![]()
Na Universidade de Aveiro, nestes últimos dias, participei no III Congresso Internacional em Variação Linguística nas Línguas Românicas, patrocinado pelo Centro de Línguas, Literaturas e Culturas (CLLC) da Universidade de Aveiro (UA), ao qual pertenço. Vim apresentar uma parte da investigação que tenho andado a realizar sobre os nomes do “pão”, a fim de compreender, sobretudo, quais são património linguístico madeirense. No presente, os recolhidos, nas ilhas da Madeira e do Porto Santo, estão listados alfabeticamente e já são mais de 200 nomes. As apresentações do Congresso versaram sobre diferentes assuntos, mas todas abordaram a questão da variação linguística. As línguas, mesmo as escritas, oferecem uma pluralidade de possibilidades, em particular no registo oral, mas igualmente no escrito.
A conferência de abertura de Maria Teresa Tedesco, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, foi dedicada à realidade linguística brasileira. Sabia que o Brasil é um país plurilingue? Terá mais de duas centenas de idiomas! Contudo, esta diversidade não se encontra generalizada e dispersa pelo território, tratando-se mais de um “multilinguismo localizado” (expressão da historiadora da língua Rosa Virgínia Mattos e Silva). A conferência de encerramento, proferida por Azucena Palacios da Universidad Autónoma de Madrid, abordou a relação da variação linguística do espanhol falado na América Latina, através do “contacto linguístico”. Muitos falantes de espanhol estão em situação de bilinguismo e vários, dominando muito ou pouco o espanhol, têm outras línguas como línguas maternas. Em alguns destes idiomas, não se faz a distinção de género gramatical e esta particularidade reflectem-se, por exemplo, quando se fala espanhol. A estrutura linguística pode, no entanto, distinguir singular/ plural. Por isso, falantes da América Latina, quando falam espanhol, não realizam a distinção de género. Por exemplo, há aí línguas em que o sistema dos pronomes átonos (“lo/los – le/les”) é simétrico, diferenciando unicamente a função (completo directo ou indirecto) na frase e o número singular/plural. Diferentemente, em espanhol, o género gramatical ocorre nos pronomes átonos apenas com a função de complemento directo, já que para a função de complemento indirecto não se realiza (“lo/la/los/las – le/les”). Em português, também é assim (o/a/os/as – lhe/lhes). De modo que, alguns falantes de maya yucateco, tepehuano, otomi, malecu, etc., quando se expressam em espanhol, não realizam determinadas estruturas do espanhol. Por vezes, as concordâncias gramaticais de género não são opção e isso não significa que não saibam produzi-las ou errem. É apenas uma opção linguística estruturada de modo diferente, mesmo se quem ouve falar pense que é errado. A temática do “erro linguístico” tem-me apaixonado e vou desenvolvendo alguma reflexão a esse respeito. Contrariamente a muitos colegas, tenho uma visão positiva do erro, que, com frequência, é olhado de modo negativo. Julgo que o problema da “discriminação linguística” (discriminar alguém pelo seu modo de falar) está amplamente difundida e mereceria alguma atenção. Quem é linguista regista e estuda o que os falantes produzem, não havendo lugar para juízos de valor. Quem ensina, evidentemente, tem de os fazer pedagogicamente e com respeito, para auxiliar na aprendizagem linguística normativa, mas esse processo não visa discriminar ninguém. Pelo contrário, é fundamental valorizar a língua primeira, enquanto se ensina uma segunda, já que uma língua é o pilar de uma comunidade ou grupo. É possível pertencer a mais do que uma comunidade e ter, por conseguinte, mais do que uma língua. Além disso, social e culturalmente, os falantes unem-se em torno de um idioma, mesmo se possui variação linguística porque a “norma padrão”, enquanto modelo, mantém os falantes juntos. As línguas românicas têm o latim como base e, por isso, neste congresso, foi possível ouvir falar, além do português, francês, galego e espanhol.
