Quinta-feira Santa: a história do anão do Poiso, 45 anos depois

Tive bons e maus momentos na vida jornalística. A diferença é que um marca e outro ensina. Conheci o Paulinho (que os madeirenses chamavam carinhosamente de “Palinho”) em tempos; era um anão que trabalhava no bar tradicional do Poiso, lugar onde, quando nevava, se efectuavam excursões do Caroço – Colégio Nuno Álvares para ver aquela brancura.
O anão era atracção do local. Anos mais tarde, o Paulinho viveu no Lazareto, hoje Lar da Bela Vista. Após o 25 de Abril, fez parte do quadro redactorial do Jornal da Madeira, propriedade da Diocese do Funchal.
Durante as cerimónias da Semana Santa, a cobertura dos actos litúrgicos era uma obrigação do único jornal religioso existente na Madeira, que ocupava cerca de 80% das suas páginas com essas matérias.
Eu era então um perito nessas cerimónias religiosas e sabia os momentos chave para as fotografar.
Na Quinta feira Santa decorria o lava-pés, cerimónia em que o bispo lavava os pés de doze pobres. Faz hoje 45 anos que os convidados eram 12, todos do Lar do Lazareto.
Ora, entre eles encontrava-se o anão, o “Palinho”. Tirei imensas fotos do bispo D. Francisco Santana a lavar, enxugar e beijar os pés destes figurantes.
Ao chegar À Redacção, revelei as fotos e escolhi com o chefe de redacção, Ernesto Rodrigues a foto da primeira página, que foi a figura carismática do Paulinho com os pés a serem lavados e beijados pelo bispo.
Para minha surpresa, caiu o Carmo e a Trindade e no dia seguinte fui chamado ao Paço Episcopal para justificar o porquê da fotografia de primeira página ser o bispo a beijar os pés do Paulinho. D. Francisco Santana, com um cigarrinho entre os dedos, que fazia rolar para cá e para lá, quase os queimando, estava muito zangado e exigia uma explicação: queria saber o porquê da foto escolhida ser a do anão.
Estupefacto, respondi: “Se não queriam expor o anão não o trouxessem para a cerimónia…”
A partir desse dia fiquei marcado. A minha cotação desceu drasticamente nos círculos religiosos, uma vez que era sempre lisonjeado pelas altas esferas da Igreja.
Aqui fica mais uma história edificante, guardada durante cerca de 45 anos e que hoje recordo. São histórias como estas que revelam o carácter das pessoas e instituições…
Prometo um dia contar-vos a história de uma reportagem intitulada “Ali-Babá e os 40 ladrões”, muito mais recente… Um caricato caso quase idêntico.

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