Matar o mensageiro…

Conta-se que Dario III, rei da Pérsia, mandou executar o oficial que lhe deu a notícia da derrota do seu exército, aquando da invasão de Alexandre Magno. Apesar de não se poder, com certeza, remontar o dito matar o mensageiro à reacção violenta do rei persa, a literatura documenta o tópico clássico – ne nuntium necare (não mate o mensageiro) –, que revela a preocupação em amparar os portadores das novidades ou emissários. Mesmo quando transmitiam notícias sobre assuntos delicados e situações desagradáveis ou perigosas, não deveriam sofrer represálias.

Sá de Miranda (1481-1558), na comédia ‘Os Vilhalpandos’, provavelmente escrita em 1538, põe na boca do velho Pompónio esta máxima: «Não haviam de falecer mensageiros.»

No entanto, continua-se a atacar o mensageiro em vez de se dar a atenção devida à mensagem, da qual é portador. Exemplos não faltam, tanto nos meios de comunicação social como no mundo laboral.

Na administração pública, surgem, de vez em quando, estudos que revelam ser reduzido o número de queixas sobre isto ou aquilo. Recentemente, falou-se do assédio moral. Desde 2017, foram apresentadas apenas 203 queixas. Os sindicatos lembraram então que os números são residuais, porque os funcionários não acreditam no sistema e temem vinganças.

Na verdade, muitos não se queixam nem denunciam graves ilegalidades com receio de virem a ser atormentados pelos chefes e alguns «colegas». Esta é a situação real. A hierarquia, directa ou indirectamente, trata, quase sempre, de matar o mensageiro, para anular a mensagem incómoda e proteger a capela.

A hierarquia valoriza os acomodados, os que, no seu entender, não dão problemas. Quem luta pelos seus direitos, exige o cumprimento da lei ou denuncia irregularidades, falsidades, trafulhices ou corrupção, normalmente é perseguido e ostracizado. Nessa sanha despótica, as chefias beneficiam da morosidade e dos custos da Justiça, que desmotivam quem tem razão e pretende prosseguir com uma causa.

Os que aceitam ou encobrem a porcaria valem-se do seu poder institucional para processar quem apenas cumpriu ou pretendeu o cumprimento da lei. Se houvesse Justiça, esses embusteiros seriam punidos pela sua indigna cumplicidade ou vil compadrio. Enfim, inadmissivelmente, continua-se a tentar intimidar ou matar o mensageiro…!

Perante esta triste realidade, a denúncia anónima tem vindo a assumir proporções nunca antes vistas. Destronou já a «fonte próxima ou não identificada» do jornalismo sério, e está na origem de algumas investigações mediáticas. Revelou-se como uma frente de combate à prepotência e à corrupção. Uma estratégia da guerrilha contra a podridão do sistema.

Numa democracia, impõe-se, todavia, o funcionamento democrático das instituições. O quadro legal vigente garante este princípio elementar. Contudo, uma boa lei não é suficiente para mudar a autocracia, cultivada sem escrúpulos há muitos anos.

A proliferação de revelações anónimas denota o mau funcionamento do regime democrático. Constitui um mal, mas com tradição no nosso país. Durante séculos, a Igreja Católica incentivou a denúncia, designadamente de comportamentos condenados pela ortodoxia. O Tribunal do Santo Ofício actuava e torturava com base nos depoimentos dos denunciantes. No «Estado Novo», de Salazar e Caetano, os informadores mobilizavam a polícia política contra os cidadãos suspeitos, que eram perseguidos, torturados e presos. Depois do 25 de Abril, continuaram e continuam alguns a «levar» e a «entregar» aos seus amos o que ouviram, leram e viram ou julgaram ter ouvido, lido e visto, com consequências vingativas.

Numa sociedade de reduzidas dimensões e marcada por forte clientelismo partidário ou retrógrado corporativismo, alguns comportamentos antidemocráticos assumem proporções graves no dia-a-dia das organizações públicas. Tudo porque se confunde mérito com cor política, lealdade com cegueira, legalidade com conivência interesseira, respeito com reverência acéfala, opinião com oposição, profissionalismo com amizade ou afinidade de parentesco, promoção com prenda, direito com favor, inovação com mediocridade. Daí os frequentes assassinatos dos mensageiros.

Mentalidades pequeninas e mesquinhas geram instituições com funcionários acomodados, passivos e acríticos. Se a situação, em si mesma, se mostra intolerável numa pequena repartição de recôndita freguesia, gravíssima se revela num organismo de profissionais com altas qualificações.

Há um ditado que proclama: «sem críticas, ninguém melhora». Esta é lição que muitos não querem aprender. Foi, porém, recomendada há muitos séculos:

«Aquele que prestar atenção às repreensões salutares / habitará entre os sábios. / O que rejeita a correcção menospreza a sua vida, / mas o que a ouve adquire sabedoria.» (Pr. 18,31-32)

Não tentem matar o mensageiro… porque ele, tal como a fénix, sempre renasce. É só uma questão de tempo.