Partiu para o Pai do Céu o Rui Nepomuceno, o Patriarca, o Amigo e o Advogado de todos

O Rui Nepomuceno partiu. A debilidade do guerreiro tornava iminente a partida para o Pai do Céu. Quando se concretiza, como hoje aconteceu, fica um lastro de dor e de perda irreparável que nos desassossega e convida à reflexão.

Habituei-me há muito a estar sempre distante de todos os partidos e dos meandros sinuosos da politiquice. O jornalismo ao longo de décadas faz-nos conhecer de cor as artes e as manhas desse e de tantos outros setores e dos seus protagonistas. Todos conhecem a filiação partidária do Rui ao serviço dos ideais comunistas. No entanto, sempre que o olhava e escutava, brotava o Homem de valores, o Amigo de todos, o Advogado proeminente, o amante dos estudos e a voz branda e doce de uma Patriarca de outras eras, a recomendar sempre a moderação e nunca o radicalismo, a paz em vez da desunião, a defesa dos pobres e não das assimetrias sociais. Um pai de família sempre pronto a sacrificar os interesses da casa para servir o mundo.

O seu currículo é extenso: de militar a advogado, ao distinguido comendador e até ao deputado com mãos dadas a todos. Todos o recordarão, certamente, embora a fugacidade da vida e a morte implacável tornem a memória coletiva cada vez mais ténue. Eu prefiro recordá-lo como o Amigo, o Homem de Cultura, o Conciliador, o defensor em tribunal dos adolescentes travessos da direita e da esquerda, hoje senhores doutores também, da direita e da esquerda, e o advogado dos pobres. Sim, tudo isso, e mais ainda, há que dizê-lo, um homem nascido em berço de ouro, filho de um industrial, mas que se fazia humilde e simples na interajuda ao povo, sem olhar a linhagens, credos ou opções políticas.

Nos serões na sua casa com os amigos, o Dr Rui, mesmo do alto dos seus oitenta e tal anos, tinha a memória viva do menino visionário e idealista. Tinha sempre na manga um livro para publicar, uma feira do livro para participar e defender a cultura, uma entrevista para dar… Portas e coração sempre abertos ao mundo e à defesa da Liberdade e da verdadeira Cultura. Respeitava todos com a serenidade dos sábios, a astúcia dos combatentes e, mesmo nas questões de Deus, ainda que nem sempre identificado com as coisas do Alto, escutava e respeitava a diferença com uma amplitude intelectual singular. Lá em casa desta muito querida família, também é justo que se diga, o seu braço direito omnipresente, foi a sua mulher, a querida Aida Nepomuceno, sempre… E a Aida sempre a Mulher, a Companheira, a Amiga, a Enfermeira, a mulher de todas as horas até à dolorosa partida. Um abraço sentido, querida Aida!

Os camaradas certamente lhe prestarão a homenagem merecida e a sociedade que o conheceu, sobretudo, nas noites escuras da vida, unir-se-á nas condolências. Eu saio de cena, olho para o mar, tomo nas mãos o meu Terço e, no meu nada, levanto o olhar para o céu e peço: “Querido Jesus, recebe nos teus braços este teu filho, porque, afinal, nunca foi nosso. Obrigada pelo tempo que permitiste que ficasse connosco e nos educasse tanto com a sua sabedoria, mas agora, é teu. Descansa em Paz, Rui, e intercede pela tua família”. Silêncio e Paz!

 


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