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Num mundo em turbulência, devastado e sem rumo, é difícil encontrar um sentido em falar seja do que for. Qualquer discorrência pode tornar-se uma enfiada de palavras desapropriadas ou falsas convenções. Há um cansaço generalizado de ruídos e estrondos que anula as palavras, que as distorce ou silencia e só poderemos contar com as lições de vida que a cada dia, num lugar ou noutro, vão acontecendo e o mundo das pessoas tenha ainda algum significado para a palavra Humanidade. Muitas vezes me retraio perante factos que me paralisam a razão, onde o sentimento não chega, por ser uma fraca alavanca para a remoção dos grandes males. Apesar de tudo, é ainda o sentimento que nos move para que não nos tornemos em inertes e amargas estátuas de sal.
As imagens da vida chegam aos nossos olhos através de muitos meios e um deles é o suporte cinematográfico que a partir de factos reais ou fictícios catalisa as mensagens que nos ajudam a sentir e a pensar. As respectivas leituras através das acções e dos diálogos são despertadores para as consciências atentas e por isso, a escolha dos temas e do respectivo tratamento cénico acarretam aos realizadores uma enorme responsabilidade a vários níveis: A HIstória, a Sociedade e a Arte compõem uma trilogia base para veiculação da mensagem e nada pode ser descurado.
Após este preâmbulo, interessa ir directamente ao título desta crónica: A LIÇÃO. Na breve sinopse que a informação da RTP2 nos dá, trata-se de «Uma série televisiva, de produção israelita, composta por seis episódios, na qual as palavras podem inspirar, mas também destruir»´. Uma discussão política ente um professor e uma aluna, estudante de dezassete anos, transforma-se num conflito terrível que extravasa a sala de aula e atinge proporções emocionais com reflexos destrutivos na vida da sociedade envolvente.
De salientar os perfis das duas personagens principais: Uma aluna inteligente e interventiva acusa uma clara rebeldia em defesa da sua causa, e um professor consciente da sua função de educador, imparcial e apaziguador que. num momento de desespero, ao sentir-se agredido e injustiçado, perde o controle e não contém as palavras. Duma parte e doutra são as palavras em luta de razões que ditam o rumo dos vários destinos. Para a jovem estudante abre-se um mundo de altas perspectivas com incidências políticas visíveis, através do brilho e a enfase do discurso convincente; para o professor, na humildade da sua verdade, cria-se a ameaça duma carreira honesta e sábia que acaba por ditar a sua voluntária demissão.
É bem visível neste confronto o cariz que caracteriza o discurso efusivo, déspota e demagógico por um lado e, por outro, o comportamento humanista do professor tornado impotente perante interesses xenófobos, partidários e extremistas, remetido ao silêncio e à exclusão. numa escola ela também manietada por pressões exteriores.
Porém, há um porém, um incómodo, um embaraço, quando a jovem desperta para um acontecimento trágico que abala os seus sentimentos mais profundos. Um rasgo de compaixão que o coração experimenta, porque pela primeira vez o amor surge em sua vida, um amor que abate o ímpeto das suas invectivas, mas, afinal , um amor que inesperadamente a atraiçoa e desilude. Neste momento, é o silencio e o gesto solidário do professor que vão em seu auxílio. É da parte desta personagem algo perdida e enxovalhada que surge o verdadeiro repto a instigar à reflexão sobre o panorama árido, falaz e imprudente do mundo desavisado e perverso.
Falar de humanidade é entrar em assunto polémico, em cenários complexos de demandas insolúveis, mas é também, conservar a capacidade de aceitar a fragilidade humana como um atavismo comum que não exalta, nem divide, mas aproxima e une.
O peso das palavras é uma carga traiçoeira e é necessário pensar para além delas. Esta é também uma ilação a retirar desta expressiva metáfora que nos deixa a balançar entre a ficção e a realidade.
A LIÇÃO, mais do que uma simples cena de sala de aula, é sobretudo um drama claramente exposto no actual cenário do mundo, para quem quiser entender.
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