O lugar (geopolítico) do Outro

“Somos os vencidos provisórios de um injusto destino.”

—  Marc Bloch

 

I – Leituras – como pensar o mundo? (as razões de sempre)

Já Baudelaire cantara o poder do enfeitiçamento do “spleen”, nesse caso, de Paris. Brumas, névoas e linhas indefinidas, o tumulto do insulamento dos excluídos, o poeta enunciou, qual Alain Oulman, a saudade dos solitários e dos mal-amados.

A fugacidade da bruma, como da vida, a silhueta que se perde, na multidão.

Eis-me, perplexa, diante de um mundo assustador, violento, propagandístico e des-antropologizado (Vide Agnes Heller).

Será a História a grande perdedora da globalização? A sua re-escrita, o revisionismo como arma política, revelam o quanto pode vencer a manipulação veiculada e reiterada, através dessa ferramenta tão complexa, a Internet.

II – A História como compromisso com o conhecimento (Marc Bloch)

A obra que a historiadora francesa Marie Favereau-Doumenjou publicou, na Editora Perrin, no ano transacto, constitui uma profunda exegese acerca do tempo de Gengis Khan e dos seus descendentes.

Preparar-se para a sua leitura obriga a uma desconstrução da (teimosa) interpretação eurocêntrica da História. Conhecer o Outro, os outros, nunca foi tão profundamente crucial, não só para percebermos o modo como as dinâmicas actuais se desenrolam, como para munir-se de instrumentos intelectuais de análise que nos permitam, com maior clarividência, escolher o que queremos, ou não, para o devir das nossas sociedades.

Proponho, então, estimado leitor, que me acompanhe na leitura desse livro fascinante para que possamos percorrer (apesar de muito sucintamente) e conhecer o “misterioso” legado de Gengis Khan e, assim, procurar pontos de referência para compreender, no século XXI, a geopolítica do Outro.

 

III – La Horde : comment les Mongols ont changé le monde, de Marie Favereau-Doumenjou[1]

 

Quando começou a extinguir-se, o domínio deste império cobria, geograficamente, uma área que ia desde a Coreia até à Polónia. É relevante referir esta definição de “fronteiras” pois nem sempre nos é recordada a influência militar, política, económica e cultural que esse império exerceu sobre todos esses povos e, subsequentemente, sobre aqueles com quem se relacionaram.

Regressemos ao início, onde e quando tudo começou: na China, os mongóis dominaram os povos Tangut, Jing e Song. No Médio Oriente, as dinastias muçulmanas foram “convertidas” e o Iraque, muçulmano há muitos séculos, torna-se mongol. Os designados “principados russos” foram, um a um, submetidos ao poder do Império mongol (1240) e toda a sua configuração e hierarquias políticas profundamente alteradas. A Bulgária e a Hungria, dois reinados, passaram a fazer parte do Império e os Bizantinos cederam os direitos do Mar negro aos Khans. A geopolítica do Império Mongol, transformadora de todas as regiões que, a partir de então, debaixo de um mesmo poder, passaram a encontrar-se nas mais variadas circunstâncias, principalmente comerciais, ocupava um território equivalente às actuais Mongólia, China, Coreia, Ásia Central, Ucrânia, Rússia, Europa de leste, Cáucaso, Iraque e Irão.

