Guernica (s)

Inquietante e aflitivo é o desgaste das palavras, a inoperância dos discursos bem intencionados que advogam causas justas e valores éticos em benefício da felicidade dos povos e da paz das nações. Questões políticas são matéria adversa para a minha legítima descrença na eficácia das estratégias que a ciência da guerra prescreve, nos altos ideais das apregoadas vitórias, no pregão que anuncia os bens obtidos pela extensão de territórios conquistados e o número de baixas que dizima os exércitos; nas bandeiras hasteadas sobre cadáveres e escombros. Confesso o meu elementar cepticismo, em relação aos eminentes deuses da guerra e questiono-me sobre  os seus  poderes bélicos, essa maldição instituída, desde que os humanos existem sobre a terra. É demasiado peso para a minha noção de paz, é demasia tirania para o meu entendimento da liberdade.

Talvez esse sentimento benéfico de estar em paz, ou a sensação de ser livre, nada tenham a ver com questões geopolíticas ou, melhor dizendo, com as preocupações que assolam o mundo. No entanto, sinto que não posso alhear-me de realidades tão tragicamente evidentes, como as que, através dos séculos, atiraram os homens para a guerra. Não me alheio mas desassossego-me e, então, retiro-me de cena. Fico ruminando uma espécie de abominação secreta por tudo quanto violente a minha propensão para a quietude e a concórdia.

Refugiu-me na alegria que me proporcionam os belos dias de sol medroso, neste fim do outono, mesmo que o nevoeiro ou as poeiras de África tentem ocultá-lo, porque a sua força luminosa mantém a claridade necessária aos dias.

As serras são esta imponente muralha verde, que determina o território insulado onde vivo, que me limita os passos, mas não me trava o sonho, que me obriga a um esforço de subida, mas lá do alto me alonga os olhos e me convida ao mundo. O mundo que percorro por este casario alcandorado a povoar as encostas, por caminhos íngremes e jardins cuidados, por levadas recolhidas, água sagrada a fertilizar os campos, fiel ao amor da terra e do lavrador.

O mar está perto e é a lonjura que me projecta na viagem possível das minhas pequenas ambições, sair da ilha por algum tempo, ir ao encontro de vários afectos, porque a alma é um trecho do cosmos, um pequeno universo em constante expansão.

E escrevo. Refugiu-me também na escrita. Faço-o ao serviço de muitos momentos, em resposta ao ataque de muitas interrogações e propósitos indomáveis, à conta duma liberdade inata que, ora me acende a revolta, ora me adoça o sabor da vida.

É por isso que hoje trago até aqui uma «Guernica» que deixei num livro há trinta anos, porque o tempo, agora, me suscita novamente um grito e embora eu procure o refúgio da claridade apaziguadora destes dias de Dezembro, à beira do Natal e da serena estase das serras que enformam o coração da ilha, a visão longínqua do mundo para além do mar, transporta um eco de paixões absurdas e estranhos terrores. Várias «Guernicas» continuam a ensombrar o planeta dos homens, cujos instintos proliferam ainda em âmbito de selvajaria, tal como nos primitivos habitats, contra todas as previsões dos espíritos humanistas.

*«O nome verdadeiro da guerra é o grito

ninguém sabe que liberdade ou dor/proclama o nome da guerra

sobrará sempre Guernica aos olhos dos vivos/a exibir a estética do ignóbil o disfarce/ em rosto humano do anjo abominável/antinomia do monstro portador da luz/ obsessiva anunciação do ódio o vulto / tenebroso a arfar sobre o pequeno riacho verde/ ordena-lhe o desvio do leito do país/ o traço do destino o limite sinistro da razão e do projecto.

a sombra guarda assustadores enigmas/ no vaso de petúnias que alguém regou/ de manhã pela última vez/ é o fim dos caminhos/ todas as estradas desembocam nos pântanos

hedionda escabrosa Guernica sobrará contra/o acordo o preito os rostos inculpados/ o riso-asa das crianças a calada languidez dos gatos

muitos nomes tem Guernica na trágica voracidade dos mitos/inexplicável é o brilho das lendas venturosas.»

As palavras soam a pouco, na verdade, mas é tudo o que eu tenho para repudiar o amargo destes dias e louvar o sol, bendizer a água, abraçar as serras e transpor o mar, nesta vontade rebelde de encontrar a alegria, por uma fresta de espanto que algures se abra entre os escombros.

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*in Amargo é o Estar do Tempo, Ilha 2, 1994


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