Vanda Gouveia em homenagem a Saramago evoca lema do escritor: “Não se resignar. Indignemo-nos!”

“Não se resignar. Indignemo-nos”. Este “desafio de leitura” é da autoria de José Saramago, na sua escrita comprometida com o compasso dos dias de cada tempo, evocado por Vanda Gouveia Fernandes, preletora da conferência realizada na Escola Secundária Jaime Moniz, em homenagem ao centenário do nascimento do escritor português, que hoje se assinala. Uma partilha rica e versátil para alunos do ensino secundário que estudam o escritor no seu programa de Português.

Com diapositivos claros e profundamente significativos do escritor, enriquecidos por uma apaixonada leitora da sua obra, a docente da ESJM, Vanda Gouveia Fernandes elucidou os alunos e colegas sobre o percurso do escritor, em linha com o universo ficcional e as motivações subjacentes à histórias que se perfilam nas mais diversas e desafiantes obras do também laureado Nobel da Literatura.

Nesta conferência, dinamizada pelo grupo disciplinar de Português alusiva ao centenário do nascimento de Saramago, o ponto de partida foi um convite primeiro às origens do autor, a uma infância marcada pela pobreza mas também pelo fascínio pelos livros. Autodidata, a Biblioteca de Galveias foi a sua primeira universidade, o passaporte para a aprendizagem da literatura e outras artes. Depois desta cumplicidade cultural com a leitura, o cerne da obra Saramaguiana poderá ser visto como um firme compromisso com a luta pelos ideais intemporais da justiça e da defesa dos últimos ou dos mais esquecidos, o povo. “A injustiça é um dos motores da minha obra”, recordou Vanda Fernandes, citando Saramago, viajando sumariamente pelos diversos títulos e pelas diferentes fases poéticas, desde a poesia à narrativa. Curiosa e pertinente incursão de Vanda Fernandes pelos trabalhos poéticos de Saramago, menos conhecidos do público, merecendo particular relevo o poema “Demissão”, de que transcrevemos os seguintes versos que dizem muito: “Este mundo não presta, venha outro./ Já por tempo de mais andamos/ A fingir de razões suficientes./ Sejamos cães do cão (…)”

Na literatura de Saramago, é menos importante as histórias e mais desafiante as lições de vida que comportam. Recordando a posição de “constante interrogação”, como aliás Saramago se posiciona, a oradora deu singular enfoque ao traço Saramaguiano de ser uma voz crítica do seu tempo, citando o próprio quando afirma “é melhor se enganar do que mostrar indiferença. A indiferença mata a humanidade”. Aliado a este compromisso de ser uma consciência crítica do mundo, a dimensão inseparável do escritor que assume escrever “para desassossegar”, ao serviço de um compromisso ético e humanista que perpassa o universo narrativo do escritor.

Vanda Gouveia não esqueceu também a apoteose que Saramago faz da mulher, admirando-a pela sua firmeza, força e excecionalidade, através de personagens simbólicas como Blimunda, Lídia, Marcenda, Maria Madalena, Maria e tantas outras figuras da ficção.

 

 

A encerrar a sua preleção, Vanda Gouveia Fernandes enalteceu a importância que certos valores têm para Saramago. “O único valor que mais considero revolucionário é a Bondade”. Foi desta forma, a de uma singela e pertinente homenagem a um escritor, de compromisso com a justiça e de uma entrega sem limites ao outro, que Vanda Gouveia Fernandes terminou a conferência, convidando ainda cada aluno a fazer a sua descoberta pessoal no processo de leitura dos romances do autor.