Logo na Introdução do livro, Favereau-Doumenjou designa o poder deste império como “um género novo” e explica: “nem um império clássico, nem um estado dinástico, ainda menos um estado-nação, a Horda foi um grande regime nómada nascido da expansão mongol do século XIII” (p.15). A unificação dos nómadas, conseguida por Gengis Khan deriva numa curiosa história que nos revela muito do que define a herança cultural dos seus descendentes, até hoje. Ainda de acordo com a historiadora, no capítulo acima referido, cada um dos filhos de Gengis Khan (Jochi, Chagatay, Ogodei e Tolui) recebeu um ulus (povo) e um território. Mas, a certa altura, há um acontecimento na empresa de conquista de Jochi (herdeiro natural do seu pai, sendo o mais velho) que mudará, radicalmente, o curso da História. Continuo a cotejar o texto de Favereau (p. 15 e seguintes): “a Jochi foi confiada a conquista das estepes, a oeste da Mongólia, uma vasta região que se estendia até à Hungria”. Tendo contrariado o seu pai, perde o direito ao trono e provoca graves danos na coesão conquistada e desejada pelo seu progenitor. Seguem-se anos de equilíbrios difíceis entre o pai e os irmãos. A progressiva autonomia de Jochi leva-o ao domínio de uma extensão cada vez maior de territórios, equivalendo a oportunidades de negócios, sem precedentes. Após a morte de Jochi, os seus descendentes emigraram para a região situada entre o Volga-ural e o mar negro. Estabeleceram, nesses campos, uma administração independente do império mongol que vingou demograficamente de tal modo que conduziu a uma organização social sofisticada, nas palavras da historiadora, criando um modelo imperial próprio. Este império foi nomeado Horda. Favereau-Doumenjou descreve-a da seguinte forma: “a Horda constituía um regime flexível, capaz de adaptar-se às mudanças internas e podendo resistir às pressões externas (…) protegendo os eixos mercantis essenciais”, modelando “as trajectórias da Rússia e da Ásia Central, até ao século XVI” (p. 15).

É interessante recordar, ao longo do livro, a razão pela qual Gengis Khan e o seu filho Jochi (considerado bastardo por alguma historiografia citada pela autora) se desentenderam e provocaram a sua saída do lugar (natural) de sucessor ao seu pai. Com a responsabilidade de tomar Ourzench, Jochi deixou-a num autêntico campo de ruínas (afirma Favereau, citando Ibn al-Athir). Esta cidade, com a violenta passagem de Jochi, deixou de ser o centro comercial, intelectual, artístico e religioso que fora, outrora, para tornar-se num imenso deserto de destruição. Para Gengis Kahn, este erro estratégico e de intervenção, foi tão grave que teve como consequência a retirada de Jochi da lista da sua sucessão. Com efeito, para o velho Imperador, a ideia de “tomar uma cidade” era apoderar-se da mesma, deixando intactas todas as suas valências e potencialidades. Este facto não impedia o estabelecimento de conflitos muito violentos no sentido de conduzir ao domínio de terras e povos. Afinal, o legado da “fama” de Gengis Khan tem um fundamento. Não era, no entanto, o único ou sequer o mais importante.

Uma outra característica desta organização social nómada, como explica Favereau, é a que elucida acerca da expansão geográfica resultante da cisão de hordas rivais, separadas amigavelmente, para não causar conflitos fratricidas, prosseguindo as suas carreiras e exercício de influências geopolíticas em total autonomia. Este facto contribuía, assim, para a manutenção, de forma coesa, do ethos que definia a horda: “um acampamento imperial que reunia o khan e as cortes das suas esposas, assim como o quartel-geral que compreendia as tendas reservadas à administração” (p. 25). A horda é nómada e flexível em todas as suas dimensões organizacionais. A estepe, o habitat natural e cultural destes povos, determina os seus modos de ser, de estar e de relacionar-se com os outros, de preferência de modo integrador e não-beligerante, como referido. A relação que estabelece entre espaço e poder, legado que, ainda hoje é notório nos países que resultaram herdeiros desta influência, é uma peça fundamental para compreender a geopolítica actual, em especial a euroasiática. A globalização mongol não descurou, no entanto, o estabelecimento de relações duradouras com povos sedentários, numa inteligente estratégia de expansão e de consolidação das suas redes comerciais.

Uma das particularidades mais relevantes do comportamento estratégico da horda registou-se aquando da peste que avassalou a geografia europeia e asiática no final da primeira metade do século XIV. Aos frios glaciares, sucedeu a “morte negra” que devastou populações e rebanhos, deixando rastos de desolação e de horror. Assim, face a uma crise económica avassaladora, a horda optou pela retirada, aguardando, em segurança, a possibilidade de reconstruir-se e deslocar-se.

Independentemente das relações com os povos sedentários (por exemplo, os eslavos e os arménios), o que permitiu a edificação de um colosso político de domínio de geografias diversas, os Kahn sempre entenderam que a sua essência nómada era a razão de ser da sua força: “só os que têm medo, constroem torres”.

