Em 24 de setembro de 2025, escrevi neste jornal sobre um cartaz afixado no Solar dos Freitas, na Madalena do Mar, que constitui um embuste histórico grosseiro e anacrónico. Alertei então para a necessidade de retirar aquela falsificação da História. Contudo, tanto a Diocese do Funchal como a autarquia fizeram ouvidos de mercador e continuaram a ser cúmplices de uma fraude gritante.
Naquela casa, nunca viveu Ladislau III (1424-1444?) nem tampouco ali nasceu Cristóvão Colombo (1451-1506). Ninguém pode residir ou nascer num edifício construído três séculos depois da sua existência. A impossibilidade temporal, além de outros fortes argumentos, desmente categoricamente o cartaz. No entanto, a ignorância teima em mantê-lo, o que reflete negligência institucional e desrespeito pela identidade histórica da Madeira. Esta narrativa inventada subestima a inteligência do visitante e põe em causa a nossa credibilidade. Quando a mentira se impõe, o património morre, sendo aquele cartaz o espelho da degradação do próprio imóvel.

Como cidadão, não posso ir até lá e arrancar o cartaz. Para isso existem as instituições. Mas quando nem os alertas diretos surtem efeito, percebemos que a inércia venceu o bom senso. Felizmente, o tempo tem-se encarregado de o tornar ilegível, e espero que uma forte rajada o leve para bem longe. Bem proclamava o Padre António Vieira em 1643, no seu Sermão do Mandato: «Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba.»
O problema maior reside, porém, no estado de degradação do Solar dos Freitas. Esta antiga casa paroquial, propriedade da Diocese do Funchal, é um edifício classificado com valor local como bem do Património Cultural edificado da Região, pela Resolução n.º 76/95, de 3 de fevereiro, no qual o Governo investiu, há anos, avultada verba na recuperação das coberturas.
Onde estão a Diocese, a Junta de Freguesia da Madalena do Mar, a Câmara Municipal da Ponta do Sol e a Direção Regional de Cultura? Parecem assistir de braços cruzados a este desleixo no nosso património.
A Diocese possui vários imóveis abandonados, que caminham para a ruína, e nada faz. Provavelmente, escasseiam-lhe os meios para os recuperar ou espera que o erário público assuma o restauro. Mas com tantos quadros comunitários e fundos de financiamento disponíveis, não houve oportunidade para salvaguardar estes edifícios, através de candidaturas bem formuladas?

Quando as casas paroquiais eram habitadas, a sua manutenção estava mais ou menos assegurada. Em muitos lugares isso agora não acontece. Ao permanecerem fechadas, degradam-se com extrema facilidade.
Na Madalena do Mar, o Solar dos Freitas precisa de reabilitação imediata. O atual estado de abandono deveria envergonhar a Diocese, a autarquia e os organismos da Cultura. Como património classificado da Região Autónoma da Madeira, este edifício exige apreço, brio e empenho na sua urgente recuperação.
Sobre este assunto:
https://funchalnoticias.net/2025/09/24/na-madalena-do-mar-um-cartaz-enganador/
https://funchalnoticias.net/2025/07/23/solar-dos-freitas-a-desabar-na-madalena-do-mar/
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.




