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Dias internacionais: há muitos! Nesse conjunto, conta-se, desde 1999, o DIA INTERNACIONAL DA LÍNGUA MATERNA, celebrado no dia 21 de Fevereiro, dia nacional do Bangladesh. Historicamente, no Paquistão, houve jovens estudantes universitários mortos por defenderem o direito a usarem o bengali, a língua materna, em vez do urdu, a língua oficial que o estado paquistanês impunha. Este cenário não é comum em países monolingues ou que tendem para tal. Ora, num país como Portugal, onde a língua materna predominante é o português, havendo uma minoria que vai esquecendo o mirandês – também língua oficial em território português – e outra que o revitaliza, quase ninguém se lembra de celebrar esse dia. Vale a pena comemorar a língua que aprendi desde criança e com a qual falo de mim aos outros, empregando-a para pensar o mundo em que vivo? Vale! Isso é válido para qualquer falante no mundo, seja qual for a sua língua. Para quem não a entenda, recorra-se à tradução, processo intermedial imprescindível no mundo multi/plurilingue. Vale a pena celebrá-la porque a diversidade linguística, fundamental para a identidade dos povos, pode estar ameaçada pelo mundo cada vez mais homogéneo dos meios urbanos com uma cultura uniformizadora propiciada pela tecnologia. Do meu ponto de vista, impõe-se uma visão do mundo não como uma aldeia global, mas como uma cidade comum.
O século XXI trouxe uma revolução tecnológica com a suposta Inteligência Artificial (IA) que está, toda ela, radicada no domínio da linguagem verbal, o objecto de estudo da Linguística. O que se consegue com a IA é realmente um pressuposto domínio linguístico, que, quando se testa, acaba por ter limitações e falhas, embora se vá aperfeiçoando. Mesmo assim, consegue: processar informação para redigir textos; traduzir automaticamente de uma ou mais línguas para outra ou outras; transcrever textos a partir do registo oral, ditando-os; seleccionar textos numa página onde também haja imagens; usar máquinas, ou melhor, sistemas de telemóvel que são robots virtuais a “falarem” connosco e a executarem pedidos e diversas solicitações, inclusive responder a perguntas, nomeadamente sobre meteorologia. Há secretárias (a profissão persiste em estar ligada à mulher porque as vozes que se vão ouvindo são femininas) virtuais que saúdam e ficam à disposição para agendar, organizar e realizar algumas tarefas. O, hoje, imprescindível GPS tem voz (novamente vozes femininas nas versões que conheço) e dá orientações para conduzir. Toda essa inteligência – por mais que se considere sê-lo – não pode competir com as incríveis capacidades que os seres humanos têm. No entanto, julgo que, por preguiça intelectual, há quem confie a cem por cento nestes mecanismos que os telemóveis, autênticos brinquedos de bolso, foram impondo ao mundo inteiro. Quem não tem, em 2024, um telemóvel de última geração, que, se eu não estiver desactualizada, corresponde à 5G? Os telemóveis estão por todo o lado!
Regressei há alguns dias do XX CONGRESO INTERNACIONAL DE LA ASOCIACIÓN DE LINGÜÍSTICA Y FILOLOGÍA DE AMÉRICA LATINA (ALFAL). Decorreu na cidade de Concepción, no Chile, entre os dias 22 e 26 de Janeiro. Nunca tinha ido ao Chile, mas estivera na América do Sul, numa viagem ao Brasil. Além das preocupações profissionais com a apresentação do trabalho que levei, dedicada ao elemento “super” em usos reais de língua portuguesa, tive de tratar do passaporte, de vacinas e de outras questões práticas como a viagem e o hotel. Ainda li sobre segurança e o país para conhecer minimamente o lugar. As informações da página da Internet da Embaixada do Chile em Lisboa são bastante úteis, mas não serenam quem viaja. Dos mapas, qualquer pessoa se lembra que o Chile é um território muito estreito que acompanha a costa mais ocidental da América do Sul, situando-se ao lado da Argentina. Santiago é a capital. Pelas leituras pouco encorajadoras que fui fazendo e pelo reduzido tempo disponível, por participar no congresso nos dias úteis da semana, não se colocou a possibilidade de visitar Santiago. No entanto, o voo de lá até Concepción, com duração de praticamente uma hora, permitiu tirar-lhe o pulso e ter uma visão dos Andes. A viagem foi concretizada em 4 aviões diferentes: Funchal-Lisboa/ Lisboa-São Paulo/ São Paulo-Santiago/ Santiago-Concepción, sendo necessário um dia para ir e outro para voltar. Preparar uma viagem longa como esta, enquanto se mantêm todas as tarefas do dia-a-dia, foi bastante desgastante. O regresso também se revelou agitado para reorganizar os afazeres do quotidiano.
