Rui Marote
O FN contou e recontou em toda a extensão da Rua da Carreira o número de edifícios devolutos: totalizam 41. Esta é uma das ruas mais antigas do Funchal. Em tempos, foi conhecida também como Carreira dos Cavalos ou Carreira Velha do Cavalo, designações que se deviam às corridas de cavalos que aqui se realizavam. Esta artéria era porta de entrada e saída para a zona mais ocidental do Funchal, dando acesso a outras freguesias.
Era por esta rua que chegavam pessoas das zonas mais rurais da Madeira, que vinham vender os seus produtos hortícolas. Actualmente, alberga estabelecimentos de comércio, restauração e serviços.
Nos últimos 20 anos, no entanto, só se verificaram aqui quatro intervenções de grande vulto: o edifício da Caju, o Museu Fotografia Vicentes, o antigo edifício das Belas Artes transformado em apartamentos de luxo, e a casa do tenente-coronel Alberto Artur Sarmento, que hoje alberga a Secretaria Regional da Saúde e Protecção Civil.
Há cerca de 20 anos a edilidade funchalense, com apoio do Millenium BCP, “lavou a cara” a todos os prédios, pintando todas as fachadas.
A rua chegou a ser uma rua “Bangladesh” comercial, muito disputada por indianos, paquistaneses e originários do Bangladesh. Hoje aqueles espaços estão transformados em restaurantes, com esplanadas que ocupam a via que está encerrada ao trânsito entre a Rua de São Francisco e Rua da Mouraria.
Há estabelecimentos lamentavelmente encerrados há anos, como a Padaria-Confeitaria A Lua, Palácio dos Canaviais, a casa dos Zinos, que ocupa a maior área em extensão, a Capela de São Paulo, em degradação, não esquecendo o prédio do primeiro hospital madeirense, em ruínas.
Os edifícios ao longo desta via apresentam-se sem telhados e com os tectos caídos, residência de rataria. A antiga escola da Rua Carreira está encerrada há mais de 30 anos e nas varandas, para memória, ostenta ainda o nome de este ex-estabelecimento de ensino. O antigo distrito de recrutamento militar encerrou e ninguém sabe qual será o seu destino. Mas há outros prédios, como a ex-sede do CDS, encerrada e em degradação. O Hotel Colombo está encerrado, aguardando melhores dias. Porta sim, porta não, as marcas dos tempos estão bem visíveis no estado de abandono destes imóveis.
Esta é, sem dúvida, uma zona nobre que merece melhor atenção da edilidade funchalense. Aqui fica um alerta ás entidades e proprietários. Se continuarmos a fechar os olhos teremos muito em breve uma “Ucrânia”, ou seja, tudo espatifado mesmo sem mísseis… Quase parece que só existe uma solução, aplicar uma espécie de “Lei das Sesmarias” aos imóveis: uma legislação do reinado de D. Fernando I datada de 28 Maio de 1375 com objectivo de estimular a produção agrícola e diminuir o despovoamento rural. A grande característica desta lei era a instituição do princípio de expropriação caso a terra não fosse aproveitada.
Neste caso era incentivar a recuperação dos edifícios. Mas brincamos: há que respeitar a propriedade privada. O que as entidades oficiais devem fazer é, parece-nos, dar suficientes e necessários apoios aos proprietários para recuperarem prédios emblemáticos do centro do Funchal. Afinal, há tanto dinheiro público que é entregue a clubes e associações…
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