No programa social, houve uma visita guiada ao Museu de Aveiro, oferecida pela Câmara Municipal de Aveiro. Estes momentos culturais são essenciais e permitem valorizar a localidade, já que havia vários congressistas internacionais que poderão voltar à cidade, se a primeira impressão foi boa. É assim que um congresso científico promove o turismo. O guia, José António Christo, o próprio responsável pelo Museu, foi fantástico e incansável em explicações pormenorizadas, permitindo uma aprendizagem alargada e, inclusive, linguística. Os museus são espaços riquíssimos que combinam diversos conhecimentos. Quanto a mim, e por isso mesmo, propiciam a multidisciplinaridade. À Linguística, deveria interessar toda a linguagem museológica. Há muitas informações específicas que estão à espera de um estudo linguístico aprofundado, a começar pelos nomes das peças que expõem. Voltei a este meu pensamento, que tem já alguns anos, ao ouvir o guia durante a visita ao Museu de Aveiro. Foi evidentemente impossível percorrer todo o espaço museológico, que eu já conhecia e que não me incomodou nada de rever. Aliás, poderia revê-lo vezes sem conta, a este e a outros, porque há sempre algo a aprender e a redescobrir.
O Museu de Aveiro/ Santa Joana foi um convento de freiras dominicanas de clausura, fundado em 1458, para onde entrou, em 1472, a princesa D. Joana, que era filha do rei D. Afonso V. O extremoso irmão, D. João, o Príncipe Perfeito, quis forçá-la a sair do convento. No entanto, teve de desistir da ideia pela posição firme que ela impôs. Era uma mulher determinada. Fez frente a todos, no sentido de poder seguir com a sua vontade de permanecer em clausura. Parece que tinha bons pretendentes. Porém, como ela não queria casar, eles morriam inesperadamente, antes da data do casamento, o que, ao fim de algum tempo, se tornou anedótico. Não convinha ser seu pretendente! Mulher de grande firmeza, soube o que queria e não desistiu da sua ideia. As histórias sobre a princesa foram acompanhando as pinturas e outras obras no piso inferior do Museu de Aveiro, que apresenta o nome dela, dando-lhe a vertente católica: Santa Joana. Sendo princesa e religiosa, atribuiu-lhe o povo grande relevo porque ela terá auxiliado os mais necessitados, ganhando dimensão de santidade. Daí, passou a padroeira da cidade de Aveiro.
O tempo limitado que se pôde dedicar à visita foi passado pela parte inferior do edifício. Ficámos essencialmente pela capela; passámos pela sala onde está o corpo de Santa Joana; fomos até ao claustro e acabámos no refeitório. As informações históricas e os episódios anedóticos auxiliam a memória a recordar alguns pormenores. A partir de agora, sempre que ouvir ou disser a expressão idiomática “ouro sobre azul” recordarei este momento cultural particular. Eu repetia-a muitas vezes, embora não soubesse de onde vinha e nunca me tivesse questionado sobre o assunto. Aliás, no geral, há explicações para pormenores linguísticos como este e nem ocorre perguntar de onde provêm ou qual o seu significado primeiro. Alguém sabe de onde vem e o que significa “ouro sobre azul”? Se forem como eu, também não se terão questionado sobre o assunto. Mesmo quem tem por hábito desenvolver reflexão linguística não sabe tudo. Além disso, é impossível estar constantemente a questionar e a problematizar todas as expressões e palavras. No geral, sabemos que “ouro sobre azul” significa que “há algo melhor do que outra coisa” (embora diferente de “a cereja no topo do bolo”). Portanto, o ouro é melhor do que o azul, que já é muito bom. O ouro brilha permanentemente, tendo, por conseguinte, muito valor financeiro. As reservas de ouro de um estado nacional são guardadas em cofres e evidenciam grande riqueza. O fascínio do ser humano pelo ouro vem de longe. Na sequência linguística “ouro sobre azul” para que remeterá o azul? O significado da expressão idiomática “ouro sobre azul” foi apresentado na capela de estilo barroco do Museu de Aveiro/ Santa Joana, que está integralmente recoberta e decorada. É verdade! Preenchendo a parte de baixo, os azulejos azuis remetem para a componente humana, a efémera e mortal, a da vida passageira. A folha de ouro (Brasileiro, claro!) reveste toda a parte superior da capela. Representa o lado divino e eterno, luminoso e imortal. Deus está representado no ouro. Não serão por acaso todas as aproximações do divino à luz, ao Sol. Portanto, quando dizemos “ouro sobre azul” (uma coisa é bem melhor do que outra, estando ao lado uma da outra), é porque, nas igrejas e capelas, o ouro é mais brilhante do que o azul dos azulejos e está acima dele. Está explicado e não é nada de transcendente compreender a diferença de “azul” – painel de azulejos em tons de azul – e “ouro” – talha dourada em peças a decorar as paredes. Aparecem ambos, numa combinação decorativa de edifício religioso.
