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Fala-se muito de mundialização, actualmente (…).
A generalização da informação tornará talvez os conflitos mais improváveis.
Se tivesse havido Internet, é possível que Hitler não tivesse conseguido o seu complot mafioso – o ridículo talvez o tivesse impedido de nascer”
Jean-Marie Gustave Le Clézio – 2008 (1)
1 – Da Literatura
Poderia começar a minha reflexão com a frase que escolhi para epígrafe. No entanto, decidi recordar a primeira leitura de Mondo et autres histoires (1980) de Jean-Marie le Clézio, mais tarde (2008) galardoado com o Nobel da Literatura. A prolixa produção literária do autor já me habituara a difíceis exercícios de compreensão da sua obra, alguns apenas resolvidos muito posteriormente, com a maturidade da leitura e da vida. Mas regressemos a Mondo. Trata-se de um conjunto de contos cujas personagens são crianças. Algumas “viajam” de outras obras, encontrando, nesta, um espaço de liberdade narrativa que habita a obra de Le Clézio e que a define, na sua magistralidade.
O texto da sua Conferência-Nobel, intitulado “Na floresta dos Paradoxos” (segundo uma expressão do escritor sueco Stig Dagerman), integra um acervo de reflexões sobre a escrita, a Literatura e o que pode desencadear esse ímpeto:
“Porque escrevemos? (…) Há as predisposições, o meio, as circunstâncias. As incapacidades também. Se escrevemos, isso quer dizer que não agimos. Que nos sentimos em dificuldade diante da realidade, que escolhemos um outro modo de reacção, uma outra forma de comunicar, uma distância, um tempo de reflexão” (1).
Estamos, agora, no tempo desta minha escrita, em junho de 2022. A Europa das notícias fala da guerra, do número de dias (cem), dos mortos, das chacinas, das aberrações que julgávamos erradicadas, dos refugiados e das violações. As notícias contam a destruição impiedosa de (quase) tudo. Será que contam a solidão ? Das vozes que a narram, dos seus acertos e paradoxos, retiram-se relatos de orfandade, crianças de ninguém que a Humanidade nunca acolherá nas declarações dos Direitos que não conhecem. Regresso ao texto de Le Clézio:
«Se pensar nas circunstâncias que me levaram a escrever (…) apercebo-me que, no ponto de partida de tudo isso, está a guerra. A guerra, não como um grande momento perturbador no qual se vivem horas históricas (…) mas a que viviam os civis, sobretudo as crianças muito pequenas (…). Tínhamos fome, tínhamos medo, tínhamos frio, é tudo” (1).
As notícias, as de agora, dizem que o tempo, este tempo, é incerto. Não indicam caminhos, não ajudam a percorrer uma qualquer via que guie à certeza da Paz. A geopolítica da incerteza é um assunto complexo, um momento da História que agora se escreve, não raras vezes com a tinta que sobrou de outros tempos, de outras épocas, igualmente incertas: “Compreendo que era um contexto de onde emanava o desejo de fugir – consequentemente de sonhar e de escrever esses sonhos” (1).
Ninguém nos dissera que estávamos apenas a iludir-nos com os sonhos de outrora e que, afinal, a felicidade que (ainda) nos embalava era o que restava da réstia dessa fuga fátua. Evadir-se, porque sim ou porque as balas e as bombas empurram para além daquelas linhas, nos mapas, que parecem garantir a paz.
