
Nelson Veríssimo
A ampla depressão do Curral das Freiras distingue-se pela presença de uma plataforma situada a cerca de 640 metros de altitude e que corresponde ao topo de uma grande massa rochosa deslocada. Sobre os depósitos do deslizamento, desenvolveu-se a povoação.
As terras do Curral foram dadas, de sesmaria, a João Ferreira e a sua mulher Branca Dias, por João Gonçalves Zarco. O Curral Grande, como então se denominava, era, sobretudo, lugar de criação de gado. João Ferreira e Branca Dias, em 1447, doaram esta propriedade à sua neta, Branca Teixeira.
O segundo capitão do Funchal, João Gonçalves da Câmara, comprou o Curral Grande a Rui Teixeira e à sua mulher, Branca Teixeira, em 11 de setembro de 1480, para dote de duas suas filhas, que professaram em Santa Clara. O Curral passou, por conseguinte, a ser propriedade do Convento. Lá se refugiaram as freiras clarissas em 1566, quando os corsários saquearam o Funchal.

A paróquia do Curral das Freiras foi criada por alvará da rainha D. Maria I, de 17 de março de 1790, desmembrando-se da de Santo António.
Nesta localidade, existia uma capela dedicada a Santo António, erguida na primeira metade do século XVII e pertencente ao Convento de Santa Clara. A toponímia atesta a sua memória: sítio da Capela.

A construção da igreja de Nossa Senhora do Livramento, orago da paróquia, e da residência paroquial fez-se em terreno doado pelo Mosteiro de Santa Clara. O novo templo ficou concluído em 1793, como ficou assinalado na lápide do frontispício: [À Rainha] / do Céu e da Terra / Virgem / do / Livramento / dedica / Maria Primeira Rainha Fidel. / Ano de MDCCLXXXXIII.
Esta freguesia sempre se ressentiu do isolamento. Somente em 1933 teve autorização para a instalação de um posto de telefone público. A inauguração da estrada EN n.º 203, troço da Eira do Cerrado ao Curral, ocorreu em 5 de agosto de 1959. Finalmente, chegou o automóvel ao sítio das Casas Próximas, do Curral das Freiras, num trajeto sinuoso, com dois túneis. Anteriormente, apenas existiam caminhos pedonais.

Em 10 de junho de 2004, foi inaugurado novo túnel rodoviário, com uma extensão de 2383 metros de comprimento, entre a Ribeira da Lapa e o Curral das Freiras, que veio permitir acesso mais rápido à freguesia e substituir o troço perigoso da antiga estrada.
Ainda hoje, a única via de acesso provoca constrangimentos nas deslocações à sede do concelho (Câmara de Lobos), nas intempéries e derrocadas. Por diversas vezes, há mais de sessenta anos têm sido anunciados projetos de ligação ao Estreito de Câmara de Lobos, Jardim da Serra e Boaventura.

O projeto de eletrificação da freguesia data de 1957, mas ficou concluído somente em julho de 1962.
Desde o século XVI, o Curral tem sofrido violentos incêndios. Na ata da vereação de 16 de outubro de 1546, da Câmara do Funchal, ficou registado um incêndio na Ribeira dos Socorridos, «o qual se ateou de maneira que fez grande dano e não se lhe pôde atalhar nem era possível com poder de homens apagar». Deflagrou por «querer um homem com fogo tirar uma abelheira de um toco de árvore». Nessa reunião camarária, condenou-se também a prática de atear fogo em giestas e feiteiras nas terras, onde se pretendia semear, fixando-se uma coima para os prevaricadores.
O último grande incêndio ocorreu em agosto de 2024. Começou nas serras da Ribeira Brava no dia 14, atingiu o Curral das Freiras na noite de 17 e esteve ativo até ao dia 20.
Para os visitantes da ilha, as paisagens maravilhosas do Curral das Freiras suscitavam excecional deslumbramento, refletido em numerosos livros de viagens e nas aguarelas e gravuras impressas do século XIX.
Thomas Edward Bowdich (1791-1824) no seu ‘Excursions in Madeira and Porto Santo, during the autumn of 1823, while on his third voyage to Africa’ (London, G. B. Whittaker, 1825) foi dos primeiros a mencionar o Curral das Freiras como vale encantador e pitoresco: «A beleza singular do Curral faria com que todos desejassem desenhá-lo; e acredito que muitos tentaram, mas, embora sejam artistas capazes, suas tentativas ficaram tão aquém da realidade que os resultados nunca foram mostrados ao mundo.» (p. 38).
Isabella de França, que visitou a ilha da Madeira em 1853-1854, deixou-nos curioso testemunho sobre a sua deslocação ao Curral das Freiras: «Por fim chegámos à esplêndida paisagem que viéramos a admirar de tão longe. Apeei-me da rede e sentei-me no chão para contemplar a vista majestosa. Eis-nos empoleirados na crista de um monte circunscrito por essa acumulação de rochas que acabávamos de atravessar; em baixo jazia o vale do Curral, exuberante da mais bela folhagem; dir-se-ia pertencer a um mundo diferente! Todo este vale estava repleto de uma variedade de culturas, inhames, árvores de fruto, vinhedos, árvores de toda a espécie, e no centro de tudo a igreja, a residência paroquial e um vasto armazém onde se guardava vinho, quando havia vinho.» (p. 161).

