Pretendemos levar ao conhecimento dos nossos leitores as atividades desenvolvidas pelo ex.- Centro do Emigrante e pelo ex-Centro das Comunidades Madeirenses (no período de 1977 a 2015) por forma a contribuirmos para o estudo da História da Emigração em geral e relembramos os seus ” heróis ” no contexto da Grande Família Madeirense.
Nunca é tarde nem cedo: Tudo é quando tem de ser, queira Deus dar-me vida para poder contar!
CAPÍTULO I
EMIGRAÇÃO MADEIRENSE
PROTAGONISTAS
Cansados de calcorrear o mundo desde o prelúdio da Descoberta do Brasil[séc. XVI];desde a emigração causada pela decadência do comércio dos açúcares na Madeira [séc. XVII]; da emigração para a Guiana Britânica (depois de 78 dias de viagem o navio ” Louisa Baillie” que chegara a Demerara com 40 conterrâneos para trabalharem na agricultura), mesmo não acatando os apelos do Governador Geral do Funchal para que não saíssem é certo que os madeirenses” invadiram” todo o Mar do Caribe, nestes e nos séculos que se seguiram; assim como cumpriram a colonização de Huila[séc. XIX];o Havai; a África do Sul; a Venezuela; o Canadá; a Austrália; o Equador(Guaiaquil) e não terá havido lugar onde não tivessem chegado ; ” os valentes cabouqueiros” herdeiros desta terra.
Destinos de acolhimento: inserção; reinserção; gente que se distinguiu: as razões que nos levaram e nos trouxeram, quem somos, que brilho temos, o que nos distingue: – É de tudo isso que importa falarmos enquanto nos quiserem ler
A EMIGRAÇÃO TEMPORÁRIA
O CENTRO DO EMIGRANTE (Há 47 Anos)
VIRGILIO GOMES DELGADO TEIXEIRA
O primeiro grande encontro da Família Madeirense, a “pia batismal” como Mota de Vasconcelos prefere denominar os grandes acontecimentos em emigração, foi o MADEIREM-77 – no qual o Dr. Alberto João Jardim e eu participamos como equipa de especialistas, mal sabia eu que aquela individualidade seria o futuro Presidente do Governo Regional, eu seu funcionário e ele a grande referência da minha vida – e do qual resultou o Centro do Emigrante que iniciou funções no dia 1 de julho de 1977 na Rua 5 de Outubro nesta cidade do Funchal.
” Irmãos-Gémeos”, ou fases da mesma moeda, ou até abraço do tempo, que apostassem dignificar uma parte substancial da Madeira tão presente nas remessas, mas já não tão presente na reciprocidade devida à tal outra parte de si mesma. Precisava-se, pois, de encontrar alguém que não desenvolvesse apenas as tarefas que eram conferidas por lei ao Centro do Emigrante, tais como “a manutenção e revigoramento dos vínculos afetivo-culturais”; a “proteção e a dignificação da família do emigrante; “a “saúde e a segurança social mas também e (em abundância) que se preocupasse com a pessoa emigrante no seu todo, com o seu bem-estar, com o recrutamento, com as viagens, com a inserção, com o acolhimento das nossas gentes nos novos destinos para se evitasse o denominado “não-lugar”, a tal cultura in-between sobretudo numa comunidade adulta e às vezes pouca esclarecida.
Não se tratava de uma “Polícia de Emigração “como aquela instituída em 1863; nem a “Polícia de Portos” de 1896; ou sequer a “Junta de Emigração” de 1947, mas de tudo isso; o Centro do Emigrante seria era um braço amigo, era um abraço que unisse a nossa família usando o seu saber e influência como estratégia para tornar mais confortável e legal as saídas de tantos madeirenses que procuravam complementar a sua economia com a aventura desta NOVA emigração temporária ou sazonal ,criando-se assim uma relação estreita entre empregador e empregado muito supervisionada pelo “olhar invisível” do Governo Regional.
Porque, se de facto não tem sido uma visão global assente na boa-vontade das partes e o espírito internacional do ex-coordenador de Centro do Emigrante, particularmente pelos seus contactos, como poderíamos ter” enviado” milhares de madeirenses para esta Emigração Sazonal, supervisionando os meios de transporte, acompanhando-os, primeiro de comboio e de depois de camionete a partir de Lisboa até St. Malo em França, como citado naquele relatório de viagem do ex-Responsável do OIM na Madeira, Sr. Roberto Sousa, no qual refere que o condutor depois de 10h de viagem ia adormecendo e que se não fossem os seus gritos de alerta teria havido um grande acidente ?
Não terão sido, porventura, as atribuições do Centro do Emigrante como tipificadas na respetiva orgânica as principais facilitadoras deste processo migratório. Essa sim, sem dúvida, mas, à parte, uma enorme entreajuda de tantos parceiros “discretos” que contribuíram para estas missões fossem sempre bem-sucedidas e foram centenas no decurso de anos. É por isso que digo: O CE não era a polícia que acompanhava os emigrantes portugueses nos barcos, nem os inspetores de emigração da antiga Junta de Emigração, mas era TUDO ISSO.
Em outros capítulos publicaremos um apanhado sobre o tema: DE NEGAÇÃO À AFIRMAÇÃO DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS que se preocupa em estudar o passado e o presente da emigração, anterior e posterior à democracia portuguesa.
Se fosse vivo, o Senhor VIRGILIO TEIXEIRA teria 107 anos de idade.
