Airbus farta-se da birra da Qatar Airways

Pela segunda vez este ano a Airbus cancela uma choruda encomenda de aviões a um cliente. Além de ser raro um fabricante abdicar de encomendas fechadas, mais exorbitante como inverosímil é ser um cliente de longa data e com meios financeiros extensos.

Como se chegou a este ponto? É digno de uma novela aeromexicana.

Tudo começou em 2021 com uma disputa sobre a degradação da pintura dos Airbus A350 da Qatar Airways. Esta companhia foi o cliente de lançamento do então novo “widebody” da Airbus, tendo incorporado na frota o primeiro A350-900 da linha em 2013. E em 2018 estreou o A350-1000 em operação.

 

A350 versão -1000 e -900 da Qatar em voo (Fonte: Airbus)

Já na altura a Qatar tornou público que não queria levantar o A350-900 em Toulouse porque havia um problema nos WC. Mordeu a imagem da Airbus que ficou exposta por alcançar uma inauguração operacional de “primeira pedra”. Três anos depois a Airbus levou nova machadada de relações públicas com a recalcitrante Qatar a recusar receber o primeiro A320NEO, por problemas com novo motor Pratt & Whitney 1000. Quem escolheu estes motores foi a própria Qatar. Não obstante haver problemas com esta nova unidade de propulsão, a Lufthansa não vislumbrou o mesmo drama e ofereceu-se para acolher o primeiro. E assim foi o prestigiado cliente lançador de mais um modelo de aeronave em 2016. Essa máquina visita a Madeira frequentemente (D-AINA). O CEO da Qatar Al Baker, conhecido por meter as suas tripulações num curral de luxo em Doha, e pela arrogância do petrodólar, muito se diverte a sabotar a imagem da Airbus.

Há um ano a Autoridade da Aviação do Qatar ordenou o “grounding” dos A350 da Qatar por motivos de segurança. Evidentemente que isto só afeta a Qatar e sendo ambas entidades da esfera pública, a medida foi coordenada. Tal como o Boeing 787, o A350 tem a fuselagem feita de compósitos. Por natureza é um material mau condutor, e a estrutura anelar do A350 obriga a instalar uma malha por baixo da pintura para dissipar cargas elétricas provenientes de relâmpagos. Em alguns dos A350 a tinta estalou e a malha ficou exposta, e sujeita a danos visíveis. Começou a disputa sobre quem era o culpado e qual o impacto. Outras companhias operadoras de A350 reportaram o mesmo problema, mas não concordam com a gravidade da situação e nenhuma deixou de voar com o A350. A intumescida disputa seguiu para um tribunal comercial arbitral internacional, e cada parte fincou ainda mais o pé no chão.

A Qatar mantém até ao dia de hoje 22 A350 no chão, e também recusou receber mais 23, alguns já quais já construídos, enquanto busca uma indemnização de 10 dígitos. Porventura terá tentado suavizar os custos durante a depressão pandémica, com a esperança que a Airbus capitulasse e ajoelhasse para que recebessem estas aeronaves de longo curso, segmento de mercado mirrado desde 2020.

Em fevereiro a Airbus contra-atacou, unilateralmente cancelando a encomenda de 50 A321NEO da Qatar e também dois A350-1000.

 

Fictício A321NEO com pintura da Qatar (Fonte: Airbus)

Se bem que o cancelamento dos famigerados A350 adicionais pareça sensato para ambos, a anulação dos 321NEO não foi recebida com o mesmo entusiasmo no Médio Oriente. Já tinham feito um depósito de 330 milhões de dólares e esperavam entregas em fevereiro de 2022. Não existem problemas reportados com o A321NEO e basta devolver o dinheiro e entregar os aviões a outros sedentos.

Foram a tribunal para obrigar a Airbus a repor a encomenda, pois era um recurso imprescindível para a expansão regional. O tribunal não engoliu a argumentação de que a Qatar não tinha alternativa ao A321NEO e susteve a posição de Airbus. É só seguir a sugestão da própria construtora europeia de comprar o Boeing 737MAX, tornando anedóticos os elogios extensos ao A321NEO tecidos pela Qatar em tribunal.

Conjeturava a Qatar que era tudo uma jogada de Airbus para força a entrega dos mal-amados A350 em posição enfraquecida. A Airbus, já escaldada com a jogada birrenta de Qatar se recusar a aceitar aeronaves prontas, cancelou um terceiro e quarto A350.

Na semana passada a indústria europeia desfechou foi  golpe final. A Airbus cancelou unilateralmente a encomenda toda de A350, após ter uma decisão favorável de um tribunal para revender os que a Qatar se recusou a receber. A Lufthansa e a privatizada Air India estarão na corrida, para tal contribuiu o atraso no programa 777X da Boeing, com entregas a começar em 2025. Em breve começarão a decapar o Oryx da cauda e a atirar fora as cadeiras da Qatar.

Fica a Qatar entregue à Boeing, com apenas as opções do 737MAX no médio curso e o 777X no longo. Os 50 A321NEO têm com equivalente o 737 Max 10, que ainda não só não foi ainda certificado, e se não o for até ao final de 2023, apanhará um novo regulamento que obrigará ao redesenho do “cockpit”. Certamente que uma autorização do Congresso viabilizará evitar tal cenário abismal, mas a Qatar não os vai receber em fevereiro 2023 isso é garantido.

Erosão na pintura de A350 da Qatar (Fonte: Reuters)

A Boeing já obteve 25 encomendas do 737MAX, uma lufada de ar fresco para os de Seattle, mas também não são 50. A Boeing ganhou a exclusividade de um cliente que quer comprar produtos que não há possibilidade de os entregar.

Salvo aquisição de usados seminovos a Qatar estará confinada e médio prazo a voar com aeronaves antiquadas comparativamente à concorrência, vastamente ineficientes. Os A350 no chão ninguém os vai querer após a tremenda vilipendiação de que foram alvo, com a Qatar a postar fotografias como a acima.

Agora amuou Al Baker e disse que o A380 foi um erro d-e-l-e, enquanto os traz de volta do deserto e reintegra na frota. É a primeira vez que algum problema na Qatar não é culpa dos outros. A Airbus ri-se porque esse é um tema do passado, com luto feito, e porque o A380 é forçosamente o modelo do futuro a curto e médio termo da Qatar como única solução para colmatar as insuficiências da frota, no ano em que lá se organiza o Mundial de futebol.