Pela Madeira, existiram muitas casas solarengas com capela. Diziam respeito a um tempo de proprietários fundiários com relevância social nas localidades onde habitavam. Sobressaíam na paisagem agrícola. Marcavam lugares e sítios. Impuseram-se como memórias. Constituíram-se exemplares do Património Cultural. Progressivamente, estão a desaparecer. Poucas perduram em bom estado.
Partilhas de heranças, mobilidade dos proprietários, falências, incapacidade de manutenção, desinteresse, busca de rendimento, investimento imobiliário – diversas razões podem explicar a destruição das velhas casas com capela que abundavam na ilha. Acrescente-se também o manifesto desinteresse das autarquias na preservação desses exemplares do nosso património, demitindo-se da preservação da memória colectiva, autorizando demolições e aprovando novos edifícios.

É a memória que nos mantém vivos. Sem memória, vegetamos. A memória dos lugares vive connosco. Quando aos lugares arrancam as marcas em nós entranhadas, ficamos mais pobres. Uma pobreza de bens que não são nossos, mas aos quais nos habituámos a ver e sentir. Perda causadora da apatia pelo sítio, diminuída pela recordação, cultivada à distância. Mas nada permanece igual na nossa relação com o lugar.
Quando observamos um solar abandonado e um terreno revolvido por uma máquina, logo nos interrogamos: «mais um que em breve sucumbirá?». Se antes não o tínhamos fotografado, essa pode ser a última oportunidade para um registo.
Em 3 de Outubro de 2018, publiquei aqui um artigo intitulado «Três capelas: um destino?». Referia-me às Capelas de São Paulo, Nossa Senhora do Rosário, na Fundoa, e de Santa Ana, no Caminho das Virtudes. A primeira permanece encerrada, depois de uma obra de recuperação do imóvel. Prossegue o restauro de peças do seu acervo e, provavelmente, o estudo e preservação dos materiais arqueológicos recolhidos, sem fim à vista. A da Fundoa está profundamente arruinada. E há quem espreite o momento em que sobre apenas um amontoado de pedras.
A de Santa Ana, situada no gaveto do Caminho das Virtudes com a Rua 4 de Abril, parece condenada. Está adossada a um solar bastante arruinado e abandonado há alguns anos. Foi esta capela fundada em 1780, por Agostinho Pedro de Vasconcelos Teixeira. No início dos anos 90 do século passado, ainda se encontrava em razoável estado de conservação, podendo ser observado o respectivo retábulo em talha dourada e policromada, com uma pintura representando Santa Ana, São Joaquim e Maria, na infância, lendo um livro.
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