Foi um grupo de meninas, aprendizes de dança, à Bolsa de Turismo de Lisboa, vestidas com mini-saias listadas, que descobriam os seus calções interiores, corpetes carmesim e de outras cores, camisas brancas de meia manga, com carapuças azuis na cabeça, calçadas com botas chãs, dar uns pinotes ao som de uma música da Beyoncé, numa coreografia desarmoniosa, artificial e inexpressiva, mas certamente bem apadrinhada.
Alguns não gostaram daquele arremedo, qual cegada saltimbanca, e expressaram a sua opinião nas redes sociais, invocando o desrespeito pela identidade madeirense, a utilização imprópria do traje regional e uma música desajustada às circunstâncias, num evento com tão grande projecção, que associa o Turismo à Cultura.
Num comunicado domingueiro, a Secretaria Regional da Economia, Turismo e Cultura (SRETC) veio rebater a reacção crítica, classificando-a como histerismo e alarmismo de quem não compreendera aquela liberdade criativa, moderna e arrojada de valorizar o património cultural madeirense. No dia seguinte, o DN-Madeira deu voz ao governante, mas omitiu o ponto de vista dos críticos (17-03-2025, p. 39).
No entender governativo, aquela actuação constituiu «uma demonstração criativa que enalteceu a identidade regional de forma inovadora». Esclareceu ainda o secretário regional que aquele trabalho inovador, de fusão cultural não belisca as tradições seculares e a história madeirense e «tem sido apresentado com sucesso em diversos eventos ligados à promoção turística da Madeira».
Nunca li ou ouvi elogios tão altíloquos como estes, para obras, eventos ou espectáculos culturais, de qualidade excepcional! Das palavras do governante, podemos antever que aquelas meninas e a sua coreógrafa receberão as mais altas insígnias da Região Autónoma da Madeira!
Se Eduardo Jesus pode publicamente tecer ou mandar escrever, através dos seus assessores, os maiores elogios sobre aquela actuação, paga com o dinheiro de todos nós, bem como rotular depreciativamente quem criticou, os madeirenses desfrutam também do direito de expressar o seu repúdio por tamanha mediocridade.
Não se trata de histerismo ou alarmismo, nem tão-pouco falta de visão, medo da inovação ou da reinterpretação da tradição. Em causa está uma pretensa e excêntrica homenagem às floristas, a qualidade do projecto, a sua execução, a finalidade do espectáculo num determinado contexto e a identidade de uma Região, numa feira de Turismo. Actuação sujeita, por conseguinte, à apreciação pública e às críticas espontâneas. Basta ter em conta o número de partilhas e comentários, para se perceber o desagrado de centenas de madeirenses.
Poderá ser considerado assunto de pouca monta, mas, pela dimensão alcançada, deduz-se que muitos não admitem que o seu «bailinho» seja ridiculizado. O que, na verdade, constitui sinal positivo de apego à identidade insular.
Quem se interessa pela cultura do povo, em especial pelo folclore, ou está envolvido em grupos folclóricos não gostou de ver menosprezado o traje típico, que, nos anos 30 do século XX, foi imposto, oficialmente, às mulheres que vendiam flores no Funchal, e depois veio a ser adoptado por muitos grupos de danças e cantares tradicionais.
No entanto, a reacção da AFERAM – Associação de Folclore e Etnografia da Região Autónoma da Madeira, na sua página do Facebook, foi dócil. Curioso é ter sido publicada poucas horas depois do comunicado do secretário regional, e até com uma linguagem muito semelhante à da SRETC. Já em conversas e mensagens privadas de alguns dos seus membros, o repúdio por aquela dança foi contundente.
A dependência do subsídio gera medos, tanto mais que, para a cultura tradicional, não abundam verbas elevadas, como acontece para outros agentes e actividades culturais.
Num regime democrático, o Poder não se pode assumir como a arca da sabedoria e da razão. O conhecimento e o discernimento não se encontram só na esfera governamental e no partido que, há quase cinquenta anos, governa esta Região. Os cidadãos podem e devem manifestar-se, ainda que as habituais represálias sejam dissuasoras. As redes sociais preenchem hoje o vazio deixado pela comunicação social, amordaçada e controlada por fortes tentáculos, numa sociedade de reduzidas dimensões.
Quem manietou a comunicação social irá cada vez mais confrontar-se com a força das redes sociais.
A História documenta que a crítica, exercida com responsabilidade, sempre contribuiu para o progresso das Artes, das Ciências e das sociedades.
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





