Quinta das Almas, Camacha: 10 anos sem avançar

Rui Marote
Esta é mais uma história  do nosso património. Obstáculos e burocracia têm aparentemente travado a recuperação da Quinta das Almas, na Camacha, cujo proprietário, Américo Gonçalves, se queixa de não conseguir levar avante o seu projecto para aquele espaço.
Ali ficou em tempos o Conselheiro Aires de Ornelas. Nasceu na Camacha, concelho de Santa Cruz, a 5 de Março de de 1866. Era um militar, escritor e político, filho do conselheiro Agostinho de Ornelas e Vasconcelos. Actuou como Ministro da Marinha e do Ultramar e foi um fervoroso monárquico.
Quanto à Quinta das Almas, foi construída  no inicio do século XX e era conhecida como Quinta da Camacha. A propriedade foi residência de Verão do Conselheiro Aires de Ornelas e da sua esposa D. Maria de Jesus de Sousa e Holstein, que lhe acrescentaram uma imagem numa gruta.
A Quinta foi palacete (ver foto antiga) de eventos sociais como o “baile de oito” e a festa da caridade para pobres da localidade. O Conselheiro Aires de Ornelas era devoto e em 1927, às suas custas e num terreno do seu Morgadio do Caniço, sito na Ponta do Garajau, erigiu às suas custas um monumento ao Sagrado Coração de Jesus, actualmente conhecido por Cristo Rei da Madeira.
Voltando à quinta, em 2010 sofreu um grande incêndio e o edifício principal, que era uma jóia arquitectónica, nunca foi recuperado até aos dias de hoje.
Em Novembro de 2015, o empresário Américo Gonçalves comprou os 110 mil metros quadrados da Quinta com o edifício principal incendiado e saqueado”. Tinha para ali um projecto mas hoje queixa-se de que continua de mãos atadas para pôr o seu sonho em marcha. Fala-nos de obstáculos e burocracia  que adiam eternamente a concretização das suas ideias.
O empresário afirma ter plantado mais de 4 mil árvores, entre castanheiros, nogueira, kiwis, pereiras, macieiras, limoeiros, limas, marmeleiros, mirtilos; recuperou um lago e moinho e tem patos, cabras e 400 galinhas. Afirma que esta é  a quinta da Madeira com mais árvores de vinhático. Recuperou nascentes e alguns jardins.
A quinta, embora esteja sinalizada como propriedade  privada, tem sido invadida e roubada, foram cortadas árvores de vinhático para servir de corrimão na vereda, utilizaram o local para comício de partido politico à revelia do proprietário… Esta propriedade esteve muitos anos ao abandono e foi saqueada. Uma pia batismal em cantaria usada por Aires de Ornelas desapareceu e consta que se encontra numa quinta na freguesia do Caniço. As imagens originais de um nicho que faz parte da quinta “voaram” e foram substituídas por outras.
O proprietário garante ter metido mãos à obra, apresentado projecto e afirma que queria rentabilizar aquele espaço, inclusive realizando visitas guiadas. Mas tem encontrado da parte das entidades competentes entraves. Porém, continua a recuperar arredores, jardins e a muralhar os 110 metros quadrados da quinta para não estar exposto à entrada de ladroagem.
O Funchal Noticias fez uma visita com o proprietário e viu todos os recantos e pormenores desta quinta.
Em Junho de 2025 o proprietário do imóvel viu-se confrontado com a Junta de  Freguesia e Câmara de Santa Cruz que reabilitou o espaço do nicho de Nossa Senhora de Lourdes, dentro da área da Quinta das Almas, alegadamente sem ter consultado o proprietário, que acusa a Junta de prejuízo do património e ter utilizado um terreno privado sem autorização.
Seguiu se uma série de actos de vandalismo. Uma porta que bloqueava o acesso foi arrancada. O portão foi atirado para o anterior do terreno. Os crentes que ali se deslocam têm deixado velas acesas junto ao nicho, o que constitui um perigo de incêndio naquele local, numa altura em que está em vigor a proibição de fazer queimadas.
“Quem percorre aquela vereda, escondida no centro da Camacha, de serventia pública, porém pertença da Quinta das Almas, depara-se, mais ao menos ao meio do percurso, com uma peculiar estrutura que desperta curiosidade: quem, quando, porquê, são questões que naturalmente ocorrem, a quem pela primeira vez ali passa. Das indagações à memória colectiva, apenas se obteve a noção que seria coisa antiga, pois a sua existência era dada como “desde sempre”, refere, a propósito, o blogue de Fernanda Nóbrega, “Camacha, História, Histórias e Curiosidades”, no texto “A Santinha dos Vinháticos”. 
Fotos já antigas do espaço