Porém, no caso, o mais difícil de tudo foi gerir o desconhecido. Como é a cidade de Concepción? Que cuidados ter e o que levar? Nem de propósito, a RTP-Madeira passou uma reportagem sobre uma proposta de arquitectura com maquete original ligada à linha de caminho-de-ferro para essa cidade chilena. Foi concebida por um arquitecto madeirense – Filipe Temtem – que a expôs na Secção Regional da Ordem dos Arquitectos (AO SRMAD), situada no Funchal. No telemóvel, o Google também mostra a cidade, cartografando-a, mas não é a mesma coisa do que a ver ao vivo. Aliás, neste caso, a Inteligência Artificial não foi boa conselheira. Fiquei a saber que uma pessoa amiga – Víctor Ventura, especialista na área da Formação e Produção Audiovisual – Broadcast Live Sport Events (Transmissão para Televisão de Eventos Desportivos em Directo) – tinha estado nessa cidade do Chile e noutras em trabalho, com a última deslocação à Universidade de São Tomás de Aquino para dar formação. Falar com ele descansou-me: o cartão multibanco, desde a pandemia de COVID19, funcionava na perfeição para os pagamentos, das mais pequenas quantidades às maiores. É possível pagar um café com multibanco! Haveria ainda quem aceitasse o dólar americano e seria bom levar alguns. Aliás, o pagamento da inscrição no congresso poderia ser nessa moeda. Quanto aos câmbios em euros, 1000 pesos chilenos correspondem sensivelmente a 1 euro. Portanto, seria conveniente pensar nisso. Nas ruas, a insegurança teria aumentado com todos os problemas financeiros e económicos que o mundo atravessa, devido à inflação crescente nos vários países, pelas incertezas mundiais, e o Chile não é excepção. Não ostentar riqueza tornar-se-ia fundamental por questões de segurança. A cidade de Concepción é relativamente pequena e seria bem mais segura do que Santiago. O Google-GPS indicava um percurso de 15 minutos do aeroporto ao centro da cidade. Poder-se-ia fazer a pé, como um passeio, já que não haveria malas grandes a atrapalhar? Não era aconselhável andar a caminhar por ali. Uma conversa amigável com quem conhecia foi bem mais reconfortante do que toda a IA com os seus dados. Aqui fica um sincero agradecimento a Víctor Ventura.
