Hotel da Camacha em ruínas é hoje campo de “Paintball”

Rui Marote
A freguesia da Camacha está perder a sua identidade. Não é a Camacha que conhecemos nos princípios dos anos 60. Na altura eram realizados imensos acampamentos dos escuteiros  na Quinta Aires de Jesus e no Vale Paraíso, onde se realizou pela primeira vez  o “rally” de carros “caixotes de sabão”. Era também o tempo dos jogos de hóquei em campo numa eira no sítio da Achadinha.
Quem se lembra desses tempos recorda-se do Sr. Mota à frente da equipa da Camacha, que tinha como adversário o Grupo de escutas 88. O entusiasmo era de tal ordem que nasceu no largo da Achada um campo de jogos especial para pratica do hóquei em patins.
O hotel da Camacha antigamente

Hoje a Camacha está “deserta”, o Largo da Achada, com o fecho desaparecimento do Café Relógio, já não é paragem obrigatória. A entrada no centro da freguesia, no edifício onde funcionaram os escritórios dos autocarros da Camacha e cafés, parece a “faixa de Gaza”, com prédios em ruínas já alguns anos. É uma imagem que não abona a esta freguesia.
Temos visitado a Camacha, procurando relembrar outros tempos e fazer o ponto da situação actual.
No passado sábado entrámos por acaso na Quinta onde existia o Hotel da Camacha. Hoje não existe nenhum hotel nesta freguesia. O encerramento do Café Relógio ditou o fim da única estalagem de quatro estrelas.
O alojamento local, e duas casas de extensão rural mantêm viva a hospitalidade.
Nas nossas pesquisas entrámos por acaso na quinta onde existia o Hotel da Camacha. Hoje é um “cenário de apocalipse”. Está em ruínas.  Quando lá chegámos vimos uns quatro carros estacionados e uma carrinha de portas abertas e no seu interior muito vestuário camuflado. Não percebemos o motivo.
Perguntámos se podíamos captar algumas imagens do ex-hotel da Camacha. Nesse largo ao fundo alguém efectuava um briefing explicativo a um grupo de pessoas. Captámos meia dúzia de imagens de um edifício em ruínas sem janelas, sem portas e sem tecto. É perigoso entrar no seu interior porque são escombros em cima de escombros.
Entretanto fomos convidados a sair e o portão foi encerrado.
O antigo hotel da Camacha  era rodeado muito arvoredo com bonitos passeios, lagoas e jardins e bonitas camélias de várias cores em toda a sua volta. Agora existem umas trincheiras de paletes de madeira em toda aquela praceta. Só assim nos apercebemos do motivo do briefing e da carrinha com equipamentos para uma “guerra” que estava prestes a começar e o motivo de abandonar o local. A actividade em si não tem nada de mal. O que lamentamos é a degradação do património histórico.
Neste hotel existiam umas cavalariças e uma casa de caseiros que não vislumbrámos. Antigamente existia muito terreno cultivado onde os caseiros praticavam agricultura, e no seu interior havia bonitos quartos e amplas salas com lareiras, pertença de uma família da Camacha de nome “Fredericos” que ali viveram até morte de seus pais.
O hotel mais tarde foi alugado a várias famílias que ali residiram e ainda num passado recente, em meados dos anos 70, serviu como “casa de retiro” para os cursos de cristandade  da paróquia da Camacha.

Paintball
Hoje este lindo espaço está ocupado desde 2002 pelo campo de Paintball, com o intuito de proporcionar a miúdos e graúdos um divertimento e descontração. É uma modalidade que utiliza um marcador de ar comprimido, nitrogênio ou CO2 que atiram bolas tinta colorida. O objectivo é atingir o oponente, marcando as suas roupas com tinta, sem causar danos ou lesões corporais.
São duas equipas uma contra a outra: o objectivo é eliminar o maior número de adversários ou a “capture the flag” (o propósito de conquistar a bandeira situada no meio do campo e levá-la para a base).
O hotel moribundo é o cenário de fundo destes jogos. A quinta  do Hotel da Camacha  esteve na mão de um camachense e hoje consta que o proprietário é emigrante da África do Sul. Desconhecemos o que irá acontecer aos “restos mortais” deste hotel e assim o património e a história vão-se lamentavelmente apagando.
Foi um hotel pelo qual passaram figuras nacionais e internacionais. Sabemos que o Benfica em  Julho de1936 ficou instalado no Hotel da Camacha (ver foto) e disputou 4 jogos no Campo dos Barreiros, propriedade do Clube Desportivo Nacional, com o União, que venceu por 5-1. Com o Nacional voltou a ganhar por 3-2 e com o Marítimo efectuou dois jogos com resultado 2-1 a favor das águias. No último, o Marítimo venceu por 2-0.

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