia consistente para manter o espaço rural vivo e limpo. Sem isso, o calor e o vento deixam de ser apenas condições adversas e passam a encontrar um combustível acumulado à espera de arder.
Em síntese, a prevenção dos grandes incêndios passa menos por discursos sobre o clima e mais por decisões concretas sobre o território. O abandono agrícola, a falta de pastagem, a acumulação de mato e o mau ordenamento não são detalhes secundários: são o núcleo do problema. E enquanto esses fatores continuarem sem resposta, os incêndios continuarão a repetir-se com a mesma violência, apenas sob pretextos diferentes.
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