Foto: blogue de Fernanda Nóbrega sobre a Camacha: https://camacha.weebly.com/camacha/a-santinha-da-vereda-dos-vinhaticos
Foto: blogue de Fernanda Nóbrega sobre a Camacha: https://camacha.weebly.com/camacha/a-santinha-da-vereda-dos-vinhaticos

Entradas de captação de água

“Uma pequena nota no Jornal de Madeira no final de Setembro de 1925 veio clarificar a sua história : “Na quinta do sr. Conselheiro Aires d’OrneIlas, na pitoresca freguesia da Camacha, foi no ano passado, por iniciativa de sua ilustre esposa a Sra. D. Maria de Jesus de Souza e Holstein, colocada numa gruta, uma imagem de N. Senhora de Lourdes. Comemorando o primeiro aniversário dessa data, as crianças da catequese e grande parte do povo da freguesia, vão na próxima quinta-feira em romagem ao pitoresco sítio, organizando uma procissão em que a referida imagem será conduzida por toda a Quinta”.
Segundo esta notícia, terá sido no dia 1 de Outubro de 1924 que foi colocada a imagem no local. Contrariamente à gruta de Lourdes, esta na Quinta das Almas, não é uma gruta natural[i] mas sim uma entrada feita pelo homem, para acesso a uma nascente de água, no entanto serviu o propósito da sua criadora.
A escolha da Nossa Senhora a quem dedicar a devoção terá sido consequência natural das diversas estadas do casal em França, quer em viagens meramente recreativas quer relacionadas  com tratamentos às suas saúdes, em diferentes termas francesas. Até porque Nossa Senhora de Lourdes tinha já uma longa história de devoção, desde 1858, ao passo que a portuguesa Nossa Senhora de Fátima, por exemplo, ainda não tinha obtido o reconhecimento oficial da igreja.
Há a ideia de que Aires de Ornelas e Maria de Jesus Holstein eram pessoas muito religiosas, ligação essa que, eventualmente ter-se-á ampliado com as reviravoltas nas suas vidas, a partir da implantação da República. No final da segunda década, o conselheiro esteve preso, por dois anos, por motivos políticos e são vários os relatos dessa época a informar de problemas de saúde seus, assim como a de sua esposa.
Foi a partir dessa altura que reforçaram os laços com a freguesia onde Aires de Ornelas nasceu e foi baptizado em 1866, apoiando diferentes projectos da comunidade e instituindo um evento anual para receber as crianças que faziam a primeira comunhão.
Apesar de quase desconhecido de grande parte da população, este pequeno legado continua a ser apreciado nos dias de hoje, como testemunham os arranjos de flores, ainda frescas, que se podem observar nas fotos. Na segunda imagem podemos constatar que por estes dias existem quatro imagens dentro do oratório desconhecendo-se, no entanto, quem as lá colocou e se alguma delas será a imagem original” (fonte: blogue de Fernanda Nóbrega)
A 14 de Novembro de 2017, o presidente do Governo Regional, Miguel Albuquerque esteve no local e, diz o proprietário, ficou agradado com a qualidade da recuperação levada a cabo na Quinta das Almas.
A ideia do proprietário é de ali instalar uma produção hortícola e frutícula, em modalidade de agricultura biológica. A casa seria para transformar numa unidade hoteleira. Seria um investimento na ordem dos 600 mil euros apoiado através do Programa de Desenvolvimento Rural da Região Autónoma da Madeira (PRODERAM). Mas passaram anos e a “máquina” burocrática foi-se arrastando. Essa verba hoje é insignificante para colocar de pé um edifício  com quatro paredes.
Muito já foi recuperado o FN questionou o proprietário de tudo que já foi feito o que mais deseja recuperar: “O palacete principal”, diz. A Quinta das Almas, uma das maiores quintas da Madeira, tem pernas para andar se governantes, entidades municipais e empresário se entenderem e remarem no mesmo sentido.

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