Pensando em cores e em museus, visitei há dias a exposição de Ricardo Barbeito no Museu Henrique e Francisco Franco. Numa hora de almoço, entre o trabalho da manhã e o trabalho da tarde, alimentei a alma, antes de alimentar o corpo. Aproveitei estar o espaço museológico aberto e fui espreitar, para não dizer “bilhardar”, uma palavra importante na carreira do artista Ricardo Barbeito. Aí, a cor predominante e escolhida pelo artista para a sua instalação “O RESTO É PAISAGEM” é o verde. Faz sentido.
Ricardo Barbeito readapta quadros, essencialmente de paisagens, de Henrique Franco e, num jogo de memória, surpreendentemente, vamos revendo cada um dos escolhidos em verde no formato de “telas de pelúcia” (cf. Informação explicativa da Instalação Artística). Parece um jogo de criança, mas não o é. As obras artísticas permitem leituras diversas com aproximações impressionantes. Como nos quadros de Henrique Franco, Ricardo Barbeito alinha traços paisagísticos. Ao entrar, não se compreende bem o que está a acontecer e, à medida que se avança no percurso da proposta, a (re)construção ganha sentido. Uma vez que um dos irmão não basta, “O Semeador” foi a escultura de Francisco Franco que Ricardo Barbeito reanalisou, através de “uma versão em peluche” (cf. Informação explicativa da Instalação Artística). Aqui, a verticalidade de “O Semeador” foi redimensionada e o peluche O Semeador apresenta-se no chão.
Semiologicamente, a palavra “verde” remete para muitas coisas e ideias. Uma das primeiras associações que se estabelece é mesmo com “natureza” e “paisagem” (rural, campestre, agrícola, etc.) como a dos quadros de Henrique Franco que pintou a paisagem natural e humanizada de uma parte da ilha da Madeira do seu tempo. O peluche (mole, flexível e no chão) de O Semeador (duro, metálico e de pé) tinha de ser verde e o artista apresenta as composições traçadas em papel que permitiram construi-lo. Na escultura, que se revê mentalmente para quem a conhece, a nudez e o saco de sementes remetem para a masculinidade. É uma peça que dá que pensar. Aliás, a escultura de Francisco Franco e o enorme peluche de Ricardo Barbeito dão que pensar. O original encontra-se num jardim com um sistema de água a correr continuamente, junto à Câmara Municipal do Funchal, onde, por vezes, descanso um pouco. Sento-me num banco a ouvir a musicalidade da água, enquanto observo a verticalidade e o ar concentrado deste grande Semeador descalço. Com ar de poucos amigos, cumpre o seu dever: semear, com uma mão no saco está pronto a lançar as sementes na terra. Por isso, para mim, conhecendo a escultura, é sublime o contraste com o peluche e o artista explica a sua motivação (cf. Informação explicativa da Instalação Artística), que não vou revelar aqui. Para saberem terão de visitar a instalação, até porque, quem sabe, poderão não concordar comigo. Para construir uma opinião é preciso ir e ver ou ir ver, o que não é o mesmo.
Espero que O Semeador de Ricardo Barbeito – assim como os seus quadros verdes – não se perca e que possa continuar a fazer pensar pelo contraste, e simultaneamente similitude, que apresenta. A Arte é área de questionamento e criação porque é humana como a linguagem verbal. Quem ainda não foi ver a instalação artística pode, gratuitamente, alimentar a imaginação através da visão porque a proposta está patente no Museu Henrique e Francisco Franco até 31-07-2023. Vale a pena ir ao museu e ver a instalação! É verde sobre …, ou melhor, é ouro sobre azul.
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.