O congresso começava numa segunda-feira e a opção foi partir do Funchal no sábado para poder descansar no domingo. Assim foi. A viagem permitiu o contacto com o mundo aeroportuário, que é um ambiente paralelo e representativo do que poderei chamar uma SOCIEDADE OK-CIAO, essencialmente por questões linguísticas. É certo que há línguas diferentes por todo o lado, sobretudo nos painéis publicitários. Também se vão ouvindo nos altifalantes. No entanto, predomina uma língua sobre as outras. O inglês simplificado é imprescindível. Porém, não é a isso que me refiro, quando identifico a SOCIEDADE OK-CIAO. O que me chamou a atenção foi o facto de, com um número reduzido de palavras de diversas origens, ser possível comunicar tanto nos aeroportos, como na cidade de Concepción. Afinal, há semelhanças culturais e linguísticas entre territórios, nomeadamente quando se considera a sociedade urbanizada. Ela apresenta-se como semelhante em todos os lugares. No fundo, pela globalização, a diferença não residirá propriamente na comparação de país para país (embora haja distinções), mas nas semelhanças entre as sociedades urbanas por um lado (sejam de que país forem) e as rurais (estas individualizadoras, relativamente à identidade territorial, embora possam também elas ter semelhanças). A SOCIEDADE OK-CIAO encontrei-a em Concepción, logo quando cheguei e ao longo da semana que por lá fiquei. No domingo, o centro da cidade fica deserto. As lojas estão fechadas a cadeado e com reforços. Os graffiti pintam muros e fachadas citadinas. Não há quase ninguém na rua de edifícios bastante recentes, com alguns ao abandono. Está aberto um Centro Comercial com vários pisos, onde na cave funciona um Jumbo! Os produtos são os mesmos que os de qualquer hiper/supermercado que se encontra em qualquer país europeu. Também não é novidade o piso superior ser o dos restaurantes, bares e cafés. Muitos jovens andam em grupo e com telemóveis nas mãos. É claro que o espanhol, mais do que o inglês, ajudou na comunicação. Porém, o curioso foi ouvir constantemente “Ok!” e “Ciao!”. Afinal, há aqui uma língua comum de que fazem parte esses dois vocábulos e alguns outros. Pense-se sobre o assunto. Os nomes de bebidas, e passo a publicidade (já que eu nem sou apreciadora) porque algumas correspondem a marcas (ex.: Coca-cola, Pepsi, Martini, etc.), vão-se reencontrando. Nas comidas, há muitas que já são internacionais como “pizza”, “pasta”, “risotto”, “hambúrguer”, “taco”, “sushi”, etc. Os nomes comuns “café”, “salada” e “gelado”, com variações fonéticas, são perceptíveis. Aliás, foram-no ali, junto ao Pacífico, num restaurante de praia, onde havia a indicação que se estava, literalmente, no meio do Chile. Portanto, as sociedades urbanas, seja onde for, estão mais semelhantes e as cadeias comerciais mundiais são reveladoras dessas similitudes. Encontra-se o mesmo em todo o lado. Poderia alargar a comparação; opto, no entanto, por me deter em “ok” e “ciao”, partindo da minha experiência docente.
Voltando aos dois elementos linguísticos desta língua comum, na Internet, para o primeiro, é explicado que “ok” é uma sigla proveniente de “0 killed” (zero mortos), datada do século XIX, do tempo da Guerra de Secessão, nos Estados Unidos da América. Há outras teorias para a origem deste elemento linguístico internacional. Não as vou explorar. Prefiro pensar na recorrência com que é usado. Quantas vezes diz “ok” por dia? Se não disser, e eu até nem digo muitas, quantas vezes ouve dizer “ok” por dia? Estas são incontáveis. Onde observo mais este fenómeno de simplificação linguística é com os estudantes universitários com os quais trabalho. Há anos que é assim. Muitos, quando lhes respondo: “Como?”, e porque já sabem, que lhes exijo mais vocabulário (“Está bem! Certo! Fica combinado! Parece-me bem!”, entre muitas outras formulações), vão substituir aquela sigla inglesa de duas sílabas por elementos linguísticos portugueses. Passados segundos, voltam a repetir aquele “Ok!” e, então, explicam-me que é involuntário porque está tão enraizado que se torna natural, nem dão contam que o dizem porque lhes sai, espontaneamente, da boca. Ora, este fenómeno linguístico encontrei-o ao longo da viagem, nos diversos aeroportos por onde fui passando e no Chile, na cidade de Concepción, em várias circunstâncias comunicativas. A outra palavrinha que também surgiu muito foi “Ciao”, uma saudação que serve, sobretudo, nas despedidas. Neste caso também, os estudantes universitários com os quais vou lidando usam-na regularmente. Quando lhes explico que, segundo o DICIONÁRIO HOUAISS DA LÍNGUA PORTUGUESA, que consultei há mais de uma dezena de anos para essa entrada, virá do veneziano, com base numa saudação de escravos aos donos: algo como “eu sou o seu escravo”, muitos, surpreendidos, deixam de a empregar comigo porque, em jeito de brincadeira, lhes afirmo que eu não quero escravos. Ano após ano, tento explicar-lhes (os estudantes são todos os anos diferentes) que os usos linguísticos se têm de adequar às circunstâncias e, por isso, o vocabulário não é todo igual, nem serve para todas as situações. Num ambiente formal, fica melhor, devido à adequação social e cultural, entre muitas possibilidades: Adeus!/ Até amanhã!/ Até logo!/ Vemo-nos para a semana! Aqui também, por mais que tentem, levam tempo a substituir o “ciao” repetido continuamente. Acaba por ser normal porque é igualmente usado (assim como “ok”) por docentes, inclusive os universitários e em todos os ramos profissionais da sociedade urbana.
