“Madeira Camerata” assinala centenário da morte do compositor madeirense Anselmo Serrão

A Madeira Camerata, agrupamento de música de câmara da Orquestra Clássica da Madeira, sob direcção musical do violinista Norberto Gomes, comemora o “100º Aniversário da morte do compositor madeirense Anselmo Serrão”, este sábado, 05 de Novembro, pelas 18h, no Salão Nobre da Assembleia Legislativa da Madeira.

“Desde a temporada 2018/2019 que a ANSA, através da estrutura artística da Orquestra Clássica da Madeira vem, de forma permanente, incluindo obras musicais de autores madeirenses, dos últimos três séculos, nas suas temporadas. Para esse efeito contou com colaboração de Paulo Esteireiro, Rui Magno Pinto, Francisco Loreto, Giancarlo Mongelli, Cesário Costa, e de algumas instituições que estes representam, para a recuperação e edição dessas obras”, refere um comunicado.

“Neste concerto, em parceria com o Conservatório – Escola Profissional das Artes da Madeira, comemoramos o “100º Aniversário da morte do compositor madeirense Anselmo Serrão”, com a recuperação e interpretação de duas obras da sua inspiração, com adaptação e orquestração de João Caldeira: o moteto “Proprio Filio Suo” e “Ave Maria”. Estas duas composições terão a voz do tenor Alberto Sousa e da soprano Raquel Camarinha que se junta na “Ave Maria”.

Para este concerto, temos também em programa a Sinfonia/Abertura do compositor português Carlos Seixas, e a Cantata BWV 199 “Mein Herze schwimmt im Blut”, de Johann Sebastian Bach pela voz de Raquel Camarinha”, adianta Norberto Gomes.

“Um concerto que demonstra a orientação e sensibilidade da Orquestra Clássica da Madeira na recuperação de obras madeirenses e, que desta forma, aproxima a Orquestra à comunidade onde esta se insere”, insiste.

No âmbito da responsabilidade formativa e pedagógica da Orquestra Clássica da Madeira, os alunos e formandos de todas as áreas artísticas do Conservatório – Escola das Artes da Madeira têm entrada livre mediante apresentação de cartão estudante.

Os bilhetes custam entre 15€ e 5€ e podem ser adquiridos nestes locais:

  • Loja Gaudeamus – Colégio dos Jesuítas, Rua dos Ferreiros (próximo da Câmara Municipal do Funchal)
  • Assembleia Legislativa da Madeira – apenas no dia do concerto, a partir das 17h.

O programa detalhado é o seguinte:

Carlos Seixas [1704-1742] – Sinfonia em Si bemol maior

Anselmo Serrão [1846-1922] – [Adaptação e Orquestração – João Caldeira]

Moteto “Proprio Filio Suo”

Ave Maria

Johann Sebastian Bach (1685-1750) – Aria da Suite Nº3 em Ré maior

Johann Sebastian Bach (1685-1750) – Cantata BWV 199 “Mein Herze schwimmt im Blut”

Esta é a formação da “Madeira Camerata”:

Norberto Gomes • Violino e Direção Musical

Olena Soldatkina • Violino

Nshan Chalikyan • Violino

Parandzem Khachkalyan • Violino

Valeriy Perzhan • Violino

Edina Tenki • Violino

Volodymyr Petryakov • Viola

Marina Gyumishyan • Violoncelo

Iryna Bandura • Violoncelo

Gabor Bolba • Contrabaixo

Cravo – Giancarlo Mongelli

Oboé – Daniel Cuchi

Anselmo Baptista de Freitas Serrão Júnior foi um dos músicos madeirenses mais dinâmicos na segunda metade do século XIX. Compositor, organista, maestro, violinista, bandolinista e participante ativo em bandas filarmónicas, nas quais tocava instrumentos de sopro.

Natural de Câmara de Lobos, onde nasceu em 06.09.1846, no Sítio de Jesus Maria José era apenas conhecido por Anselmo Serrão. A sua formação musical foi conseguida através da participação em bandas filarmónicas na Madeira, durante a segunda metade do século XIX.

A obra de Anselmo Serrão integra várias peças que compôs para bandas filarmónicas, entre as quais o Hino da Filarmónica, adotado pela Banda Municipal de Câmara de Lobos; Último Adeus, uma composição musical fúnebre; e obras musicais que compôs e arranjou para orquestra de salão, principalmente muitas danças europeias, tais como as valsas Waltz, datadas de 1868; o manuscrito Proprio Filio Suo, motetto a solo de baixo, composto em março de 1870; e galopes, com o título L’Enfer, de 1876.

