Comendador Carlos Freitas

Poderia bem ter sido numa tarde quente no fim de agosto. Raramente gozava férias nesse mês.

Sei que foi em agosto de 1981. O meu gabinete era no rés do chão do edifício da antiga Direção Regional de Saúde Pública, no início da R. das Pretas, hoje Instituto de Administração da Saúde e Assuntos Sociais (IASAÚDE), IP-RAM.

O Dr. José Miguel Mendonça telefonou-me, ele próprio. Era o meu Secretário Regional, tinha as atribuições dos Assuntos Sociais e da Saúde. Um político de exceção.

— Gostava que recebesse o meu amigo Carlos Freitas, vai gostar dele. Levará um cartão meu. Tente ajudá-lo no que for possível, a nossa comunidade no Reino Unido deve-lhe muito.

Sabia pouco do Comendador Carlos Freitas. Sinceramente, pensei que o nosso encontro seria para satisfazer um assunto particular, mas cedo reparei que estava errado.

João Carlos Freitas era um homem incansável, culto, um defensor dos portugueses residentes no estrangeiro, fosse qual fosse esse “estrangeiro”; fosse qual fosse esse lugar “exterior” à sua pátria e como poderiam esses portugueses fora dela, fora da sua pátria, reconstruí-la como um espelho fiel à identidade do que espelha?

Falámos de tudo menos dele. Apenas me disse que, se nos tivéssemos encontrado trinta anos atrás, teríamos sido colegas na antiga Caixa Nacional de Previdência, instituição onde trabalhara, em 1958, aqui na Madeira, antes de seguir para os Açores, onde encontrou a sua mulher.

Era um homem de uma cultura geral vasta; fora jesuíta e frade no Convento de Los Carmelitas Descalzos em Bilbao, Espanha, era doutorado em Filosofia e em Latim pela Universidade Católica da Lovaina, Bélgica, mas era, sobretudo, um homem de um humanismo e de uma afabilidade invulgares.

Nesse ano, estava a ser negociada a Convenção sobre Segurança Social entre Portugal e o Reino Unido, e o Carlos Freitas queria saber pormenores dessa para poder contribuir para um texto final que mais se adaptasse à realidade dos portugueses residentes no Reino Unido e nas ilhas do canal da Mancha.

— Sabe — dizia-me ele —, quando os portugueses vão presos ou são discriminados ou passam por dificuldades, é a mim que recorrem e eu nunca lhes fechei a porta.

Mais tarde, quando conheci a Fátima, a sua mulher, a açoriana que me ensinou a dançar o tango argentino, compreendi que só um casal com tanta harmonia como eles tinham encontra o tempo e a graça para poder ajudar os outros. Mas essa história do tango, já vos conto.

Na altura, visitei centenas de clubes e associações madeirenses no mundo e sabia que só pelo coração dos portugueses expatriados se podia conquistar a pátria portuguesa lá fora e, por isso, nessas minhas visitas aos clubes, colocava nelas toda a alegria e dedicação que do meu coração emanava. Raros são os clubes em que, depois do jantar, não há uma dança, seja ela folclórica ou outra.

A D. Fátima era exímia dançarina do tango. Por isso, a partir desse dia, sempre que me referia à Fátima, mulher do Carlos Freitas, tratava-a como “professora” e ninguém sabia de quê, nem ninguém teria de saber o porquê.

Com aquele casal, mantive uma relação de profunda amizade até o dia da morte do Carlos Freitas e a angústia da Fátima, ao telefone, por vê-lo partir. Fui, e era, amigo dos seus três filhos: John, Michael e Fátima, particularmente, quando esta última vivia na Madeira.

Nas nossas deslocações oficiais, quer a Londres, quer às ilhas do canal, o Carlos Freitas era sempre, ou muitas vezes, convidado do Governo Regional para nos acompanhar. Ele tinha criado, em Londres, o “Clube A Familia”, tinha uma particular apetência pelo movimento associativo português e, para além disso, tinha sido o primeiro Conselheiro das Comunidades Portuguesas no Reino Unido, em 1983. Já em 1984, foi eleito Conselheiro Permanente das Comunidades Madeirenses na Europa.

