AF!
É difícil pedir mais discrição a um presidente da FIFA quando ele próprio parece incapaz de resistir ao teatro da conveniência. Gianni Infantino voltou a oferecer um daqueles episódios que, pela sua natureza, dizem muito mais do que qualquer comunicado posterior: numa entrevista aos meios argentinos, deixou escapar uma simpatia demasiado evidente pela Argentina, ensaiou uma correção apressada e acabou por alimentar exatamente aquilo que qualquer dirigente máximo do futebol mundial deveria evitar — a suspeita de parcialidade.
Num cargo que exige distância, contenção e uma neutralidade quase monástica, Infantino insiste em cultivar uma relação com o palco, com a encenação e com o aplauso fácil. O problema não é apenas a frase infeliz ou o sorriso no momento errado. O problema é a sucessão de gestos, de sinais e de aproximações que tornam cada vez mais difícil acreditar na velha narrativa da isenção institucional. Quando o presidente da FIFA parece “sofrer” com uma seleção, quando fala como se estivesse emocionalmente investido numa vitória específica, deixa de ser apenas um dirigente a comentar futebol e passa a ser parte do espetáculo — precisamente aquilo que não deve ser.
A polémica não nasceu do nada. Ela alimenta-se de uma imagem acumulada, de uma forma de estar pública que, em vez de reforçar a autoridade da FIFA, a desgasta. E desgasta-a porque confirma uma perceção cada vez mais disseminada: a de que, no futebol global, a neutralidade é muitas vezes só um acessório de cerimónia, usado quando convém e esquecido quando as câmaras apontam para o lado certo. Se o presidente da FIFA não consegue controlar a própria linguagem corporal perante uma vitória argentina, como esperar dele a sobriedade necessária noutras matérias, muito mais delicadas, do calendário, da arbitragem ou da geopolítica do futebol?
Há, claro, quem minimize o episódio como simples deslize. Mas até os deslizes têm peso quando vêm de quem ocupa o topo da hierarquia. Um adepto pode festejar, um comentador pode exagerar, um dirigente menor pode deixar-se levar. O presidente da FIFA não. Ou não deveria. A função implica um grau de compostura que Infantino parece tratar como detalhe secundário, quase decorativo. E é precisamente aí que a crítica ganha força: não porque uma frase infeliz mude o mundo, mas porque revela a cultura institucional de quem confunde autoridade com proximidade performativa.
No fundo, o episódio é mais um capítulo da mesma história: a de uma FIFA que gosta muito de falar em princípios, equilíbrio e universalidade, mas que depois vive confortável na zona cinzenta da conveniência política e da simpatia seletiva. A Argentina ganhou em campo; Infantino, fora dele, conseguiu perder mais um pouco da credibilidade que ainda lhe restava. E, convenhamos, para um presidente da FIFA, isso é uma derrota que não se corrige com uma frase apressada nem com um sorriso de circunstância.
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