Anselmo Serrão foi regente da Filarmónica dos Artistas Funchalenses entre 1887 e cerca de 1892; integrou a Orquestra do Teatro Esperança, dirigida por Francisco de Villa y Dalmau e em 1893 tocou viola na Orquestra Característica Madeirense, dirigida por Agostinho Martins.

Entre as atuações referidas, o Diário de Notícias da Madeira noticiou a 30 de abril de 1891 um espetáculo promovido pela troupe Cómico Musical no Teatro D. Maria Pia, que contou com a participação de vários artistas da época, entre os quais Anselmo Serrão, Augusto José Migueis e Nuno Graceliano Lino. Compositores e regentes de renome na Madeira.

Neste evento Anselmo Serrão destacou-se como “uma lição de música (…) com acompanhamento da troupe [Cómico Musical]”, refere o Diário de Notícias da Madeira.

O Diário de Notícias também publicou outras atuações de Anselmo Serrão enquanto regente de bandas, com especial destaque para a atuação da Filarmónica dos Artistas Funchalenses, em junho de 1888, na Rua da Praia, no Funchal.

Apesar da sua dedicação ativa à música profana, as suas obras musicais mais famosas de Anselmo Serrão foram compostas para Igreja.

Entre os agrupamentos religiosos a que esteve ligado destacam-se a Orquestra de Igreja da Filarmónica Recreio dos Lavradores, cuja direção assumiu em 1917; e o Grupo Musical do Estreito, fundado por Anselmo Serrão em 1920, para atuar nas festividades religiosas e vários coros.

Anselmo Serrão faleceu em 08.06.1922 na Madeira, após 60 anos de grande intervenção na cultura musical madeirense, sacra e profana.

De acordo com o professor e investigador João Arnaldo Rufino da Silva, as músicas de Anselmo Serrão mantiveram grande influência no meio musical durante quase um século entre 1870 e 1960. Na década de 60 do século XX as composições de Anselmo Serrão ainda foram tocadas, com grande destaque para Domine non sumdignus, a obra mais conhecida, também cantada atualmente.

Autoria: Esteireiro, Paulo (2008). “Anselmo Serrão”. In 50 Histórias de Músicos na Madeira. Funchal: Associação de Amigos do Gabinete Coordenador de Educação Artística, p. 20.

Atualização: Ventura, Ana (2011). “SERRÃO, Serrão”. In Dicionário Online de Músicos na Madeira. Funchal: Divisão de Investigação e Documentação, Gabinete Coordenador de Educação Artística. Funchal: atualizado em 22/06/2011.

Os solistas convidados:

Alberto Sousa nasceu na Madeira e iniciou os estudos musicais no então Conservatório de Música da Madeira. Licenciou-se em Ensino do Canto na Universidade de Aveiro onde estudou com António Salgado e concluiu o Mestrado em Performance no Curso de Opera da Guildhall School of Music and Drama, na classe de canto de Laura Sarti. Na sequência da sua participação na prestigiada Solti Te Kanawa Accademia di Bel Canto, gravou um CD de canção italiana produzido pelo maestro Richard Bonynge em comemoração do centenário do nascimento do maestro Georg Solti.

Alberto ganhou o 2o lugar e Prémio do Público no Robert Presley Memorial Verdi Competition organizado pela Fulham Opera, uma companhia de ópera londrina que depois o convidou a cantar o papel de Gabriele numa nova produção de Simon Boccanegra (Verdi). Os últimos anos têm-no levado a vários palcos internacionais e incluíram, entre outros projectos, uma tournée de concertos de repertório belcantístico no Japão, La Traviata (Verdi) no Barga Belcanto Festival (Itália), uma digressão europeia de Orlando Paladino (Haydnt) com a Purpur Opera e o seu debut no Gran Teatre del Liceu (Barcelona) com uma performance do Requiem de Mozart.

No Reino Unido, onde residiu e trabalha, Alberto cantou recentemente La Bohème (Puccini) com o Clapham Opera Festival, Die Fledermaus (J. Strauss) com a Danube Opera em St. John’s Smith Square, Faust (Gounod) com a Swansea City Opera numa digressão pelo Reino Unido, Nick na Fanciulla del’ West (Puccini) com Grange Park Opera, Pinkerton (Madama Butterfly, Puccini) em concerto no Cadogan Hall, o papel titular em D. Carlo com a Fulham Opera e fez o cover do papel titular no Nariz (Schostakovich) para a Royal Opera House.

