A crise económica, que se arrasta, e a desilusão relativamente à política e a alguns políticos têm contribuído, nos últimos tempos, para a disseminação do discurso saudosista do Estado Novo e de Salazar, alimentado por uma certa elite intelectual de Direita, apostada em branquear o anterior regime, e que está a conseguir convencer muita boa gente, ignorante do passado e que faz questão de afirmar que não lhe interessa a política, mas que é pródiga no discurso de café e de corredores.
O Estado Novo em Portugal foi um regime híbrido, oriundo de várias tendências políticas que se agruparam à volta do Chefe, que lhe ditou o rumo, e que uma vez no poder, que não conquistou mas lhe foi oferecido de bandeja, acabou por remeter para a clandestinidade os movimentos e partidos existentes, o Partido Comunista, os velhos partidos republicanos e até o Centro Católico, que o promoveu e ao qual chegou a pertencer e pelo qual foi deputado por 3 dias. Eliminou ainda o Movimento Nacional-Sindicalista, os Camisas Azuis, chefiado pelo Dr. Francisco Rolão Preto (1893-1977), que, ao contrário de Salazar, não escondia as suas simpatias pelo fascismo italiano e pelo nazismo hitleriano. Apoiado pelos militares e pela hierarquia da Igreja Católica, consentindo apenas a existência vigiada da Causa Monárquica, Salazar, o Homem Providencial e Salvador da Pátria, como a propaganda política e a Igreja se encarregavam constantemente de apregoar, instaurou um regime à volta da sua personalidade e da sua vontade. O centralismo político, o nacionalismo, o protecionismo económico, o paternalismo, a defesa das elites, arregimentação e doutrinação política de jovens e adolescentes, controle da Educação, conjugados com os órgãos de repressão (Censura, polícia política e outros órgãos policiais, prisões, tortura e assassinatos), permitiram a longevidade do regime. O controle dos sindicatos e a doutrinação política das massas populares permitam às elites governar em paz. E o povo, em grande medida analfabeto, vivia na miséria, mas aparentemente era feliz, “naquele engano de alma ledo e cego”, como escreveu Camões no episódio de Inês de Castro, já que as grandes certezas impostas pelo regime (Deus, Pátria e Família) proporcionavam essa tranquilidade; o povo não precisava pensar, o Governo e a Igreja pensavam por ele. Mas os portugueses que não pertenciam às elites do regime viviam afinal num “Paraíso Triste”, título dum estudo publicado por Maria João Martins, sobre a vida quotidiana em Lisboa durante a II Guerra Mundial (Editora Veja, 1994).
Aparentado com o fascismo italiano e copiando dele muitas características, o Estado Novo fez, no entanto, questão de se afirmar apoiado na Lei e na Moral e de basear-se numa constituição que acabou por revelar-se um documento de faz de conta. As leis subsequentes e a ação governativa acabaram por fazer letra morta dos preceitos constitucionais. O presidencialismo do presidente da República veio a tornar-se afinal o presidencialismo do Chefe do Governo que tacita e veladamente escolhia o candidato presidencial que passava a ser apenas o símbolo da unidade nacional.
O Marcelismo foi um permanente equívoco. Salazar tinha certezas, Marcelo Caetano tinha dúvidas. Foi o tempo de reformas enunciadas, mas falhadas. A extrema direita vociferava contra ele por ter aberto a porta à discussão dos tabus do regime; a Ala Liberal acabou por abandoná-lo por não cumprir as promessas feitas, não se contentando com a mudança de nomes das instituições. Apenas na Educação e na Segurança Social o Marcelismo conseguiu marcar pontos. E mais grave ainda era a incapacidade de acabar com a guerra colonial, tirar o país do isolamento internacional e promover o desenvolvimento económico e social.
Por causa disso se fez a Revolução de 25 de Abril de 1974 que, apesar dos radicalismos da Direita (MDLP e FLAMA) e da Esquerda (FP25 de Abril), conseguiu levar a bom porto a promessa de Democratizar, Desenvolver e Descolonizar, quebrando o isolamento internacional. É verdade que se criaram novas elites partidárias e económicas, que não se tem podido combater suficientemente a corrupção. Mas no Estado Novo também existiram corruptos e a justiça acabava por não ser igual para todos. A diferença é que tudo isso era ocultado pela Censura.
Portanto, Viva o 25 de Abril de 1974!
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