Rui Marote
Há mais de cinquenta anos anos determinei ser um cidadão do mundo. Respondi pela primeira vez a um anúncio do meu primeiro emprego, em (Moçambique), atraído porque uma das exigências era gostar de “viajar e do belo”.
Assim aconteceu ao longo da minha carreira profissional. Não tenho sintomas de dromomania, tendência patológica de viajar ou estar fora de casa. O desejo de viajar surgiu-me por meio da minha profissão. Quando era jovem decidi efectuar primeiro viagens de longa distância: conheci Hawai e São Francisco e só anos mais tarde Nova York. Conheci a Austrália e a Nova Zelândia e não conhecia Londres. Visitei 27 vezes a África do Sul e nunca tinha estado em Marrocos.
A poucos meses de ser octogenário, vou completando a “caderneta dos cromos” com percursos de três ou quatro horas em voos directos do aeroporto CR7.
Ainda recentemente estive na Irlanda, Dublin, e quando regresso a bordo do avião penso: – Tenho de parar esta é a última… Mas sei que não vai acontecer. O meu bolso vai secar a qualquer momento e repito aquele chavão que os leitores das minhas crónicas não esquecem “caixão não tem gaveta”. Há que aproveitar.
Voltar para casa é uma das melhores sensações. Os meus olhos precisam de ver, muitas folhas da caderneta estão por completar.
Todos os dias pesquiso sites de viagens e como estou “jubilado” tenho sempre a mochila pronta arrancar. A escolha desta vez recaiu em Edimburgo Escócia, aquilo a que chamam de uma escapadinha a preço da mobilidade para Porto Santo no Lobo Marinho.
Voo directo Funchal-Edimburgo ida e volta para reduzir despesas. Optei por ficar pela primeira vez num hostel, na cidade velha, três noites a 200 metros do Castelo de Edimburgo.
Para o transfer do aeroporto ao centro da cidade, ida e volta, optei por um shutlle. A central dos autocarros fica no centro da cidade à distância de 300m do hostel. Não vão acreditar: foi pegar ou largar, 98.70 euros. Tudo isto foi pago em euros não utilizei um “pound” nem levei libras.
As entradas no Castelo e outras atracções foram compradas online. Para almoçar e outras refeições fiz pagamento em cartão de crédito. Levei a lição bem estudada aproveitando estes três dias para passar a pente fino esta cidade de um dos quatro países do Reino Unido e o mais bonito da Coroa britânica.
Edimburgo tem mais de 2000 anos de história. Para quem visita é impossível, não se apaixona. Os meus olhos deslumbram-se com casa e sobrados de pedra enegrecida que se misturam com a rocha vulcânica na qual estão assentes, e com as as ruas sinuosas e elevadas.
A Milha Real formada de prediozinhos históricos, é a rua principal da cidade e une o Castelo de Edimburgo com o Palácio de Holyrood, antigas residências reais. A cidade velha está cheia de becos íngremes que compõem a estrutura medieval. Em 1520 surgiram os primeiros prédios de determinadas alturas. Um poeta escocês Roberto Ferguson, do século XVIII, descreve que não havia saneamento básico, co água e esgotos, desenvolvido. E todos os dias às 22 horas eles abriam as janelas e gritavam “Gardeloo!”-ou “Gardez l´eau” (olha a água) em um francês com acento escocês, esvaziando ao mesmo tempo uns 50.000 penicos pelas janelas. Aí dos desavisados…dependendo da direcção do vento.
Por volta do ano 1.500 a população de Edimburgo era de 12.000 pessoas. Hoje são 565.534. A Escócia não é só gaita de fole, whisky ou kilts (saia escocesa) que tornaram a Escócia tão famosa e seus costumes tão difundidos pelo mundo inteiro. É um país repleto de paisagens naturais e cenários de tirar o fôlego, lagos, costas rochosas e praias de areia. Um lugar mágico diferente de tudo.
A origem do país remonta aos tempos antigos, com as tribos celtas que habitavam na região em toda a Escócia, e que deixaram muitos vestígios culturais especialmente nas Highlands (Terras Altas). No século V d C., com a retirada das legiões romanas da Grã-Bretanha, a Escócia foi palco de migrações das germânicas. Essa fusão entre povos celtas e colonos gaélicos é um dos elementos que moldaram a identidade escocesa.