A Eira do Cerrado era, desde meados do século XIX, lugar privilegiado para avistar a freguesia. Em 9 de maio de 1962, foi inaugurado ali um moderno miradouro, construído pela Junta Geral do Funchal. Considerado então «nova e soberba atração turística», ainda hoje constitui ponto de visita obrigatória para quem pretende observar a paisagem do Curral das Freiras de uma altura de 1096 m.
Outros dois miradouros de referência estão no Montado do Paredão e na Boca dos Namorados.
A abertura da estrada, em 1959, quebrou o isolamento e possibilitou a visita ao centro da freguesia, antes sobretudo contemplada da Eira do Cerrado ou do lado do Estreito de Câmara de Lobos.
Hoje a área agrícola do Curral das Freiras é bastante reduzida, comparativamente com o passado. Cultivava-se, então, trigo e centeio, árvores fruteiras e vinha. No primeiro quartel do século XX, laboravam quatro moinhos de água nesta freguesia. Havia abundantes castanheiros, cidreiras, nogueiras, cerejeiras e ginjeiras. A produção de mel de abelhas era também significativa. O topónimo Colmeal comprova a atividade apícola. A castanha e a ginja continuam a ter expressão económica e, nos dias de hoje, servem de pretexto para festas na localidade: Festa da Castanha e Mostra da Ginja.

Pelos ‘Censos de 2021’, havia 1580 habitantes no Curral das Freiras, número inferior à população do ano de 1930, no qual existiam 1920 moradores. Apesar do investimento em vias de comunicação, equipamentos de saúde, educativos, culturais e desportivos, a população residente está a diminuir. Em 2021, a taxa de analfabetismo era de 13,2%, a mais alta da Madeira. A proporção da população residente com 21 ou mais anos com ensino superior completo era a mais baixa da Região (4,0%).
O Recenseamento Eleitoral, de 31-12-2024, aponta 1803 eleitores nacionais e 1 cidadão estrangeiro residente.

Heráldica da freguesia: Armas – Escudo de ouro, uma liteira de vermelho, com varal de azul; em chefe, uma castanha de sua cor, entre duas abelhas de azul, tudo alinhado em faixa; em campanha, um vale de verde, movente dos flancos, carregado de três tiras ondadas, de prata, azul, prata, postas em pala. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco, com a legenda a negro: “CURRAL DAS FREIRAS – CÂMARA DE LOBOS“. (Diário da República, n.º 26, 3.ª Série, Parte A, 07-02-2005).
Apesar de assim descrito, considero o termo ‘liteira’ incorreto para o motivo representado, sendo mais adequada a designação tradicional de ‘rede’. ‘Liteira’ é uma «espécie de cadeira portátil, coberta e fechada, sustentada por dois varais compridos e conduzida por homens ou por animais de carga colocados à frente e atrás.» (in Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, II, 2001). A ‘rede’ é um meio de transporte de pessoas, utilizado na Madeira. Tecida de malha forte, estava amarrada pelas extremidades a uma vara. Quase sempre, apresentava um toldo ou pano, lançado sobre a vara, para proteger o utilizador, da chuva, vento e sol.
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