27 de Fevereiro de 1989: estão 35 anos decorridos que decorreu o “El Caracazo” na capital da Venezuela, Caracas, deixando 300 mortos. Um evento que recordo pelos contornos trágicos.
Esta notícia “bomba” chegou á Redacção do DN Madeira na Rua da Alfândega e, pela primeira vez, uma equipa de reportagem madeirense era enviada para o centro dos acontecimentos.
Cheguei ao Diário bem cedo e fui chamado ao gabinete do então director Sílvio Silva, que deu conhecimento do envio de uma equipa de reportagem para a Venezuela. Perguntou: está disponível para viajar ainda hoje para Caracas? Nem pensei e aceitei de imediato.
“Ora faça a mala que vão embarcar esta tarde. Tolentino de Nóbrega já foi informado e está a chegar. Vão os dois”, disse ele. O meu colega encontrava-se então na Escola Francisco Franco onde leccionava, a dar uma aula de geometria descritiva.
Recordo que vim a casa buscar o passaporte para tratar do visto no consulado e pagar uma uma taxa na União de Bancos, ao pé do café Apolo. Regressei a casa para dar a noticia e fazer a mala bem depressa, como um “autêntico bombeiro”.
Entretanto surge um problema: a Tap tinha cancelado os voos para Caracas. Tínhamos de arranjar outras maneiras e ver qual a companhia que viajaria para lá nessa noite.
Seria Viasa, a partir de Madrid . Tudo em contra relógio: viajar essa tarde para capital espanhola e ao final da noite para Caracas.
Já em Madrid, quando efectuávamos o check-in fomos informados de que o aeroporto na Venezuela estava encerrado e aconselhavam a não viajar devido aos acontecimentos. Somos jornalistas, disssemos. Resposta irónica: “divirtam-se!”
Estranhámos o movimento no balcão da companhia: estava deserto. Já no interior do Boeing 707, só havia 4 passageiros. A equipa do DN e duas freiras. Aterrámos em Macatia às 05 horas da manhã.
O aeroporto estava encerrado devido ao “toque de queda” e com abertura às 07 horas. Ficámos numa das salas à média luz até que os serviços de fronteira estivessem abertos. Já no exterior, uma carrinha de colegas da rádio venezuelana aguardava para nos levar para Caracas, onde o Tolentino seria entrevistado.
No centro e durante o percurso passávamos junto dos negócios saqueados. Baixei o vidro e de máquina fotográfica em punho registava as fechadas dos negócios destruídos. Eis quando surge um carro da policia e duas motas em “perseguição” ao nosso veículo para nos sacar a máquina.
Dissemos que éramos jornalistas e de imediato pediram-nos o nosso salvo conduto, o que não tínhamos, uma vez que acabávamos de chegar ao país. Seguiu-se uma verificação de passaportes e da carteira profissional até que nos livrámos das insistências da Polícia.
A partir desse momento seguimos de vidros fechados até termos o nosso salvo conduto para podermos circular, mas nunca fiando… As nossas malas continuavam na bagageira do carro.
Avançávamos para o mercado da Quinta Crespo, zona onde madeirenses tinham sido baleados. A capital era o epicentro do tumulto e ali o mesmo foi o mais notório. O Governo de Carlos Andrés Perez tinha imposto um pacote de medidas económicas e a causa da rebelião popular foi essencialmente o aumento do preço dos combustíveis.
Os autocarros eram apedrejados e queimados. Lojas e supermercados, shopping centers pequenos comércios, nada escapava ao saque. Os gangues juntaram-se à confusão para promover depredação, roubos e invasões de estabelecimentos.
Os militares foram chamados para restabelecer a ordem seguindo-se um massacre dev grandes proporções. Bairros pobres da capital transformaram-se numa autêntica zona de guerra. Cinco dias de caos na capital do país latino.
Tínhamos de regressar antes do “toque de queda” que era às 17 horas. O nosso “quartel general” era em Catia Del Mar, na casa da irmã do Tolentino, onde nos esperava um grande jantar.
Durante o percurso fomos interceptados por check-points da base naval, que nos revistou e queriam que abríssemos a bagageira. Acontece que a fechadura da bagageira encravou, e não conseguíamos abrir! A solução dos militares era mais ou menos simples: dar um tiro…
Apos várias tentativas a a bagageira finalmente abriu-se. Mais uma de que nos safámos. Nessa essa noite, no terraço da casa, assistimos a um espectáculo de fogo, não de artifício mas de balas tracejantes nos céus junto ao aeroporto.
Nesse final da tarde entrevistámos um casal do Porto Santo que teve o negócio saqueado e que nos disse que estava a fazer as malas para regressar à RAM.
No dia seguinte à noite escutámos o som de um acordeão. Perguntámos à irmã do Tolentino quem era. Com ironia, respondeu-nos “É o homem do Porto Santo. Está contente porque os planos de regressar foram anulados”.
Um novo dia e de novo para o centro de Caracas. O meu colega recebeu então um telefonema de uma colega do jornal Expresso para um café no hotel de cinco estrelas onde estava hospedada. Mas não comparecemos, pois a enviada oficial estava enfiada no hotel e queria saber o que se passava no terreno às nossas custas…
O DN – Madeira foi então o primeiro órgão de informação português a chegar a Caracas. Jornal da Madeira e RDP só chegaram á capital venezuelana na véspera de regressarmos à Madeira.
O meu maior medo nessa incursão à Venezuela em tumulto eram os jovens militares de 16 e 17 anos, armados na rua, sem experiência e com os ânimos exaltados, e estarmos sujeitos a apanhar um tiro.
O exército não estava preparado para controlar o tipo de manifestações que se verificou. Nem as forças policiais.
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