Na Madeira, tem sido difundida a ideia de que de um lado estão os bons, os competentes, as autoridades, os detentores da experiência, no fundo, os mais capazes para a governação.
Do outro, ficam os que só sabem protestar, os que não apresentam soluções nem têm quadros técnicos. Enfim, os tontos.
Pelo meio, abundam os abstencionistas que se fartam de reclamar, mas recusam exercer o direito de participação na democracia.
Essa ideia maniqueísta e errada, difundida pelo partido maioritário, é também partilhada por alguns jornalistas ao serviço do poder, nos meios de comunicação arregimentados.
Chegou-se até ao desplante de Pedro Ramos, na qualidade de secretário regional da Saúde e da Protecção Civil, em Maio de 2024, ter afirmado que «anormais, incompetentes e canalhas não têm lugar nesta terra». Esta tirada infeliz e antidemocrática de quem tem o nome do guardião do Paraíso, mas não as chaves do Reino dos Céus, é inadmissível, mas ainda colhe o aplauso de imbecis.
Lamentavelmente, essa visão sectária do dualismo também existe nalgumas organizações superiores, mas com cariz diverso. Nessas, os bons são os que se colam às chefias, os bajuladores, subservientes e, na sua maioria, incompetentes. Na outra banda, arrumam os que têm vontade própria, pugnam pelo exercício democrático e pela legalidade. Os primeiros são levados ao colo. Os demais, ostracizados ou perseguidos, porque põem em causa os caminhos tortuosos da instituição. Aqui a carreira é piramidal, mas nem sempre assenta no mérito. O Princípio de Peter também se aplica nestas instituições.
Em todo a parte, há competentes e incompetentes. Os bons quadros seguem, normalmente, o rumo dos vitoriosos. Ninguém se arrisca a comprometer a sua excelente posição numa empresa perante a incerteza de um projecto político. Ademais, com o escrutínio constante, muitos não querem ver a sua vida devassada.
É, por isso, que a notícia sobre os elencos governativos normalmente traz surpresas. Tantos quadros e nomeados são uns ilustres desconhecidos, sem experiência nem conhecimento da área, alguns até marcados por erros do passado, como se viessem do fundo do cesto.

Nesta Região, em sucessivos governos, muitos assumiram funções sem experiência e sem conhecimento técnico. Foram aprendendo e se rodeando de pessoas mais ou menos competentes. Alguns tiveram uma actuação positiva, outros nem tanto.
Ao longo do tempo, houve decisões erradas e muito caras. Apesar das críticas à partida, foram teimosamente levadas por diante obras polémicas. Algumas resultaram em tremendos fracassos.
Recorde-se o caso da marina do Lugar de Baixo, esse sorvedouro de dinheiro, que se revelou obra desastrosa e emblemática da má governação.
Quando começou a ser publicamente falada, houve pessoas idóneas que a desaconselharam. Falaram na forte ondulação e na frequente queda de pedregulhos da escarpa sobranceira. Todavia, esses cidadãos, inclusive alguns moradores da localidade, foram chamados de «engenheiros de quarta classe».
A sabedoria, autoproclamada superior, gastou mais de 70 milhões de euros do erário público, para nada. Dinheiro atirado ao mar! Só em 9 de Dezembro de 2014, Alberto João Jardim admitiu que a marina tinha sido «um azar» dos seus governos.
Azar não foi! O que faltou foi estudo, planeamento, bom senso, capacidade para auscultar quem sabia da matéria ou conhecia bem aquele lugar.
Sobre a localização do porto de abrigo do Porto Santo, também surgiram muitas críticas dos ditos «engenheiros de quarta classe». Certo é que, em dias de mar agitado, o porto está inoperacional. E a movimentação da areia ficou comprometida.
Estes são apenas dois exemplos paradigmáticos sobre a obstinação ditada pelas certezas inabaláveis e o desprezo pelo saber de quem não se enquadra nas esferas do poder ou apenas discorda de um projecto ou solução. Mas há muitos outros!
Por alguma razão, nestes 49 anos de autonomia, a Região foi quatro vezes à bancarrota.
Para o bom exercício de funções governativas, requer-se a capacidade de ouvir quem sabe da matéria, por via do estudo ou da experiência, uma boa pitada de humildade e a decisão ponderada e oportuna. Por vezes, o senso comum também pode ser bom conselheiro.
Dividir a sociedade entre bons e tontos nunca foi bom caminho. Só na Madeira o eleitor pactua com tão grosseiro argumento.
Enquanto persistir a falta de literacia mediática, política, cultural e cívica, tudo irá permanecer na mesma. Enquanto perdurar o descrédito de quem pretende ser alternativa, dificilmente se alterará a situação. Assim sendo, a visão dualista radical dos bons e dos tontos será repetida até à exaustão e explorada junto dos incautos.
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