Breve História das Eleições Legislativas Nacionais em Portugal

AF!

Breve História das Eleições Legislativas Nacionais em Portugal

As eleições legislativas em Portugal constituem um processo central na evolução política do país, refletindo as transformações do sistema de governo desde as primeiras experiências liberais do século XIX até à atual democracia constitucional. Este percurso, marcado por avanços e recuos, revela a complexidade da construção de um sistema representativo num contexto de instabilidade institucional, revoluções e mudanças sociais.

  1. As Origens Liberais: As Cortes Constituintes de 1820-1822

A Revolução Liberal de 1820, iniciada no Porto, estabeleceu as bases para o primeiro parlamento moderno português: as Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa. Estas cortes, eleitas em dezembro de 1820, seguiram o modelo da Constituição de Cádis (1812), adaptado à realidade portuguesa. O sistema eleitoral era indireto e censitário, organizado em três graus:

  1. Juntas de paróquia: eleitores masculinos maiores de 25 anos (ou 21, se casados ou com ofício útil) escolhiam representantes.
  2. Juntas de comarca: delegados das paróquias selecionavam eleitores provinciais.
  3. Juntas de província: elegiam os deputados, com um mínimo de 100 representantes para o continente.

A exclusão de mulheres, analfabetos e não proprietários limitou o eleitorado a uma minoria. Apesar disso, estas eleições simbolizaram a rutura com o absolutismo, culminando na Constituição de 1822, que consagrava a soberania nacional e um parlamento unicameral. Contudo, a Vilafrancada (1823) suspendeu o texto constitucional, iniciando um ciclo de guerras civis entre liberais e absolutistas.

  1. A Monarquia Constitucional (1834-1910): Entre o Caciquismo e as Reformas

Após a vitória liberal na Guerra Civil (1832-1834), a Carta Constitucional de 1826 instituiu um sistema bicameral (Deputados e Pares do Reino) e um sufrágio indireto e censitário, restrito a contribuintes com renda anual superior a 100$000 réis. As eleições deste período foram marcadas pelo caciquismo – controle local das votações por grandes proprietários e redes clientelares – e pela alternância entre progressistas e regeneradores, os dois principais partidos.

2.1. A Lei Eleitoral de 1895

A reforma de 1895 reduziu o número de deputados de 177 para 120 e estabeleceu círculos plurinominais, buscando limitar a fragmentação partidária. A exigência de alfabetização excluía 70% da população masculina, enquanto as mulheres permaneciam excluídas. Nas eleições de 1901, por exemplo, apenas 13% dos homens adultos votaram.

2.2. O Caso das Eleições de 1868

As eleições de março de 1868 ilustram a dinâmica partidária: a oposição (reformistas e avilistas) obteve 142 deputados, contra 22 da Fusão governamental. A vitória foi atribuída ao desgaste do governo, mas a manipulação de resultados em círculos rurais, como a “chapelada da Azambuja” (1905), era comum.

  1. A Primeira República (1910-1926): Sufrágio e Instabilidade

A implantação da República em 1910 trouxe avanços teóricos no sufrágio. O decreto de 1911 permitia o voto a homens alfabetizados ou chefes de família, mas a exclusão explícita das mulheres em 1913 gerou protestos. A eleitora Carolina Beatriz Ângelo votou em 1911 após contestação judicial, tornando-se um símbolo da luta sufragista.

3.1. A Lei de 1918 e o “Sufrágio Universal”

O decreto nº 3.907 (1918), sob Sidónio Pais, ampliou o eleitorado, mas mantendo restrições:

  • Homens maiores de 21 anos, mesmo analfabetos.
  • Mulheres chefes de família com curso secundário.
    A instabilidade política, porém, impediu a consolidação democrática, com 45 governos em 16 anos e frequentes intervenções militares.
  1. O Estado Novo (1933-1974): Eleições sem Competição

O regime salazarista manteve eleições formais, mas sob controlo da União Nacional. A lei eleitoral de 1945 estabelecia:

  • Voto direto para a Assembleia Nacional, com candidaturas aprovadas pelo regime.
  • Exclusão de partidos opositores, como o ilegalizado PCP.
    Nas eleições de 1945, a oposição democrática obteve apenas 12% dos votos, evidenciando a farsa eleitoral.
  1. A Democracia Pós-1974: Pluralismo e Participação

Após a Revolução dos Cravos (1974), as primeiras eleições livres ocorreram em 25 de abril de 1976, com 91% de participação. O sistema proporcional permitiu a representação de cinco partidos:

  • PS (107 deputados), PPD (73), CDS (42), PCP (40), UDP (1).

5.1. Reformas Recentes

  • 1989: Alargamento do sufrágio a emigrantes.
  • 2018: Fim das círculos uninominais, reforçando a proporcionalidade.
    Nas eleições de 2022, a participação caiu para 48%, refletindo desafios de representatividade num contexto de fragmentação partidária.

WebGrafia:

  1. https://pt.wikipedia.org/wiki/Elei%C3%A7%C3%B5es_legislativas_de_Portugal
  2. http://www.parlamento.pt/Parlamento/Paginas/primeiras-eleicoes-ar-1976.aspx
  3. https://pt.wikipedia.org/wiki/Cortes_Gerais_e_Extraordin%C3%A1rias_da_Na%C3%A7%C3%A3o_Portuguesa
  4. http://www.parlamento.pt/Parlamento/Paginas/O-processo-eleitoral-das-Cortes-Constituintes-1820.aspx
  5. https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/518744
  6. https://ojs.letras.up.pt/index.php/historia/article/download/6596/6148/21711
  7. https://pt.wikipedia.org/wiki/Elei%C3%A7%C3%B5es_legislativas_portuguesas_de_1868
  8. https://app.parlamento.pt/comunicar/V1/202206/80/artigos/art8.html
  9. http://www.parlamento.pt/Parlamento/Paginas/As-Cortes-Constituintes.aspx
  10. https://antt.dglab.gov.pt/exposicoes-virtuais-2/revolucao-liberal-de-1820/
  11. https://run.unl.pt/bitstream/10362/9128/1/JMS%20%20PTA%20-%20Caciquismo%20%20%20%20(1982)%20(3).pdf
  12. https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/18737.pdf
  13. https://www.cne.pt/sites/default/files/dl/trabalho_capacidade_eleitoral.pdf
  14. https://app.parlamento.pt/comunicar/V1/202203/78/artigos/art4.html
  15. https://www.sg.mai.gov.pt/AdministracaoEleitoral/EleicoesReferendos/HistoricoEleicoes/Paginas/default.aspx?FirstOpen=1
  16. https://viajandonotempo.blogs.sapo.pt/as-primeiras-cortes-eleitas-em-portugal-38389
  17. https://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_de_Portugal_(1834%E2%80%931910)
  18. https://ensina.rtp.pt/explicador/as-constituicoes-liberais-de-1822-e-1826-h64/
  19. https://50anos25abril.pt/historia/portugal-espanha-50-anos-de-democracia/as-primeiras-eleicoes-livres-as-novas-constituicoes-democraticas/
  20. https://www.ulusiada.pt/constitucionalismoeleitoral/
  21. https://mapa.arquivonacional.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=164&catid=57
  22. https://causa-nossa.blogspot.com/2024/04/sistema-eleitoral-9-ignobil-porcaria-de.html
  23. https://purl.pt/5854/1/documentos/Legislacao%20Eleitoral%20-%20MONARQUIA%20CONSTITUCIONAL.pdf
  24. https://run.unl.pt/handle/10362/9128
  25. https://app.parlamento.pt/comunicar/Artigo.aspx?ID=592
  26. https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/18736.pdf
  27. https://ahpweb.parlamento.pt/Detalhe/?pesq=pa&t=6&id=7443&tx=&q=AND__assunto__c%C3%A2mara+dos+deputados_%3B

 


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.