Mas, de facto, para além dos pergaminhos académicos e do seu envolvimento associativo, o que mais o caraterizava era a sua atitude, de uma elegância impecável e de um trato absolutamente inquestionável, de tal forma que participou no banquete do Tratado de Windsor, oferecido pelos então príncipe e pela princesa de Gales, para comemorar os 600 anos de uma das alianças mais antigas do mundo que é a entre Portugal e o Reino Unido. De modo que, também, a então Rainha do Reino Unido e da Comunidade das Nações lhe enviou uma nota pessoal por altura dos seus 60 anos de casamento, a qual transcrevo:

“I am so pleased to know that you are celebrating your Diamond Wedding anniversary on 22nd February 2019. I send my congratulations and best wishes for you on such a special occasion.”

O Comendador Carlos Freitas não era um homem de promessas vãs, o que lhe pediam ele executava; o que prometia, cumpria. Das muitas vezes que visitou as ilhas do canal e as suas associações, muito lutou junto das respetivas autoridades para uma melhor vida das nossas comunidades, particularmente, das madeirenses porque tinha um orgulho enorme na sua terra e nos caminhos da sua infância. Comigo, tantas vezes foi à Sé onde ele tinha sido menino de coro e, novamente comigo, quantas outras vezes foi até à igreja do Carmo visitar os padres carmelitas descalços.

Carlos Freitas participou em muitas publicações de jornais e revistas na comunidade portuguesa, particularmente, a residente no Reino Unido. Contactou diretamente com políticos ingleses e portugueses, presidentes e primeiros-ministros da República e presidentes dos Governos das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, de entre tantas outras individualidades de renome internacional.

Assim como com todos os secretários de estado das comunidades portuguesas durante a sua longa vida, tendo estado presente em dezenas de receções oferecidas pelos embaixadores de Portugal em Londres.

Em 1985, num hotel na Victoria em Londres, João Carlos Freitas foi apresentado a D. Maria Pia de Saxe-Coburgo e Bragança, alegada filha ilegítima do rei D. Carlos I e, por conseguinte, pretendente ao Reino de Portugal. Muito gentil e verdadeira dama no falar, na apresentação e no porte.

Maria Pia era, naquela altura, viúva do seu segundo casamento com um general italiano e pretendia readquirir passaporte português para, assim, com cidadania portuguesa, poder reclamar os seus direitos monárquicos. Carlos Freitas contactou, então, o Dr. Mário Soares, nessa data primeiro-ministro de Portugal, e este garantiu que D. Maria Pia era, de facto, pretendente ao Reino de Portugal. De seguida, João Carlos Freitas contactou o Dr. Passos Alonso, então Cônsul-Geral, que se prontificou a atender e a conceder passaporte português a D. Maria Pia que, deste modo, ficou novamente com nacionalidade do seu país de origem.

Pelos serviços prestados, D. Maria Pia condecorou Carlos Freitas com a Comenda de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, padroeira do Reino, em dezembro de 1985. D. Maria Pia também jantou várias vezes com João Carlos Freitas, em sua casa, em Londres, e foi convidada especial para um serão no “Clube A Familia”.

Em 2013, Carlos Freitas editou o livro Cristíada, sobre a vida de Jesus Cristo.

Abaixo, uma linha do tempo com as suas condecorações.

Por altura do seu falecimento, muitas foram as individualidades que enviaram notas de pesar à família.

Finalmente, o que me levou a escrever sobre o Comendador Carlos Freitas foram estes três agradecimentos que lhe devo:

  1. Ao que ele tão bem fez pelas nossas comunidades no Reino Unido e nas ilhas do canal e por mim mesmo quando de visita por essas comunidades, inclusive, oferecendo-me alojamento e transporte em localidades como Londres, Bournemouth, Crawley, entre outras;
  2. Ao facto de ter tocado e cantado a missa fúnebre por alma do meu maior amigo, o meu pai;
  3. Ao facto de ter tido a coragem de me fazer um rasgado elogio na altura que deixei de ser Diretor do Centro das Comunidades Madeirenses.

Amigos até ao fim.


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