No século XIII, um dos descendentes de Jochi, o khan da horda de Berke, convertera-se, publicamente, ao Islão. Tornara-se líder dos muçulmanos dominando, em consequência, todas as rotas comerciais do mundo muçulmano, eslavo e europeu.

A Horda era, assim, uma organização complexa, inteligente, baseada num regime de dependências muito bem definidas e com papeis sociais muito similares aos do feudalismo.

A historiadora convida à reflexão relativamente ao fim deste império, na segunda metade do século XIV: “dissolução ou transformação e adaptação a novas condições?” (p.301). A China tornou-se independente, tal como outras regiões. As lutas profundas no seio da Horda, acentuaram-se. De entre os descendentes foram emanando líderes. Extraordinário, o papel de duas mulheres, em especial Taidula que, ao contrário dos outros líderes que permaneceram muçulmanos, abraçou publicamente o cristianismo e empreendeu laços com o clérigo ortodoxo, os venezianos e o Papa (p. 303). Morreu assassinada, tal como tinha sido hábito em relação a líderes precedentes. Favereau – Dumenjou refere que a vingança e o fratricídio se tornaram um modo de regulação do poder: “num mundo mongol no qual a política era mais fundada em consensos do que na coercividade, a prática do fratricídio não poderia engendrar estabilidade ou harmonia social (p. 305). Sucederam-se algumas cisões.

A peste, a par de significativas alterações climáticas (como anteriormente mencionado), implicou a retirada estratégica de vários povos e permitiu que alguns migrantes se dirigissem para a região das margens norte do mar de Azov (da qual temos ouvido falar).  Os períodos de dzud “alterações meteorológicas brutais que provocavam fomes e perdas irreparáveis do gado” (p. 306) foram os principais responsáveis por estes ciclos migratórios que descartaram, por parte da Horda, as relações sedentárias e relegaram-na para a sua essência nómada: “face à adversidade, a via mongol consistia em descentralizar, dividir e dispersar” (p. 307). Sucedeu-se uma época de reajustamento e de tentativa de encontrar um khan suficientemente forte para honrar a Horda e a herança de Jochi. As lutas pelos territórios e os poderes emergentes aproximam-nos mais da compreensão do mundo actual: “Os lituanos ocupavam o primeiro lugar. Tomaram Kiev, no início dos anos 1320. Para Ozbek, isto significava uma oportunidade para substituir os russos na fronteira sudoeste” (p. 311). Esta aceitação conduziu-os ao papel de mediadores diplomáticos entre a Horda e os alemães e polacos.

“Em 1378, quando Mamai (herdeiro de Jochi) reunia os seus guerreiros e se preparava para atacar Moscovo, Dmitrii conduziu o seu exército em direcção aos mesmos, num ataque surpresa. O encontro deu-se nas margens do rio Vozha e a batalha foi ganha pelo príncipe russo” (p.313). Foi a primeira vez que os russos venceram os mongóis numa batalha de larga escala.

A desintegração (?) deste “império” ocorreu por volta do século XVI. Não terminou. O modo como se formou, organizou e exerceu influência, perdura no mundo actual de tal forma que é (quase) obrigatório corresponder à convocatória para a sua compreensão, sem a qual dificilmente perceberemos alguns dos protagonistas da política internacional, a saber Putin e Xi Ji Peng.

Notas finais

O conhecimento das dinâmicas da História, o modo cativante como a historiadora escreve, o percurso por tantos territórios e a referência aos muitos povos que habitaram aqueles espaços, fazem deste livro uma passagem obrigatória pelo conhecimento da actualidade. A sua leitura é simples, mas exigente nos detalhes e em todas as ligações. Por vezes, recorri a informação complementar: mapas, por exemplo.

Foi uma viagem fascinante. Longa e deslumbrante. Não é “simples” percorrer quatro séculos num território tão vasto.

De regresso ao “spleen”, agora o do leitor, quando o livro se tornou tão poderosamente forte que não cabe mais apenas na minha vontade de o ter lido.

[1] A indicação das páginas refere-se à edição francesa para Kindle. As traduções são da autora deste texto.


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