Há uma interessante subtilidade no modo como Le Clézio coloca o debate acerca da pertinência da Cultura: “Esta ‘floresta de paradoxos’ como a designou Stig Dagerman, é justamente o domínio da escrita, o lugar de onde o artista não deve poder procurar escapar-se, mas ao contrário aquele onde deve estabelecer-se para reconhecer cada detalhe, para explorar cada caminho, para dar o seu nome a cada árvore” (1). Todas as crianças, personagens dos contos Mondo et autres histoires, assumem uma relação muito especial com a natureza, ao mesmo tempo que aprendem a ser adultos. Todos abandonam a escola para experimentar a aventura da solidão diante do mar, do pôr-do-sol, da montanha ou do céu. Estas aventuras, iniciáticas, são paradigmas de uma perda e instalam, nas palavras e na memória, a incerteza da saudade, nomeada nostalgia. As crianças dos contos de Le Clézio experimentam a magia da natureza numa profunda solidão, um insulamento feliz e “desantropologizador” (na expressão de Agnès Heller). Estão sós. A experiência literária da necessidade do desapego dos adultos pode ser, para o leitor, aterradora mesmo que as palavras digam o encantamento, a magia e o fascínio. Mondo et autres histoires é um conjunto de relatos de errância, uma crítica incisiva e velada ao modo comos as sociedades ocidentais parecem ter prescindido da Terra enquanto Oikos: “A Literatura (…) não é uma sobrevivência arcaica à qual se deve substituir logicamente as artes do audiovisual (…). Ela é uma via complexa, difícil” (1).
2 – Da pintura
“Da raiz ao núcleo” é uma exposição de pintura de Teresa Gonçalves Lobo, que pode ser visitada até 31 de julho, na Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira. Percorri as telas com a atenção do fruidor que se deixa seduzir e escapar para que a kátharsis não se perturbe e a recepção se abandone à liberdade que toda a Arte concede. As obras de Teresa Lobo, desenhadas com materiais emanados directamente da natureza, prolongam, na tela, horizontes fragmentados de mistério e de evasão, de ciclos e de contraciclos, de projecções do Oikos como se, de algum modo, pretendesse capturar réstias de saudade de uma inocência perdida. Ali, diante da magnitude das telas, percorri os trilhos todos das experiências sensoriais das crianças/personagens de Le Clézio, quais metáforas da indagação da Luz. A colocação das obras, nos átrios, corredores e salas da Assembleia Legislativa Regional emana de uma vontade expressa, segundo a pintora, de que estabeleçam um diálogo. Este, pode ser cromático, mas também ideológico no quadro do significado político do espaço: casa da Democracia. Algumas obras de Teresa Lobo, sobretudo as que são feitas a partir das cinzas, apuram o quadro contextual da incerteza, da solidão e, nesta, da evasão (livre ou provocada). Nesse sentido, é absolutamente desconcertante. Estão sós como as crianças que viviam nas ruas ou abandonaram a escola, como aquelas que a guerra transformou em forasteiros errantes. Iris Murdoch refere, a propósito da Ética de Kant, que “A liberdade é a nossa capacidade de evadir-se da História e apreender uma ideia universal de ordem que então aplicamos ao mundo sensível” (2). É esse significado de Liberdade que encontramos em Walt Whitman ou Emily Dickinson e que Teresa Lobo transcreve nos traços que se evadem da tela para nos atingir, qual lamento ou repto em direcção ao mundo onírico que parece, também, querer construir. Recorro a Le Clézio: para que escrevemos? Para que pintamos? Que letras e traços, páginas, telas e cores determinam os lugares da saudade, os legados, a História, em suma, a Cultura? Detenho-me nos “iis” e no azul de Teresa Lobo e revejo “Mondo” (uma das crianças-personagem do conto de Le Clézio que dá nome ao livro), um rapaz que deveria ter à volta de dez anos e que vivia nas ruas. Amava o mar, mas nos momentos em que a solidão era mais forte que o azul, interpelava os passantes, perguntando se o queriam adoptar. Há, no azul de Teresa Lobo, a errância das crianças “perdidas” do escritor.
As palavras que inscrevem a solidão das crianças de Le Clézio e os traços que enunciam a força telúrica da pintura de Teresa Lobo, contarão talvez a desesperança das crianças errantes nas ruas de Mariupol e no inferno de Azovstal. Haverá azul e ouro do sol. Um dia.
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(1) M.G. Le Clézio, Bretagne, 4 novembre 2008
in https://www.nobelprize.org/prizes/literature/2008/clezio/25795-jean-marie-gustave-le-clezio-conference-nobel/ Copyright © The Nobel Foundation 2008
A tradução é minha, a partir do texto em francês.
(2) A trad. é minha, a partir do texto, em inglês.
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