Estepilha: falta-nos uma Mariazinha “A Escala”…

Rui Marote

Na última semana abriram-se telejornais, noticiários de rádio e jornais falando-se menos da guerra, com as atenções todas apontadas para o encerramento de maternidades e urgências obstétricas e ginecológicas.
Isso recordou ao Estepilha como as coisas hoje em dia são diferentes do tempo em que se nascia em casa, sem grandes cuidados médicos. E lembrou-nos a história, e a importância, de uma mulher do povo, que residia na Rua de Santa Maria, numa casa que ficava a paredes meias com o ribeiro.
A D. Mariazinha, conhecida pela “Escala”, era a mãe de nada menos do que três jogadores de futebol, o Checa, o Abrotas e o Ernesto, atletas do Marítimo. Era a parteira da zona velha da cidade, que, sem qualquer “carteira profissional”, era chamada a toda a hora a socorrer as grávidas.
Quase não havia uma única família na zona na qual os filhos não tivessem vindo ao mundo pelas mãos da D. Mariazinha a “Escala”. Muitas vezes a senhora deixava a panela do almoço ao lume para ser o 112 da área.
Era normal, então, as pessoas terem os seus bebés em casa, ao contrário dos dias de hoje. A Madeira não tinha maternidades e o único hospital era o do Monte. As pessoas recorriam às enfermeiras parteiras, que iam a casa das pacientes onde efectuavam o parto, recorrendo a panelas com água quente e panos para estancar as hemorragias. Só em caso de extrema gravidade eram levadas as mulheres ao hospital. Havia inclusive quem tivesse o bebé de manhã e ao final do dia estivesse a fazer o jantar. Eram outros tempos! Eu próprio vim ao mundo através da D. Mariazinha a “Escala”. Foram centenas de partos conduzidos por esta verdadeira “padeira de Aljubarrota”. Nunca ninguém lhe prestou a devida homenagem.
A segunda história que os temas dos últimos tempos me evocaram não é menos curiosa. Fui convidado pelo Dr. Faria Nunes para fotografar o nascimento dos bebés proveta, marco histórico no então hospital da Cruz de Carvalho – Funchal. À hora estabelecida estava no 3º piso, no gabinete do Dr. Faria Nunes . No corredor havia certa “turbulência” nos preparativos. A escolha da equipa que ia partilhar a intervenção cirúrgica. Quem é que está de serviço?, pergunta Faria Nunes. É o Dr. tal, respondiam. Faria Nunes não escondia a sua antipatia e desagrado por certos colegas: “Não quero burros no bloco! Chama o Dr. Fulano… E a enfermeira é?? Quem? Não querp burras no bloco! Chama a enfermeira tal! Sendo este o meu “baptismo” a fotografar uma cesariana estava eu próprio a ficar nervoso…
Continuava no gabinete do 3 ºandar a assistir à constituição da equipe em silêncio. Resolvi  perguntar ao Dr. Faria Nunes  quanto tempo levaria a intervenção? “Não lhe digo!”, respondeu.
Quando nos dirigimos para o bloco a “velha raposa” resolveu satisfazer a minha curiosidade mas com a condição de não escrever: “Demora o mínimo possível. Se digo que leva dois ou três minutos os comentários serão de que estou a ganhar muito por este trabalho…”, ironizou.
Devidamente equipado, dei entrada no bloco. As máquinas fotográficas não eram então digitais nem havia telemóveis. Comecei a disparar a preparar a paciente e a anestesista, até que chegou a hora de usar o bisturi. Já estava o instrumento de corte nas mãos de gigante do Dr. Faria Nunes e o filme (o rolo) acaba.
Atrapalhado, disse ao Dr. Faria Nunes que precisava de mudar de filme. Faria Nunes gritou: “O quê? Vem sem rolo!” E acabou. Bola para a frente com a operação.
“Esta foi a minha primeira experiência do género e falhei miseravelmente o sujeito da oração. Assisti a outras cesarianas e fotografei no final do ano casalinhos de gémeos um a nascer em 2001 e outro em 2002…
Para encerrar a diatribe, a minha meditação: todos nos dias de hoje querem nascer no hospital ou numa maternidade. Mas ainda há quem nasça no interior de uma ambulância e com bombeiro de serviço a prestar auxílio ao parto.
Esta tempestade de fechar maternidades e urgências deve-se a uma descoordenação  de escalas e aos feriados existentes, em que todos querem gozar uns dias de férias merecidas. Daí o desfalque de operacionais para  manter os serviços normalizados.
O tempo da D. Mariazinha a “Escala” a deixar a panela ao lume para trazer ao mundo um novo ser acabou… Mas nem tudo ficou melhor.