Será que esta língua comum vai crescendo pelo mundo e vai havendo todo um vocabulário generalizado que permite a intercompreensão? Veja-se o tema das “Alterações Climáticas” ou o da “Sustentabilidade” com a “reciclagem”, a “economia verde”, a “economia azul” e a “economia circular”. Se se disserem estas palavras e expressões em espanhol, francês ou inglês, a proximidade linguística é muito grande. As preocupações das sociedades urbanas parecem ser as mesmas. Com a questão da língua materna, como será? Pode haver variação numa língua como o português porque é falado em diferentes partes do mundo, mas possibilita a comunicação. Aproveitando a temática do Património Linguístico abordada no âmbito do Mestrado em Estudos Regionais e Locais (MERL) que mantém uma parceria com o Erasmus Mundus Climate Change and Diversity – Sustainable Territorial Development (CCD-STeDe) e do DIA INTERNACIONAL DA LÍNGUA MATERNA (21 de Fevereiro), desafiei os estudantes destes dois cursos a pensar sobre a importância da língua materna. Deixo aqui, para encerrar esta crónica, duas posições.
A primeira é a opinião de Daniela Escórcio, especialista em Arte e mestranda de Estudos Regionais e Locais, habituada a comunicar em português e conhecedora das particularidades madeirenses: «A língua materna é parte do nosso património pessoal e coletivo, e é essencial reconhecer, celebrar e preservar essa parte da nossa identidade cultural e linguística. A língua materna é aquela que se aprende desde o nascimento, que usamos para comunicar com a nossa família, amigos e comunidade, transmite valores e tradições e desempenha um papel fundamental na formação da nossa identidade e conexão com a nossa cultura. Reconhecer e identificar a nossa língua materna é importante para a compreensão das nossas origens, raízes e trajetória enquanto povo. Preservar a nossa língua materna é importante não só para manter viva a nossa própria herança cultural, mas também para enriquecer a diversidade linguística do mundo. Cada língua é única e carrega consigo tradições, histórias e formas de pensamento que merecem ser protegidas e promovidas.»
A segunda posição apresenta um brevíssimo texto de Felipe Paludetto, jornalista brasileiro que é estudante do CCD-SteDe, tendo passado o primeiro semestre na Universidade de Pádua (Itália) e que vem, no segundo semestre, frequentar o MERL, mestrado do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas, da Faculdade de Artes e Humanidades, na Universidade da Madeira.: «Após passar alguns meses fora do meu país de origem, onde o idioma era outro, – diga-se duplamente outro, italiano e inglês –, retornar para um lugar “conhecido”, para mim foi como tomar um banho quente após um exaustivo dia de trabalho. Ainda que esse local me fosse novo, tinha algo de familiar e aconchegante. Assim que cheguei, meu cérebro ainda se confundiu com as palavras. Ao pedir um café, éramos dois semelhantes nos comunicando por um idioma que não era o nosso. “Desculpe-me, senhora, mas eu falo português”, eu disse rapidamente quando fui perguntado “What do you want to drink?”, no aeroporto da Madeira. Foi preciso sair e viver um longo período fora de minha pátria-casa, para perceber a falta que tinha de expressar simples melodias vocais, que “bom dia” é, quase sempre, seguido de um sorriso, que mesmo desconhecendo uma “bica” –para mim um “puro”–, ao final é sobre um café forte e preto, digno de um abraço após uma longa viagem.»
Para si, como é? Como olha para a sua língua materna? Tem importância? Considera-a como um património seu e da comunidade? Também usa “ok” e “ciao” vezes sem conta?
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