É indelicado ou desatencioso enviar recados por interpostas pessoas. No entanto, constitui prática recorrente. Há quem não tenha coragem para falar directamente, dizendo o que lhe apraz. Socorre-se então de um conhecido, colega ou amigo do visado e, sem lhe pedir para transmitir, por vezes até implorando segredo, passa-lhe uma mensagem que, de antemão, julga ou sabe que será prontamente entregue.
É situação comum no dia-a-dia, entre vizinhos, parentes, conhecidos e até amigos. E não faltam estafetas para as encomendas.
Pior é quando este expediente arrevesado é praticado nas instituições governamentais, sem o mínimo respeito pela hierarquia. Isto é, quando o chefe máximo em vez de chamar, por exemplo, um director da sua organização e a ele transmitir o que tem para dizer, envia-lhe um recado por um funcionário da sua confiança. Usa um subordinado, de categoria profissional inferior, para fazer chegar a um dirigente o que lhe deveria revelar ou ordenar de modo directo.
Este desrespeito pela hierarquia não é inocente. Pode significar que o superior hierárquico, por insegurança e outros medos, não quer valorizar o papel e a posição do pessoal dirigente, não lhe dá a importância devida, sobretudo quando o cargo é ocupado por pessoa séria, competente e rigorosa, ou então falta-lhe a coragem para ordenar sobre matérias complicadas ou, porventura, ilícitas e serve-se de um pombo-correio.
Conselho avisado é não aceitar ordens de quem não tem poder para as transmitir e muito menos para as dar. É cortar o mal pela raiz. Quem se dá ao respeito, não aceita a primeira vez e faz tudo para que a cena não se repita. Teoricamente é ou deveria ser assim, mas quando os lugares são distribuídos pelas clientelas e não atribuídos aos mais capazes, tudo isto cai por terra.
A entrega do recado pode também ser observada num campo que ultrapassa as relações interpessoais. Nalguns órgãos de comunicação social, verifica-se isso com frequência. Há jornalistas e comentadores disponíveis para passar mensagens, que os políticos, sem desvios ou através dos seus assessores, lhes transmitem, e que, falsas, verdadeiras ou duvidosas, são do seu interesse e proveito. Com esses «servicinhos» estão a enganar o leitor, ouvinte ou espectador ou a induzi-los numa determinada perspectiva, construída intencionalmente, sem a necessária objectividade.
Mais subtil se revela a entrega do recado, quando um órgão de comunicação social entrevista uma personalidade de reconhecido mérito e envolvido no processo, para falar de matéria, que, sem dúvida, conhece, mas à qual os jornalistas também têm pleno acesso. Provavelmente, estarão impedidos de analisar e publicar sobre o caso e, com uma entrevista, considera a chefia ter cumprido a sua missão de informar. Todavia, qualquer pessoa de bom senso constatará que o assunto dá pano para mangas, como popularmente se costuma dizer.
É, nestas circunstâncias e noutras semelhantes, que a literacia mediática se revela fundamental, por possibilitar ao cidadão a motivação para a procura de outras fontes de informação e a formulação consciente do seu juízo sobre determinado tema, recusando recados de terceiros.
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