Alberto Sousa é professor de canto no CEPAM-Escola Profissional das Artes da Madeira.

Quanto a Raquel Camarinha, iniciou os seus estudos musicais aos cinco anos, formando-se em piano e flauta transversal. Fascinada desde sempre pelo canto e pelo teatro, realizou a sua formação vocal e teatral inicial em Portugal, tendo interpretado os seus primeiros papéis operáticos aos 19 anos (Zerlina, Barbarina), em Lisboa. Em seguida aperfeiçoou-se em França e obteve, em 2011, o Mestrado de Canto no Conservatório Nacional Superior de Música e Dança de Paris, na classe de Chantal Mathias, e em 2013 os Diplomas de Artista Intérprete “Canto” e “Reportório Contemporâneo e Criação”.

Desde cedo foi elogiada pela crítica pelo seu timbre fresco e luminoso, assim como inteligência do seu trabalho de atriz: “É o prodígio da voz nua de Raquel Camarinha que mais impressiona. Cantora e atriz, passando por todos os registos da voz humana, ela interpreta em todos os sentidos da palavra.” (resmusica.com)

Raquel Camarinha foi nomeada para os Victoires de la Musique Classique 2017, na categoria “Revelação Artista Lírico”, e laureada em vários concursos nacionais e internacionais: Em 2011, 1.º prémio no Concurso Nacional de Canto Luísa Todi e “Melhor Intérprete Feminino” da Armel Opera Competition (Hungria). No mesmo ano, com o pianista Satoshi Kubo, recebeu o “Prix de Duo” do Concours International de Chant-Piano Nadia et Lili Boulanger. Em 2013, foi 1º Prémio e Prémio do Público no Concurso de Canto Barroco de Froville.

Em palco, Raquel Camarinha interpreta um repertório variado, sendo especialmente considerada pela crítica nas suas interpretações de Mozart (Pamina, Susanna, Zerlina) e de Händel (Morgana, Almirena, Bellezza). Atuou em quatro temporadas consecutivas no Théâtre do Châtelet, em Paris, nas produções Il re pastore (Mozart), Orlando Paladino (Händel), La pietra del paragone (Rossini) e Carmen la Cubana (Ravel /Renshaw). Para além dos principais palcos franceses – Chorégies d’Orange, Opéra Comique, Philharmonie de Paris – apresentou-se também noutros países da Europa (Alemanha, Bélgica, Espanha, Hungria, Itália, Lituânia, Holanda, Polónia, Portugal, Suíça) e no Japão. A sua interpretação de La Voix Humaine, de Poulenc, foi elogiada pela crítica como “um espetáculo único e excecional”.

No domínio da música de câmara, colabora com o pianista Yoan Héreau, interpretando os grandes ciclos do repertório da mélodie francesa e do Lied. Em concerto, colaborou com prestigiados artistas como Renaud Capuçon, Henri Demarquette, Ophélie Gaillard, Hervé Pierre ou Brigitte Fossey, com os ensembles Intercontemporain, Pulcinella, Matheus e Remix  e com maestros como T. Sokhiev, D. A. Miller, A. van Beek, R. Benzi, E. Pomàrico, Jean-Claude Malgoire e Jean-Christophe Sinoposi.

É também grande o seu interesse pelo reportório contemporâneo, tendo estreado obras de vários compositores portugueses e estrangeiros, nomeadamente duas óperas de Luís Tinoco, Evil Machines (2008) et Paint Me (2010), além de La Passion de Simone, de K. Saariaho,  e Giordano Bruno, de Francesco Filidei. Desenvolve uma estreita colaboração com o compositor Benjamin Attahir, tendo estreado a ópera Le Silence des Ombres e a peça para voz, violino e orquestra Je / suis / Ju / dith.

Colabora frequentemente com a televisão e rádio em França (France 2, LCI, Arte, France Musique, Radio Classique, RFI) e e em Portugal (RTP2, Antena 2). Em 2014, a France Musique dedicou-lhe uma emissão no âmbito do programa “Génération Jeunes Interprètes”, de Gaelle Le Gallic.  Em disco, Raquel Camarinha gravou para a Naxos obras para soprano e orquestra de Luís Tinoco, assim como um CD de obras contemporâneas para canto e piano intitulado “Apparitions”.