A comédia que “matou” Molière

É curioso pensar que uma das maiores obras do teatro universal nasceu sob o peso da doença, mas transbordando de vida e riso. Refiro-me a “O Doente Imaginário”, última criação de Molière, que morreu poucas horas depois de a interpretar em palco. E talvez seja por isso, que “O Doente Imaginário”, ganhou esta aura lendária que o mantém vivo quase quatro séculos depois. Ironia do destino ou talvez a mais cruel piada da história da dramaturgia.
No Estreito de Câmara de Lobos, a OFITE – Oficina de Teatro do Estreito – decidiu revisitar e adaptar esta peça, que se apresenta no Centro Cívico nos dias 25, 27 e 28 de setembro. Uma oportunidade rara de reencontrar um clássico que nunca envelhece, porque, apesar de escrito em 1673, continua a lançar luz sobre as nossas próprias fragilidades.
Argão, um hipocondríaco rico que quer casar a filha com um médico para poupar em consultas, é a caricatura perfeita de uma sociedade onde o medo da doença e a obsessão pela saúde, criam negócios milionários. É por isso que esta peça permanece tão atual. Rimo-nos dos exageros de Argão, mas não podemos deixar de pensar nos nossos próprios excessos: da automedicação compulsiva, ao fascínio por exames médicos constantes, passando pelo peso crescente das farmacêuticas na vida pública. O teatro, quando é grande, tem esta capacidade de divertir e, ao mesmo tempo, incomodar.
“O Doente Imaginário” não é só uma peça de época, é um retrato eterno da condição humana, feita de ansiedades, contradições e, felizmente, de gargalhadas. E confesso: é daqueles espetáculos que vale a pena ver, não só pelo riso fácil que provoca, mas também pelas reflexões escondidas atrás das gargalhadas. Molière morreu em palco, mas a sua obra continua a viver e a interpelar-nos.
A encenação da OFITE promete leveza, alegria e humor. E ainda bem, porque precisamos de rir, e talvez, até de rir de nós próprios.
Fundada em 2016 e com um percurso já marcado por obras de Lorca, Pessoa, Ésquilo, Gil Vicente, Bernardo Santareno, Júlio Dinis ou José Saramago, a OFITE tem-se afirmado como um dos pilares culturais do Estreito de Câmara de Lobos. O que a distingue não é apenas o repertório escolhido, mas a forma como mobiliza a comunidade, como fidelizou um público, e como mantém um elenco multigeracional, composto por residentes locais, que dão vida à cena com autenticidade e proximidade.
Num tempo em que tantas vezes se questiona a relevância da cultura, é inspirador ver uma sala que se enche há 9 anos, com público de toda a região. O teatro, afinal, não é um luxo, é um direito, uma experiência coletiva e um espaço de encontro.
Para rematar este artigo, partilhemos desta humilde observação: Se Argão se preocupava de forma obsessiva com a própria saúde, talvez nós, como sociedade, devêssemos preocupar-nos não só com a nossa saúde pessoal, mas também com a saúde da nossa cultura. Pois, uma comunidade que descuida o teatro, a literatura, a música, a dança, a cultura na sua generalidade, está, na verdade, a fragilizar-se a si própria.


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