“Roteiros” a que falta rigor

Concentrado na escrita de um livro que abarcará factos, acontecimentos e vidas que marcaram a realidade política, económica e social do país, mas de modo especial a da Madeira, em particular no século XX, não tinha intenção de tão cedo voltar ao contacto com os leitores do Funchal Notícias.

Sucede que, através da comunicação social regional, tomei conhecimento que o jornalista Nicolas Fernandez publicara um pequeno livro, intitulado “Roteiros de Liberdade”, acompanhado de fotografias da autoria de David Francisco.

Escrever sobre histórias da nossa História recente implica rigor, objectividade. Isto é, ser fiel aos factos, aos acontecimentos, divulgar informação fidedigna e não espalhar inverdades ou falsidades. Mais a mais quando se escreve sobre assuntos relativamente recentes, como são os vivenciados no século passado.

Segundo o texto dos “Roteiros”, a fonte privilegiada foram os arquivos da polícia política, a famigerada PIDE/DGS, o que não significa que tudo o que é supostamente narrado corresponda à verdade pura e dura.

Tendo vivido intensamente, aqui e agora, uma parte substancial do período objecto de apreciação, estou à vontade para escrever que as fotos das páginas 12 e 14 do aludido “Roteiros” que alegadamente identificam a residência dos denominados “Padres do Pombal” e a sede do CCO – Centro de Cultura Operária não têm fundo de verdade.

Com efeito, ao contrário do que está escrito na página 13, a casa onde moraram os citados Padres, localizava-se à esquerda, no nº 24, da Rua das Dificuldades e não à direita. De resto, com o atentado terrorista ocorrido a 11 de Novembro de 1975, a casa foi seriamente danificada, impossibilitando-os de lá continuar a viver. Mais tarde, nesse lugar, foi construído um outro edifício que nada tem que ver com o original.

Por seu lado, a sede do CCO situava-se, essa sim do lado direito, quem sobe em direcção à Calçada da Encarnação, mas no nº 27, e não no nº que se vê na tal foto da página 14 de “Roteiros”.

Conheci todos os designados Padres do Pombal, frequentei a casa onde viveram, e dois deles, os Drs. João da Cruz Nunes e Francisco Sidónio Figueira, felizmente estão vivos, tendo o prazer de os ter como amigos.  Fui também militante do CCO, frequentei a sua sede e felizmente não padeço de amnésia.

Ou seja, estes graves erros, estas incorrecções que mancham irremediavelmente a publicação referida, poderiam ser facilmente evitáveis. Bastaria tão somente, contactar, por exemplo, os ex-padres do Pombal para não vender “gato por lebre”.

Duas notas finais. Uma, relativamente ao que se encontra escrito na página 25, a propósito da “antiga sede de vários movimentos da Acção Católica”, a identificada como se situando ao lado do Museu de Arte Sacra, corresponde à do sector masculino, uma vez que o sector feminino dispunha de outra sede, por sinal localizada também na Rua do Bispo, mas do outro lado da mesma.

Por fim, não resisto a sublinhar que o texto sobre o célebre jornal “cor-de-rosa” omite vários nomes, não só de naturais da Madeira, mas de outros, que importa destacar, como Duarte Sales Caldeira, João José Teixeira, Rui Teives Henriques, Leopoldo Gonçalves, José Agostinho Baptista, Liberato Fernandes, Victor Rosado e Paulo Sá Brás – já agora, perdoe-se a imodéstia, tive também a honra e o privilégio de ser seu colaborador e mais tarde redactor.

*por opção, o presente texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia.

 


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