A Madeira está grata a duas personagens, nomeadamente ao general Lino Miguel, piloto aviador e primeiro Ministro da República para a Região Autónoma. Hoje os madeirenses e porto-santenses tem meios aéreos graças ao empenho deste representante.
Este povo ilhéu só conhecia o helicóptero das montras de Natal do Bazar do Povo. Só no princípio dos anos Sessenta do século passado, o porta aviões francês “Clemenceau”, de visita à Madeira, “estacionou” na baía do Funchal e colocou nos céus o “ventoinha” que sobrevoou a cidade sendo o primeiro helicóptero por cá visto.
A segunda personagem é o amigo Almirante Silva Ribeiro, que colocou meios marítimos e forças militares nas ilhas Selvagens.
Aquelas ilhas estavam entregues a dois vigias do Parque Natural que tinham como companhia a rataria e as cagarras em dois períodos do ano. Era uma autêntica “Alcatraz”. O navio-patrulha da Marinha, uma vez por mês, fazia a rendição e a logística dos vigilantes quando o desembarque era possível.
Não foi uma nem duas vezes que houve quem passasse o Natal e fim de ano sem ouvir o estalar do fogo de artifício.
Lino Miguel fez chegar à Madeira os “Alouette III” usados na guerra colonial, que serviram para evacuação dos doentes da ilha do Porto Santo para o Hospital da Cruz de Carvalho. Porém não tinham autonomia para longas travessias.
Estes helicópteros chegavam à Madeira transportados nos aviões Hércules com as pás desmontadas. Anos mais tarde o general fez chegar o Puma, que já tinha uma certa autonomia.
Lino Miguel queria uma pequena pista na Selvagem Grande, no Chão dos Caramujos, para reabastecer e substituir os guardas. O general planeou em segredo o primeiro voo às Selvagens. O Puma, para efectuar esta travessia de mar, teve que se munir de um tanque suplente de combustível para poder regressar.
Sempre atento, eu sabia do dia que essa operação se iria desenrolar. As minhas relações com este governante e com os membros do gabinete estavam em alta.
Falei com o ministro e manifestei o desejo de fazer parte da comitiva em que incluíam membros do governo regional. A primeira reacção foi um não, porque a lotação do helicóptero e o peso transportável eram limitados. Isso era a desculpa para a comunicação social não ter sido convidada.
Mas o ministro acabou por ceder. A partida era do Parque de Santa Catarina, às 14horas. Cheguei 30 minutos mais cedo e aguardei a chegada dos convidados.
Eis que surge nos céus o Puma, que aterrou no pátio em frente à Capela de Santa Catarina. Recordo a força das pás na manobra para colocar o “heli” no chão entre o varandim e a capela: um cacto que lá existia que mais parecia uma biruta (saco) de um aeroporto.
Sem desligar os motores, o helicóptero aguardou enquanto os convidados começaram a entrar ficando para trás o tenente coronel Gouveia, ministro da República Lino Miguel e eu próprio.
O general ordenou que eu entrasse, dizendo que ele seria o último. Já no interior acomodei-me sentado junto ao tanque de combustível.
Porta encerrada e o helicóptero levantou cerca de 2 metros do chão, porém sem força para galgar o varandim e ganhar altura para iniciar a rota rumo às Selvagens.
O tenente coronel Gouveia disse-me ao ouvido “temos que sair”… Mas não percebi. Pensei que fosse para tirar uma foto e saí do helicóptero saltando para o chão.
Nesse mesmo instante o Puma ganha força, curva para a esquerda, alcança altura suficiente e… “Goodbye”.
Eu e o tenente coronel ficamos em terra. O héli não suportou o meu peso e o meu
“baptismo” nas Selvagens só anos mais tarde se concretizou, e por via marítima.
Ainda hoje as Selvagens não têm heliporto.
Poisar nas selvagens ainda hoje é uma odisseia: assistir a essa manobra lembra um furacão, um turbilhão de terra e pedra.
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.






