Inglesices

Será restabelecido o corredor verde entre Inglaterra e a Madeira.

A minha filha mais velha vai poder ter o padrinho como convidado surpresa no seu aniversário. Já não o vê ao vivo e a cores há quase dois anos.

Dá-me imenso jeito este corredor verde, portanto.

A mim e a umas quantas pessoas. À nossa economia também dá um jeitito, já se sabe.

Mais do que o jeito que dá, deixa-nos a sensação de que se corrigiu uma injustiça. Mas com o amargo de boca de se sentir outra. Ter de pedir que reconheçam a nossa realidade, os nossos bons indicadores, fruto de um bom trabalho coletivo. E pedir a quem está manifestamente pior que nós.

Dei por mim a pensar em Inglaterra. Nos ingleses.

A decisão de pôr Portugal na lista vermelha há umas semanas caiu que nem um copo de água gelada depois de uma feijoada. Principalmente depois de terem feito do Porto o seu recreio, tomado a bel-prazer, por ocasião da Champions. Convenientemente encaixada na única aberta concedida pelo Reino Unido. Coincidência?

Alegaram que a variante Delta já era preocupante em território português, explicação simplesmente descabida na altura. Agora já nem por isso. Coincidência?

Seja como for, o sentimento foi de ultraje. Logo vindo do nosso mais antigo aliado. E a sacrossanta Aliança Luso-Britânica?

Geralmente, quem abre a boca para falar desta histórica aliança – portugueses na maioria das vezes, vá-se lá saber porquê… –, desta amizade intemporal, esquece-se de uns ínfimos pormenores históricos. A questão de Bolama. Como os ingleses se fizeram pagar regiamente pela “ajuda” que prestaram nas invasões napoleónicas, através de tratados comerciais que lhes eram extremamente vantajosos. O mapa cor-de-rosa. O ultimato inglês. Contra os Bretões, marchar, marchar.

Coisa pouca.

Seja como for, o que vimos, cheira-me, foi puramente estratégico e político. Ingleses a pôr a Inglaterra à frente. Manter a situação controlada e o turismo entre portas. Amigos, amigos, negócios à parte. Can we blame them?

Mas para nós, madeirenses, esta decisão ainda tomou contornos mais duros. Pela desproporcionalidade face à nossa situação pandémica e pelo peso na economia.

Claro.

Mas também pelas ligações que mantemos a Inglaterra. Ligações que não se cingem à dos nossos emigrantes em terras de Sua Majestade. Os nossos que querem voltar a casa. Ver a família. Apanhar sol. Comer caramujos.

Também, mas não só.

Os ingleses estão entre nós desde tempos imemoriais. Nos vinhos, no açúcar, nas viagens, na imprensa, na hotelaria. Em todo o sítio.

São parte integrante da nossa História, peça fundamental do nosso desenvolvimento e da nossa identidade.

Há quem veja neles os grandes exploradores dos madeirenses. Entendo. Mas a verdade é que, muitas vezes, foram eles que viram o potencial. Quando mais ninguém viu. Que desenvolveram de forma lucrativa as explorações das nossas matérias-primas, otimizando recursos e maximizando as condições particulares da nossa insularidade. Pelo caminho geraram riqueza e criaram emprego. Can we blame them?

Há quem se aborreça com ingleses que vivem há trinta anos na Madeira e não falam uma palavra de português. Eu aborreço-me com isso. Mas depois sou a primeira a falar em inglês quando estou entre eles no MADS – Madeira Amateur Dramatic Society, a que orgulhosamente pertenço. Can you blame me?

As relações não são perfeitas, é certo. Mistura-se classes, de permeio. Ou não se mistura, aliás. Mete-se política à mistura. Adiciona-se por vezes uma pitada de ressentimento. Mas não deixam de ser especiais e particulares as relações. Nossas.

A minha tia-avó Lili, mulher de poucos elogios, guardava um especial para a ocasião certa. Dizia-me ela, Onde vais assim toda arranjada? Até pareces uma inglesa. O encómio supremo.

E nem uma pitada de sarcasmo, porque a associação dos ingleses à sandália com meia branca veio muito depois dela.

Quando eu era miúda, um disfarce de Carnaval sempre viável e em voga era o de dama inglesa. Não dama antiga. Tinha de ser inglesa. Não deveria haver esse disfarce em mais sítio nenhum. Só na Madeira.

Os ingleses são quase que omnipresentes. Até há não assim tanto tempo um turista que viesse à Madeira era inglês. Mesmo que fosse francês.

Os ingleses cujas famílias se radicaram cá há séculos são também madeirenses. Mesmo que mandem os filhos estudar para Inglaterra.

Também por isso, estarmos injustamente na lista vermelha foi penoso.

Felizmente, o trabalho foi bem feito por quem tinha de o fazer, a posição foi repensada e o corredor estabelecido. Os turistas ingleses, que asseguram cerca de vinte e cinco por cento do mercado turístico regional, já estão de volta.

Tudo fica bem. Final feliz.

De repente, vêm os alemães, outros vinte e cinco por cento do mercado, e fecham-nos a porta. Assim. Sem apelo nem agravo.

Sem distinguir a Madeira do resto de Portugal. Outra vez.

Não tenho nada para dizer dos germânicos. Nunca tive uma tia-avó que me dissesse que eu parecia uma alemã. Nem sei se isso seria bom ou mau.

Mau mesmo é quem decide, do outro lado, não distinguir o trigo do joio. Não tratar de forma diferente o que é diferente, apesar das sensibilizações, das demonstrações de números e dos apelos.

E cá estamos nós outra vez.

Turn the record e spiel das gleiche.

Vira o disco e toca o mesmo.

Temos mesmo de tocar outras músicas neste reportório.