Estepilha, a zona velha do Funchal é uma “Babilónia” dos nossos dias?

 

Rui Marote
Estepilha, pelos vistos, a zona velha da cidade do Funchal está em vias de se transformar numa espécie de “Babilónia” dos nossos dias. Mas não pela grandiosidade da civilização, e sim no sentido da decadência evocada na Bíblia… Como se já não bastassem as bebedeiras, barulheira e pancadarias que os moradores da área têm de aguentar, agora deu em alguns frequentadores (as) a febre de executar números de sexo ao vivo na via pública, conforme mostrou sem margem para dúvidas um vídeo recentemente muito partilhado nas redes sociais.
Sem qualquer preconceito, a cena foi filmada, fotografada e partilhada por milhares de “fãs” em diversas redes, assim levando o nome da “Melhor Ilha do Mundo” a todos os recantos do globo para que melhor se conheça como aqui nivelamos por baixo.
A Zona Velha  que o Estepilha conheceu desde cedo merece respeito. Ali nasceram pessoas muito trabalhadoras, cujo “escritório” era o mar. Recordamos a “mergulhança” os bomboteiros, os areeiros e os pescadores de pesca artesanal. No velho campo Almirante Reis nasceu o União, o Marítimo, o internacional “Pinga”…
Daquela zona saíram os carregadores e descarregadores da velha Pontinha, o Salinhos, o Checa, Raul Tremura, Asinha, Albino, Abróteas, Chino e outros futebolistas. Na minha família tinha cinco tios maquinistas das lanchas “A Gaivota”, “D. Lúcia”, “D. Carmina”, que transportavam os passageiros do cais para os navios e vice-versa. Meu avô Francisco de Abreu foi o primeiro arrais da lancha “Mosquito”.
Na zona velha não havia restaurantes: somente tascas e mercearias, com um pequeno anexo que vendia vinho seco, macias e grogue e um dente de bacalhau seco.
Uísque era então bebida rara por ali: só para ricos, ou de contrabando. Nessa época o grande consumidor e distribuidor da famosa  bebida escocesa era Alexandre Rodrigues na rua de Santa Maria, fazendo sucesso com a marca Old Parr.
Hoje temos ali também a poncha. Originária de Câmara de Lobos, era a bebida dos pescadores -a “poncha a pescador” – com aguardente limão, açúcar e mel.
O álcool naquela época não era fácil de adquirir como nos dias de hoje As familias obtinham-no em especial no Natal, nas farmácias para os tradicionais licores, e não com outro fim. O consumo de aguardente, entretanto, disparou: temos ponchas para todos os gostos, de laranja, maracujá e até frutos vermelhos. É agora a bebida da juventude, para não falar dos shots.
As tascas da zona velha antiga vendiam sandes de espada, atum, queijo e ovos fritos e omelete. Mas não eram para todos… Havia quem, por falta de dinheiro, optasse pela apreciada “sandes com molho” mais económica e que custava apenas 50 centavos.
Os residentes da zona velha eram conhecidos pelas alcunhas pitorescas: o Meia-Noite, o Meio-Dia, o Manteiga, o Japonês, o Chazinho, as Pretinhas (a família da minha avó materna) a Magala,
as Alferrinhas, o Quanza, o Cambrinha, o Passa as Coisas, a Mariazinha a Escala (a parteira do povo), o Pai Costa, o Joãozinho sem Maldade, as Loiras, o Gordaça, a Mamada, o Torto (avô do José Manuel Rodrigues, presidente da Assembleia Regional), a Cigarrinha, a Telefonista, a Sorveteira, o Tareco, a Cavalinha, o Alemão, a Pança, a Maria Pintelha, o Garrilhada e o Dezoito… Isto dos que eu recordo.
Eram famílias pobres mas respeitadas. As mulheres solteiras só saiam ao domingo para a missa com véu na cabeça e na companhia do “patriarca”. Nos anos 60, havia ali duas casas de prostituição na Rua de Santa Maria, conhecida pelo 81 e com entrada na travessa dos Barreiros nº5. Nenhuma das trabalhadoras residiam, porém, na zona velha. Hoje essas casas de passe estão extintas.
O Estepilha assistiu na cerimónia do “Pau de Fileira” do Savoy Residence Insular, durante a intervenção do oresidente do Munícipio, a rasgados elogios à cidade do Funchal, que tem os “melhores do mundo”. Isto a poucos metros deste local da virtual cidade “Babilónia” onde os habitantes que persistem em lá viver não encontram paz durante a noite.
Tanto a “Confiança” como o “Funchal Sempre à Frente” nunca atenderam às queixas dos habitantes. Entretanto, parece que finalmente Pedro Calado acordou e tem em mente encerrar à 1 hora da madrugada todo o comércio.
O Funchal Notícias, ao longo dos seus oito anos de existência, tem sido porta-voz dos que lá residem. Se Calado não resolver, só resta aos moradores clamar a São Tiago Menor que faça chover do céu fogo e enxofre… Isto pelo andar da carruagem e pelas práticas desinibidas incentivadas pela muita alcoolemia.
A zona velha modernizou-se graças a um filho da zona, João Carlos Abreu que abriu o restaurante e discoteca “Romana”. Foi uma autêntica cambalhota nos costumes e fez nascer restaurantes, a casa de fados Marcelino e outras diversões nocturnas. Foi sempre a abrir até os nossos dias. Mas não é preciso exagerar e transformar aquilo num bairro da “luz vermelha”, diz o Estepilha…
Em diversas cidades do Mundo as zonas históricas assumem-se como espaços urbanos muito identificáveis, de alta qualidade, cheios de elementos emblemáticos. É o que se espera para ali…

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