Mãe de toxicodependente escreve carta ao FN e critica atuação das entidades competentes

Foto arquivo FN.

Dado o interesse público do assunto e dos últimos números e notícias vindas a público sobre a droga na Madeira e o aumento da mendicidade nas nossas ruas, o FN publica a carta de uma mãe remetida a este jornal, cuja identidade, apesar de explícita na missiva, assim como do filho, se omite. É o apelo desesperado de uma mãe com um filho toxicodependente , a questionar o sistema, bem como um alerta às autoridades competentes.

“Sou mãe dum rapaz de 25 anos diagnosticado com esquizofrenia (devido a consumos de substâncias ilícitas), atualmente em situação de sem abrigo. Tem historial de internamentos desde 2015, sendo o primeiro solicitado (se não implorado) por mim junto do delegado de saúde pública em articulação com polícias que executam mandato de condução de forma a ser internado compulsivamente e enfermeiros meus conhecidos que o receberam no Hospital, assim que deu entrada. Em 2016, a história repete-se. O meu filho volta a descompensar e fica em situação de sem- abrigo e novamente solicito pedido de internamento compulsivo. Desde então, uma vez por ano a história repete-se, até que em 2020, é internado novamente e, “finalmente”, é feito um relatório médico em que é diagnosticado como esquizofrénico, inclusive recebendo uma prestação social de doença desde essa altura.

O meu filho fica internado na Casa de Saúde por um ano, numa unidade de reinserção de forma a ganhar competências sociais. Finalmente, vem para casa, sendo considerado um caso de sucesso devido ao seu esforço e à resposta positiva ao tratamento.
Infelizmente, após deixar novamente a medicação, volta a descompensar e volta à rua. Há relativamente um mês , após receber uma mensagem no telemóvel de que tinha testado positivo à covid, tentei saber informações sobre o estado dele e sou informada de que estava internado há uns dias devido a uma agressão com arma branca, tendo perfurado pulmão. Quando ligo para hospital de forma a obter informações e saber o porquê de família não ter sido informada, o enfermeiro informa-me, para meu espanto, que o meu filho é maior de idade e não são obrigados a informar a família. Eu respondo que, com certeza, têm informação de que ele tem uma doença mental e que nas análises que efetuaram, viram que não toma medicação e que consome substâncias ilícitas. De forma arrogante, e nada empática, reforça, o facto de ele ser maior de idade e de que é a lei!!
Desde aí que tenho, em conjunto com uma psicóloga do Centro de Saúde, tentado interná-lo novamente mas a resposta que obtenho do delegado é que, devido à nova lei da privacidade, o internamento só é possível mediante um novo relatório médico, ou seja, o meu filho terá de ser novamente visto por um médico. Uma vez que já fui ameaçada por ele na rua e inclusive no meu local de trabalho (quando está em surto, não me reconhece como mãe), fui aconselhada a apresentar queixa crime de forma a reforçar pedido de internamento compulsivo junto ao delegado. Sinto-me REVOLTADA, indignada, defraudada com esta lei da saúde mental. Perante o historial dele nestes últimos anos, o facto de ter sido agredido e ser mais que notório que é uma ameaça à sua integridade física e possivelmente a dos outros, como é possível o critério de internamento ser o de voluntário??!! A conclusão a que chego é a de que a situação dos sem-abrigo no Funchal passou a ser algo banal. Existe o estigma de que o sem-abrigo está nessa situação porque quer mas não é de todo verdade. Alguns têm doença mental e necessitam de cuidados. É um direito que têm serem assistidos nos cuidados básicos! Claro que têm regras a cumprir mas maioria tem uma psicose associada e entram em desespero quando lhes é negada uma refeição ou uma simples banho, pois portaram-se mal!!Não entendo como se fala tanto na liberdade do meu filho e de tantos outros em escolherem estarem um na rua, quando têm uma psicose associada a essa sua vontade!? Uma vontade com ausência de discernimento devido à falta da devida medicação.
Apesar de notório o suporte familiar que o meu filho tem e todo o esforço que tem sido feito da minha parte e família para que ele receba os cuidados médicos, levo com a resposta de que a lei mudou e o conselho que me dão é que continue com minha vida pois ele é maior de idade. Como se pode dizer a uma mãe para continuar a viver, a dormir numa cama confortável e quente quando sabe que seu filho está na rua a dormir? A conseguir se alimentar adequadamente quando seu filho passa com certeza fome!?! Todos os dias levanto—me cedo, envio a minha filha para escola, vou ao curso que estou a tirar, depois na parte da tarde vou trabalhar e exerço as minhas responsabilidades de mãe da minha filha mas com o sentimento de que estou a falhar nas responsabilidades para com meu filho. Isto tudo à base de ansiolíticos devido aos ataques de pânico que tenho diariamente, principalmente quando o meu telefone toca e penso se será dessa que me dirão que algo de grave aconteceu ao meu filho, de que ele me vá aparecer no meu local de trabalho a ameaçar-me de que me vai matar como já aconteceu duas vezes.
Não sei se isto será lido por alguém que tome as devidas providências mas acho que é dever da comunicação social divulgar o que está sendo feito em relação a esta vaga de sem-abrigo na Ilha da Madeira. NADA!!!
Ontem foi um dia mau. O inspetor da Judiciária que estava a tratar do caso de esfaqueamento do meu filho, garantiu-me que, quando encontrasse o paradeiro do meu filho, entrava em contacto comigo de forma a que eu me reunisse com ele e tentasse convencê-lo a aceitar o internamento de forma voluntária. Para meu espanto, o meu filho dirigiu-se ao meu serviço hoje, com a ameaça de dar-me uma pancadaria, pois tinha sabido pelo inspetor que eu tinha feito uma queixa-crime contra ele (!!). Resumindo, a resposta que recebo do inspetor após entrar em contacto com ele, é que o trabalho dele estava concluído e que o meu filho é maior de idade, independentemente da patologia clinica e que não tem nada a ver com esta situação. Numa altura em que se fala tanto em abrir consciências e em empatia…
Só me deparo com guerra de egos entre instituições e arrogância dos profissionais que deveriam ter como missão assegurar o bem-estar das pessoas em condição de sem-abrigo. É o jogo do empurra. O delegado de saúde manda o meu filho ser visto por um psiquiatra de forma a ser avaliado, quando  é difícil, visto que foge das técnicas das instituições; dirijo-me à Casa de saúde onde foi tratado e, inclusive feito relatório, e respondem-me que o mesmo só pode ser solicitado pelo utente pois é maior de idade!?
Não sei se ria se chore, muito sinceramente já chego ao ponto de questionar minha sanidade mental!
Fala-se tanto  de direitos e gostava de saber onde está sendo exercido o meu direito de andar na rua sem me sentir ameaçada e de que ele apareça cá em casa, enquanto eu estiver sozinha com minha menina de 11 anos!”