Movimento ILHA  (1975 – 2025)

Movimento ILHA  (1975 – 2025)

(continuação da crónica «O que disse Natália Correia», publicada a 31 de Março )

Com o decorrer do tempo, além de Natália Correia, outros falaram deste assunto. São documentos com que é possível iniciar a História deste movimento literário da Madeira. Esta produção que se estende ao longo de várias obras publicadas, já citadas na crónica anterior, não pretende inovar uma linguagem, nem abrir caminho para novas formas de expressão. Ela surge do impulso criativo de um grupo de poetas que se exprime livremente, afirmando-se necessariamente dentro do seu tempo, por isso, com direito a ser recebido e escutado em âmbito do público leitor ou mesmo das elites culturais. Porém, alguns investigadores são de opinião de que esta poesia reflecte um caracter particular, apresentando-se com a sua própria autoridade, esquivando-se ao sistema tradicional das correntes literárias e escolas em moda , que começavam a ser superadas por uma  expressão mais livre e humanista. Daí o aparecimento destas obras ter causado na ilha um certo cepticismo.

Citado como «uma pedrada no charco» por José António Gonçalves, o poeta promotor e aglutinador das várias vontades, este Projecto aparece no meio adverso duma sociedade culturalmente estagnada na década que decorre entre os anos sessenta e setenta do século vinte. Esse surgimento, como atrás se refere, longe de ter sido recebido como um bom augúrio, foi olhado de revés por quem não estava preparado criticamente para o efeito, ou por pudor de manifestar a própria surpresa. Remar contra a maré foi um propósito natural que animou os poetas nascidos num espaço redutor envolto no estranho mito da ilha paradisíaca.

Decorreram alguns anos até que vozes de fora da Ilha descobriram que aqui «havia poetas»: No ano 2000 Ernesto Rodrigues em «Prosa e Verso de Novecentos» ( já antes se manifestara na época das extensões universitárias) e Manuel Frias Martins, em «10 anos de Poesia em Portugal (1974-1984) Leituras de uma década» os dois professores da Universidade de Lisboa e mais tarde José Manuel Mendes, Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, são figuras avalizadas que reconheceram o caracter sério e culturalmente lídimo deste Movimento.

Chegámos ao ano de 2025, data em que se assinalam os cinquenta anos de existência das coletâneas ILHA ( 1,2,3,4 e 5), mais os sete CADERNOS ILHA individuais. É indispensável referir outros nomes  que na mesma época dos anteriores vieram em busca de conhecer esta alma atlântica.  Giampaolo Tonini, professor das Universidades de Pádua e Trieste chegou por intermedio de João David Pinto Correia, então presidente da Comissão instaladora da Universidade da Madeira, e reuniu numa obra bilingue, infelizmente pouco divulgada, parte desta produção madeirense. Em «Poeti Contemporanei dell´ Ísola di Madera», lê-se :*«Per il moderni poeti di Madera, l´Isola non è piu uno spazio limitato, ma un punto  partenza per il loro encontro col mondo». A iniciar o seu trabalho analítico Giampaolo Tonini afirma a sua primeira constatação: **«La contemporânea  produzione poética di Madera è tanto copiosa, ricca di contenuti, e d`elevato llivelo qualitativo, quanto poco conosciuta persino all`interno dello stesso Portogallo».

Citando o volume ILHA 4, Gianpaolo Tonini refere-se a um «existencialismo telúrico» que salienta a insularidade como «limite insuperável mas também como fonte de sonho e de grandeza humana» afirmando-se em «solilóquios e interrogações», estados criados pelo isolamento em que a terra e o mar funcionam duplamente entre cumplicidade e hostilidade, entre liberdade e opressão.

Mar que  aproxima, mar que afasta. mar que ora abraça, ora fustiga. Terra paciente de um síndrome de ansiedade e incerteza, que Tonini considera «universo impossível» apesar de tudo, tendo o amor como um meio de se sobrepor aos obstáculos, o que se torna uma perceptível nota de identidade.

Outras vozes surgem mais tarde a dar relevo à existência deste núcleo de poetas ilhéus, na sua maior parte aqui residentes. Leonor Martins Coelho professora da Universidade da Madeira e investigadora na Universidade de Lisboa, cita este Projecto no livro de «actas do IX Congresso internacional de Lusitanistas, Lusofonia, tempo de Reciprocidades», que decorreu na UMA  de 4 a 9 de Agosto de 2008. No nº 31 da Revista ISLENHA,2002, o poeta José Laurindo Goes, ele próprio integrado nas colectâneas, faz publicar um artigo intitulado «Ilha quem és tu ?»

E Natália Correia continua,por sua vez, testemunhando essa duplicidade de sentimentos que não apaga a identidade. Igualmente oriunda duma ilha, ela, que deixou a terra, sabe que sair dela não significa traição, nem abandono. Ao olhar de longe a sua viçosa Fajã de Baixo, na ilha de S,Miguel, afirma perentoriamente: «Eu digo da ilha o que diria da mulher um homem apaixonado: Ela trama-me, mas eu amo-a».

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*Para os modernos poetas da Madeira, a Ilha não é mais um espaço limitado, mas um ponto de partida para o seu encontro com o mundo.

**A produção poética contemporânea da Madeira é tão copiosa, rica de conteúdo e de elevado nível qualitativo, quanto pouco conhecida, até mesmo  dentro de Portugal.

 

(Continua na próxima crónica)


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