Partiu o Padre Martins, na véspera de Santo António. Calou-se uma voz de liberdade. Mas permanecerá viva na memória e na História.
À medida do seu tempo e da sua terra, foi um herói, sobretudo pela sua enorme capacidade de prosseguir (ou resistir) diante da peçonha do Poder Político e do Bispado.
Múltiplas são as facetas da sua personalidade que merecem ser salientadas. Aqui queria enumerar três: o amor à sua terra e ao seu povo, a defesa da liberdade e da justiça social, o fino humor e a sua vasta cultura.
Da sua participação cívica, destaco o empenho na extinção da colonia, o combate ao analfabetismo e a promoção de melhores condições de vida dos seus conterrâneos, em especial, dos seus paroquianos.
Em 1958, ainda estudante no Seminário do Funchal, escreveu um poema sobre o Natal que veio a ser publicado no ‘Jornal da Madeira’. Tinha então vinte anos de idade. Nessa composição poética, há um verso que traduz bem o sentido de toda a sua vida: «Vem, Senhor, vem… que o mundo estala e grita!». Estas palavras expressam de forma lapidar a união da mensagem evangélica à realidade social, propósito que sempre o guiou.
A clara consciência da desumanidade levou-o a abraçar o Evangelho ao serviço do povo. Por diversas vezes, afirmou que foi a vida que lhe ensinou a ser assim. A vida ensinou-o a pensar e a dizer. A dar voz às pessoas. A ensiná-las a pensar. Entendia que à Igreja competia ser a grande educadora, a grande libertadora. Para o Padre Martins, a Igreja deveria estar ao serviço de Jesus, que é como quem diz ao serviço do ser humano.
Em 5 de Fevereiro de 2023, após a sua última missa como pároco da Ribeira Seca, em Machico, concluiu que serviu o povo de Deus e não a Igreja Católica, a qual considerava estar afastada do projecto e dos desígnios de Cristo, denominando-a de anti-crística.
Foi ostracizado pelo poder eclesiástico em conluio com o poder político. Em 5 de Novembro de 1974, o bispo D. Francisco Santana afastou-o da paróquia da Ribeira Seca. Foi suspenso “a divinis” pelo mesmo bispo em 27 de Julho de 1977. A suspensão foi reconfirmada em 1985 por D. Teodoro de Faria. Só em 16 de Junho de 2019, o bispo D. Nuno Brás remitiu a pena e o Padre José Martins Júnior foi nomeado Administrador Paroquial da Paróquia da Ribeira Seca, pelo período de dois anos.
Apesar da suspensão, o Padre Martins permaneceu na paróquia, para onde fora nomeado em 22 de Junho de 1969. Continuou a exercer o sacerdócio e sempre contou com a solidariedade dos seus paroquianos.

Quando em Fevereiro de 1985, durante 18 dias, a polícia, ao serviço dos poderes religioso e político, montou cerco à sua Igreja, rezou e celebrou a céu aberto, mas não se rendeu.
Fez como Santo António. «Mudou somente o púlpito», nas palavras do Padre António Vieira, por quem Martins Júnior tinha especial predilecção. No Sermão de Santo António, de 1654, o insigne pregador afirmou que o Santo de Lisboa e de Pádua mudou o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. No caso do pároco da Ribeira Seca, mudou o púlpito, porém o auditório manteve-se-lhe fiel.
A pena foi perdoada em 2019, mas Martins Júnior nunca foi julgado, nesses 42 anos de suspensão e de resiliência.
Escandalosamente, tanto D. Teodoro de Faria como D. António Carrilho nunca quiseram resolver a situação. E, de certeza, rezavam (e rezam) o Pai-nosso e pregavam (e pregam) o perdão! (Lc 11; Mt 18,21-22).
Em 24 de fevereiro de 2012, por ocasião das comemorações dos 500 anos da Diocese do Funchal, após uma conferência proferida na Reitoria da Universidade da Madeira, fui convidado a participar num jantar, com três padres e um outro historiador. No meio da conversa, surgiu o caso da Ribeira Seca, e eu defendi que o assunto deveria ser urgentemente resolvido, porque já tardava. Um dos padres retorquiu que o mesmo seria resolvido pela Natureza. Fiquei então profundamente aborrecido, por ver um padre preconizar a morte do Padre Martins como a melhor solução para resolver o imbróglio que envolvia três bispos e, certamente, o poder político regional.
Felizmente, o Padre Martins pôde participar na solução da sua reintegração e aceitá-la, embora sempre manifestasse a mágoa de não ter direito a um julgamento. Aquele que lhe desejava a morte tem hoje um cargo elevado na hierarquia católica.
«– Vem, Senhor, vem… que o mundo estala e grita!
Apaga a sede trágica, infinita,
E abre em cada alma a gruta de Belém!…»
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.




