Congresso SPM: autorregulação, mediação e formação para valorizar e rejuvenescer os professores


“A mediação entre os pares. Um caminho possível para a prevenção do desgaste docente” foi tema da sessão da tarde do primeiro dia do 13.º Congresso do SPM que decorre no Savoy Hotel. Numa das comunicações foi abordada a nova dinâmica relacional no interior da escola que pode ser fundamental para reduzir o desgaste na profissão e combater situações que possam suscitar o burnout entre os docentes.
Luísa Santos, presidente do Instituto Português de Mediação Familiar, trabalha na área da sensibilização e formação de técnicos competentes, em investigação e reflexão, designadamente através de sessões regulares que visam a reflexão sobre a prática da mediação e sobre questões relacionadas com o conflito e, fora do instituto, promovendo a integração de temáticas de mediação nos currículos universitários e pós-universitários das áreas afins.
A transposição deste conceito para o interior das escolas está a dar os primeiros passos, mas pode revelar-se uma importante estratégia nestas situações. Consiste, essencialmente, na procura de uma forma em que as partes em litígio cheguem a um acordo, procurando um processo transformativo para evoluir para uma mudança positiva. Mediar, segundo a convidada, não é mais do que comunicar para transformar, no respeito pelas crenças, atitudes e interesses do outro que são necessariamente e sempre diferentes. A arte de comunicar é, pois, aquela que permite encontrar o equilíbrio numa situação de conflito e dessa forma trabalhar o progresso das relações capazes de se traduzir de uma forma muito positiva.
Rejuvenescimento docente
Amélia Lopes é professora da Universidade do Porto. Numa comunicação a que chamou “Ascensão e queda da profissão docente em Portugal. Os meandros de uma crise e alguns sonhos”, defendeu que a formação profissional não é o principal problema da falta de atratividade da profissão.
Lembrando o grande investimento político após a aprovação da LBSE, designadamente o ECD, em 1990, e outra legislação nascida a partir dos trabalhos da Comissão de Reforma do Sistema Educativo, enfatizou o facto de os anos 90 terem apoiado o desenvolvimento de muita investigação em educação, incluindo ao nível da formação de professores inicial e contínua. É a partir dos anos 2000 que a escola sofre uma oscilação entre a escola dos valores e a escola sujeita ao mercado. É partir desta altura que as teses neoliberais ganham maior projeção e fazem parte das estratégias de governação, também na área da Educação. E os professores passam a ser vítimas dessas opções, designadamente sendo acusados pelos baixos resultados escolares, refutando a tese de que deve ser a partir do interior da profissão que a profissão se deve autorregular. Esta estratégia de desvalorização do papel social do professor e das suas competências criou um contexto de aversão à evolução da desenvolvimento da profissão. Este processo afastou, desmotivou, destruiu a imagem que os próprios professores construíram sobre si e a sua própria profissão.
Uma interessante comunicação que ajuda a perceber melhor como a desvalorização estratégica da profissão docente serviu para que os próprios profissionais olhassem sobre si destruindo também a sua própria imagem, perdendo respeito sobre si mesmos e condicionando as suas atitudes e a sua defesa enquanto profissionais altamente especializados.
Num registo completamente diferente, Elsa Fernandes, docente da Universidade da Madeira, com muita experiência na formação inicial de professores, veio defender um novo design para o ato de aprender e de ensinar, potenciando dinâmicas de cooperação entre pares e desenvolvendo processos promotores de competências essenciais. Um novo design para o ato educativo e desenvolvimento de novas e emergentes competências, tendo em conta: Espaço, Metodologias e Recursos. Tudo em função das pessoas a quem o ato de ensinar se dirige. Transformações que é necessário realizar, mas que se confrontam com uma redução de 30% do número de estudantes de mestrado em ensino e com a saída em quase bloco de milhares de professores para a aposentação (50% na próxima década). Por outro lado, sem um quadro de professores estável, e sem incentivos para que os jovens escolham a profissão docente como opção de futuro, é impossível renovar a esperança numa alteração qualitativa positiva. A curto prazo, temos já falta de professores. A solução a encontrar não pode perder de vista, de nenhum modo três aspetos essenciais: formação de qualidade, valorização dos profissionais de educação e investimento na ação cidadã e no papel social dos docentes.
Também o debate trouxe importantes contributos para a análise das causas do mal-estar na profissão e dos retrocessos que sobre a profissão docente foram incidindo. Uma avaliação do desempenho que trouxe a competição (versus a cooperação) para o interior da classe e o fim da gestão democrática foram alguns dos aspetos salientados, designadamente pelo secretário-geral da FENPROF.