Conheci-o em Fev.de 1989, quando o acompanhei às Ilhas do Canal, a Madrid e à Suíça [era então técnico superior da ex-Direcção Regional de Saúde Pública] tendo sido, neste ano, nomeado diretor do Centro das Comunidades Madeirenses.
O Senhor Virgílio Teixeira foi dos homens mais elegantes que conheci. Figura ímpar. O madeirense mais internacional no mundo do cinema. Galã e protagonista. O George Clooney da Madeira
Nem ele próprio sabia em quantos filmes teria participado: – Fomos nós, no ” Equity” [proteção social de atores] em Londres que descobrimos que tinha participado em 105 programas de televisão e em 92 produções cinematográficas entre elas; ” O Fado ” com Amália Rodrigues [era o guitarrista da Amália e não sabia tocar guitarra. Muito se ria quando me contava isso]; era o ” José do Telhado”; ” Alexandre o Grande” entre outros filmes. Convivera com Elizabeth Taylor, Richard Burton e demais film stars.
Na Madeira tinha sido delegado da Ibéria, da Radiotelevisão Comercial e responsável pelas Páginas Amarelas e vereador para o pelouro da cultura da Câmara Municipal do Funchal quando foi chamado para coordenar o CENTRO DO EMIGRANTE, ali na Rua 5 de Outubro com as colegas Maria José Gonçalves, Ivone Spranger (mãe da Dra. Cristina Spranger da Segurança Social), a Magna. A Eugénia a Marcolina e o Sr. Barros, a Sra Lubélia e a Josefina.
E também a Cremilde e o marido Sr. João Baptista Vaz (pai do conhecido advogado António da Cunha Vaz) da OIM -Organização Internacional das Migrações que funcionava nas instalações do CE e que dava um enorme apoio nas viagens às pessoas que seguiam para as Ilhas do Canal.Com a saída deste a OIM foi entregue à responsabilidade do Sr. Roberto de Sousa
Éramos e somos ainda, os vivos, uma família. Não havia computadores. A D. Maria José era o nosso computador, sabia os nomes e as localidades onde viviam os candidatos à emigração – maioritariamente do Jardim da Serra – quem eram as suas famílias etc. Se aquela era a primeira vez que saiam e os demais pormenores necessários à organização do processo migratório.
Não esquecerei jamais esse tempo e essa amizade e se não me refiro a cada um deles em particular é para deixá-los livres de seguirem o seu caminho, livres de mim e em melhor companhia.
O Senhor Virgílio Teixeira não cansava de me surpreender. Aterramos em Géneve já tarde. Vínhamos de Madrid onde nos encontramos com Hans Peter Sieber um recrutador de mão-de-obra que trabalhava com a Mrs Cecilia Phlipps em Jersey.
De manhã, saímos cedo para uma reunião de trabalho na OIM. Tentaríamos convencer as autoridades de trabalho que os nossos emigrantes sazonais para o Cantão de Zurick gostariam de ver totalizados os períodos de trabalho de ano para ano para não terem de recomeçar em cada campanha com os prejuízos em termos de” Permit’ de Trabalho na Suíça [até então sempre preçária] e também interessava abordar a questão da exporabilidade do Abono de Família para Portugal [para que nesse período de emigração sazonal não fosse suspenso esse direito].

No gabinete gélido: três senhores altos, do tamanho das portas do respetivo gabinete esperavam-nos:
Cansados, do voo anterior, do comboio da manhã [quase ficava em terra pois o Virgílio Teixeira não esperou um segundo. Quando cheguei à receção do hotel ele já ia colina acima para a estação de comboios] que, por acaso eu tinha visto na noite anterior, na chegada a Genève
Ah: conheço-o disse o Presidente da Delegação Suíça. Vi o seu filme a “Leoa de Castela”. O Virgílio era um homem vaidoso e sedutor [casou quase tantas vezes como quantos dedos tenho numa mão).
Tiraram fotografias. Eu parecia tão desnecessário naquela “cena”. Vinha carregado de livros, de apontamentos. Queria triunfar aos olhos do meu público-alvo. Ser grande/ magnânimo aos olhos daqueles que eu iria servir muito brevemente e, quisesse Deus, por muitos anos. Sempre quis ser o que fui sem dúvida
O Virgílio tinha uma pequena inflamação no olho direito.
Um membro da delegação Suíça aconselhou-lhe que usasse uma gota de shampoo na água e que a inflamação ia limpar. Tudo aquilo me parecia um filme.
O Dr. Victor Gil, Conselheiro Social da Embaixada de Portugal na Suíça era meu amigo. Ele, a mulher e a filha uma prestigiada advogada portuguesa. Não era para menos, levei-lhe um traje folclórico madeirense para que a menina participasse no desfile da escola.
Disse-me tudo o que eu devia saber. Tinha anotações escritas em tantos papeis, ……, mas nada foi necessário.
À Saída, disse o Presidente da Delegação Suiça: ” Mr. Tacheira ” we will do our best!
A caminho para a estação olhei-o e disse-lhe: well done Sir!
Ele riu: o Virgílio ria como no cinema; ou talvez não risse parecendo que ria.
Nas Relações Internacionais ganham mais rápido os que mais rápido encantam.
Era um homem severo, mas bom, com uma enorme experiência internacional, bilingue na língua inglesa e um negociador muito hábil. Com ele aprendi muito, sobretudo que na vida das MIGRAÇÕES contam mais as internas do que as externas. É o caracter dos Homens que os levem para mundos melhores.
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