Considerada símbolo da Escócia, existe há milhares de anos a gaita de foles. Na história do antigo Egipto já aparece uma feita com pele de cão e tubos feitos de ossos. Como ela chegou à Escócia é um mistério. O povo escocês, em certo sentido, não é fanático apreciador da gaita de foles. Em 1746 o gaiteiro James Reid mudou a história após a batalha de Culloden, tendo sido foi julgado e enforcado por traição. Alegou não portar armas, apenas a sua gaita, mas o tribunal declarou-a arma de guerra, criando um precedente que perdura séculos.
Em 1996 um indivíduo de nome Brooks foi preso por tocar gaita em Londres. Acusado pelo barulho, procurou defender-se alegando que não trazia consigo um instrumento, já que a gaita era considerada arma de guerra. Pior a emenda que o soneto. Vá lá que o juiz decidiu que se tratava de um erro judiciário.
Em 2008, Londres proibiu músicos de rua e outros de reproduzir o som da gaita em alto falantes.
Apesar do seu papel histórico, a gaita de foles é controversa na Escócia e não só. Entre tradição e irritação, o seu som desafia o silêncio, marcando uma narrativa única e rica da malha cultural escocesa.
Em 2008 a Câmara de Edimburgo ameaçou prender qualquer gaiteiro que tocasse o instrumento na Royal Mile. Os funcionários reclamavam que recebiam 100 telefonemas diários sobre o barulho ensurdecedor e irritante do instrumento.
Todos os anos no mês de Agosto foi estabelecido um festival internacional em que se destaca o Royal Military Tattoo de Edimburgo, famoso por acontecer diante do Castelo de Edimburgo, e responsável pela atracção de 200 mil pessoas e por ser transmitido para mais de 100 milhões de espectadores em todo mundo.
É por isso que existe a longa ideia de que o antigo instrumento estridente e dissonante é a paixão do povo escocês, mas na realidade não é bem assim.
Outro dos símbolos é o Kilt”, uma peça de vestuário usada para identificar facilmente de que clã vinha cada pessoa e que era símbolo de orgulho e identidade para os escoceses. escoceses. Os Kilts eram feitos de de lã e eram usados com outras peças de roupa tradicionais como camisas coletes e jaquetas.
No século XVIII o kilt e o tartan foram promovidos como símbolos da cultura escocesa. Uma curiosidade interessante é que a Rainha Elizabeth era uma grande apreciadora da gaita de foles e ela mesmo escolheu a canção que se tocou no seu funeral.
O Whisky é o terceiro símbolo é conhecido na Escócia como uisge beatha” em gaélico que significa “água da vida”, A sua origem é envolta em mistério.
Como aterrei às 10h50 programei para a tarde uma visita ao museu Nacional da Escócia, com entrada gratuita, e a visita ao Castelo para outro dia bem cedo. Já tinha o bilhete comprado online para as 09h30.
Quem não se recorda da clonagem da ovelha Dolly, que o mundo conheceu um ano mais tarde em Fevereiro de 1997, apesar de clonagem ter-se verificado a 25 de Julho de 1996? A Dolly é de todas as amostras a que se destaca, embalsamada e exposta numa vitrina. Foi o primeiro mamífero do mundo a ser clonado. O museu exibe 8000 peças e artefactos das mais variadas vertentes.
Em frente ao museu a Igreja Greyfriars e o seu cemitério, o mais antigo da cidade uma estátua de um Skye Terrier esconde uma história comovente. Após a morte do seu dono, John Gray, o seu fiel companheiro acompanhou o caixão até o cemitério e de lá se recusou a sair durante os 14 anos seguintes. Pelo menos é o que reza a história. O cão foi imortalizado com esta representação.
Aproveito as poucas horas de luz para deambular pelas ruas da cidade velha e centro histórico.
O meu segundo dia é dedicado á maior atração turística, o Castelo de Edimburgo que alberga o Museu Nacional da Guerra, o Palácio Real de onde é disparada a salva de canhões todos os dias às 13 horas. A 1,5 km de percurso, fica o Palácio de Holyroodhouse onde podemos encontrar a arquitectura tradicional da Cidade Velha.
Pelo caminho visitei a Catedral de Saint Giles, ficando mesmo ao lado a Victoria Street, a rua mais colorida de toda a Edimburgo.
Já estou em contagem decrescente. Para o terceiro dia da minha aventura vou visitar um dos maiores símbolos do país, o Lago Ness, o lar do monstro mais famoso do planeta. Com margens verdes e neblina quase permanente, reza a lenda e que neste lago turvoe existe um monstro gigante.
Regressei a cidade de Edimburgo com missão comprida. Hoje vou deambular pela cidade velha, queimando os últimos cartuchos. Amanhã regresso à minha ilha, por enquanto sem planos para uma nova aventura.
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