
Na manhã de hoje, nos corredores e pátios do Hospital Dr Nélio Mendonça, pudemos observar que ressalta um sentimento de impotência e de inquietação generalizado. A deslocação ao hospital para atendimento programado e rotineiro de um familiar permitiu observar, “in loco”, que os funcionários estão prontos para o serviço, que não costuma ser pouco, mas a tecnologia informática virou do avesso todo o sistema, mostrando, num ápice, a fragilidade do maravilhoso mundo digital, também na saúde.
Os atendimentos ao público, das situações previamente agendadas, fluem mas em lume muito brando e com registo manual das entradas e das observações dos exames de rotina. Os computadores colapsaram e os técnicos do SESARAM fazem uma maratona para ativar a todo o transe as máquinas que não têm chegado lá, nem com morfina, deixem passar a comparação. No meio do insólito e do absurdo, fica apenas a palavra atenciosa de todos os funcionários, quer assistentes operacionais, quer dos enfermeiros, quer dos próprios médicos, visivelmente consternados e de mãos atadas face a um ataque sem precedentes. Mas marcam presença, sorrindo ante a adversidade, com gestos de impotência pois não podem dar novidades aos utentes, já que falta a abordagem comparativa clínica que o sistema sempre garantiu. As chefias do SESARAM também não pregam olho, têm a pressão da população de salvar o sistema em nome da saúde pública, mas há coisas que as transcendem, como é o caso dos caprichos do maravilhoso mundo digital e os predadores da informática. Para uns, a crise do sistema não é invulgar nas empresas e tem gerado elevadíssimos prejuízos em reputadas multinacionais. Ninguém está a salvo dos piratas da tecnologia informática. Para outros, a capitalizar a cabala da conspiração, mas sem provas factuais, o ataque informático poderá ter mão política para eliminar dados incómodos.
As consultas agendadas estão a decorrer, embora sem grandes triagens e fazendo fé nos dados que os utentes fazem chegar aos médicos e técnicos, uma vez que a ficha clínica desapareceu dos ecrãs. Faz-se o básico, deixa-se uma palavra de apelo à compreensão dos utente e os dias vão passando, enquanto nos bastidores os informáticos acertam agulhas para reanimar o sistema que deixou de responder até mesmo ao ventilador.

Também os enfermeiros circulam com inquietação pelos corredores do hospital. O serviço condicionado impede-os de mostrar a sua habitual vitalidade profissional e, de quando em vez, trocam dois dedos de conversa uns com os outros, olham para o telemóvel e procuram atender o utente que necessite de uma informação ou de um ato de enfermagem mais básico, como se tudo estivesse normal.
Comenta-se que no serviço de urgência e nas intervenções cirúrgicas, a situação que se vive é verdadeiramente caótica, pese embora o discurso de esperança que tem sido oficialmente veiculado de que tudo regressará rapidamente à normalidade, mas, de forma realista, com a previsão de que a melhoria será gradual e não imediata. Trabalhar a olho, com base nos dados que o utente apresenta e na observação direta, sustentada por alguma experiência clínica, assim os serviços vão tentando dar resposta aos casos mais urgentes, naturalmente com grande preocupação pela responsabilização do serviço prestado em condições extremamente adversas e ímpares.

Dizem-nos que os holofotes recaem sobre o hospital central, Dr Nélio Mendonça. Mas também se vive o mesmo problema nos centros de saúde, no Hospital dos Marmeleiros e no Hospital João de Almada. A rede central colapsou e, sem sistema, o serviço caminha doente. Alguns profissionais garantem-nos que, brevemente, tudo voltará ao ritmo normal. Não há outra solução a não ser deixar correr os dias e esperar pela reanimação dos serviços, desta feita com o estigma de que não há tecnologia informática hospitalar à prova dos ciberataques. Mais uma grande lição a marcar o habitualmente cálido mês de agosto, desta vez a escaldar internamente. Valha-nos a presença sempre pronta e resiliente dos profissionais de saúde, a arriscar até a sua idoneidade profissional para não mandar embora os casos verdadeiramente urgentes. Depois da pandemia, continuam os tempos difíceis por conta dos malvados vírus, desta feita com a má fé dos experts da tecnologia. Não é, pois, de estranhar as estatísticas de 2022, que colocam Portugal como o terceiro país europeu com mais ataques informáticos, com o setor turístico a registar uma incidência significativa.

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