Encontro-me nada mais nada menos do que no distante Quirguistão, ou Kyrgyzstan na língua local, o que significa “terra das 40 tribos”. Um destino de viagem fora das grandes rotas turísticas, mas nem por isso menos interessante.
O sufixo “stan” utilizado em muitos dos países que compõem a região da Ásia Central, corresponde à expressão “terra de”. Kyrgyz, por outro lado, é uma palavra que resulta dos termos “Kyrg e “ys”, que em persa significam “quarenta” e “tribos”, respectivamente.
Porquê esta denominação? A principal teoria a respeito da origem do país está ligada ao Épico de Manas, que nos conta o mito de um herói quirguiz com esse nome.
Acredita-se que Manas foi responsável pela união das 40 tribos que viviam no território quirguiz, dando origem ao primeiro estado organizado do Quirguistão.
Cheguei à capital Bishkek ao amanhecer, num voo da Pegasus, companhia turca de Istambul. Viajei directo do Funchal para Budapeste e de seguida fiz a rota Istambul -Bishkek. Foram duas noites quase sem “pregar olho”… mas no poupar está o ganho.
Cercada pelas montanhas Tian Shan, Bishkek é uma capital relativamente modesta, com 1 milhão de habitantes, bastante pacífica. Teve uma base americana em 2001 para dar suporte às operações no Afeganistão.
Doze anos depois os americanos encerraram a base em apenas uma semana, em Manas nos arredores de Bishkek. 5,5 milhões de soldados da coligação internacional transitaram por esta base desde a sua instalação.
A urbe é relativamente nova e portanto não tem muitos lugares históricos. No entanto, não faltam monumentos de guerra que não posso deixar de fotografar, e prédios soviéticos grandiosos ao redor da Praça Ala Too.
Fundada em 1825 por um Khan do Uzbequistão, para servir como posto de recolhimento de impostos das mercadorias que circulavam pela região, Bishkek funcionou assim durante aproximadamente 40 anos.
Depois, os russos ocuparam o território e fizeram uma cidade projectada nos moldes czaristas, com avenidas largas, construções sóbrias e grandes praças.
Apesar da sua pequenez, Bishkek não deixa de ser imponente. Como já vinha com a lição estudada, segui um roteiro ligando o “conta-quilómetros” aos membros inferiores.
Comecei pela Praça da Vitória, construída em 1945, onde existia um antigo mercado. A praça destinou-se a assinalar o final da Segunda Guerra Mundial e a vitória sobre a Alemanha nazi.
No chão, as datas 1941-1945 recordam o período da guerra. Ao centro da praça ergue-se um monumento feito em três arcos de granito, moldados na forma de uma yurta (cabana usada como moradia pelos nómadas). No interior há uma mulher desolada que perdeu alguém da família e se encontra sozinha em frente a uma chama eterna, simbolizando a crueldade da guerra.
No mesmo local, outra obra escultórica: um grupo de homens e crianças voltando da guerra. Bem perto, encontra-se um circo, herança soviética que presenciei na Ásia Central, arquitectonicamente uma cópia sempre igual, com cara de Disco Voador. A cerca de 100 metros e em frente ao edifício da ópera, outro monumento, a Ali Tokombaev, chama a atenção para este poeta que viveu no Quirguistão ,de 1904 a 1988.
Usava o pseudónimo de Balka, e foi responsável pela troca do alfabeto arábico pelo cirílico no país, que também já usou alfabeto latino. Os quirguizes agradecem aos russos pela educação do povo e manifestam que essa foi a melhor contribuição da União Soviética para o país. Por serem nómadas, as crianças não eram alfabetizadas antes da influência russa. Já hoje em dia, o grau de analfabetismo no país é baixo.
Prosseguimos a nossa caminhada pelo Parque dos Carvalhos, deparando à nossa frente com um grande obelisco de onze metros avermelhado, tendo em cima uma foice e um martelo em bronze. Este é o Monumento aos soldados mortos do Exército Vermelho, em confrontos contra a população local numa revolta ao comunismo.
A inscrição ressalva: “Glória eterna aos que morreram pelo poder soviético”. Os referidos confrontos duraram 8 dias em 1918 e quase deitaram abaixo o governo bolchevique. Para conter a revolta tiveram de chegar reforços de Almaty, no Cazaquistão.
Na segunda crónica continuaremos a “via sacra” pela cidade em destaque para a história, nomeadamente de como Lenin perdeu o “posto” e a popularidade para Manas.
Entretanto e como sou adepto fervoroso da arte circense, quero deliciar-me esta noite e não perder um belo espectáculo no interior do edifício “disco voador”…
Curiosidades: Som, a moeda Quirguiz
A moeda do Quirguistão chama -se SOM ou na forma portuguesada, SOME (plural de ambas as formas em português SOMES. Está dividido em 100 Tyiyn: um euro vale 97,4215 SOMES o que faz desta uma das moedas mais valorizadas na Ásia Central. Há notas de 1, 5, 10, 20, 50, 100, 200, 500, 1000 e 5000 SOMES.
A palavra “ SOM “significa puro em Quirguiz, a língua local, e refere-se ao ouro puro. Como curiosidade, refira-se que um Tiyin equivale a 0,01026 euros, sendo a moeda que vale menos no mundo.
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