JM esteve para ser vendido ao Correio da Manhã e ao DN

Rui Marote
A história que tenho publicado sobre a comunicação social na Madeira já vai longa, quase um filme de longa metragem que supera em horas de projecção os “Dez Mandamentos”.
Mas, para encerrar estes artigos de opinião e de memória, pometo ser breve e encerrar este capítulo da imprensa regional, com as minhas recordações da transição da era do chumbo para a impressã em offset. Os dois matutinos madeirenses tinham rotativa própria. Um tinha fotogravura (Diário) e o Jornal requisitava esses serviços a um particular.
O velho diário tinha as dimensões tradicionais dos jornais ingleses, e aos domingos a sua primeira página era uma galeria de fotos nacionais e internacionais dos últimos acontecimentos, alguns com atraso de um mês. As rotativas dos dois estavam obsoletas e tinham sido adquiridas em segunda mão, a do Jornal do Diário Setubalense. O papel do Diário era de qualidade, importado da Finlândia, e o do Jornal da Fábrica do Porto Novo.
O diário da rua da Alfândega foi o primeiro a renovar, em finais de de 1972. Comprou uma rotativa em segunda mão em Londres, e instalou-a no edifício onde hoje é a residência do CR7, na Rua Carvalho Araújo. Enviou um impressor ao Reino Unido para formação. Assim nasce um novo tablóide a preto e branco, abandonando o antigo formado “broadsheet”.
Em 1993 surge o novo jornal Notícias da Madeira, que chegou aa assustar  o Diário. Meses antes, o Diário voltara a inovar com um novo cabeçalho a cores. A empresa Grafimadeira adquiriu uma rotativa de segunda mão e instalou-se no parque industrial da Cancela. Os donos do Notícias da Madeira davam assistência aos computadores do diário.
Um trabalhador da firma Tabuada e Barros descobre numa dessas assistências, e copia, o novo plano do Diário a ser apresentado em Dezembro desse ano no Reids Hotel. Um autentico “pirata”, que dá conhecimento ao novo concorrente dos planos em preparação. O Notícias da Madeira chegou a pensar em colocar na rua um renovado matutino, primeiro que o Diário.
Acabaria po surgir mais tarde essa renovação do Notícias da Madeira, no Casino, numa apresentação à americana do tipo “entrega dos Óscares de Hollywood”. Um helicóptero com tarja publicitária sobrevoando os céus do Funchal anuncia o novo jornal. Isto assustou de tal maneira que a administração do DN viu-se obrigada a pagar duas e três vezes mais para segurar os trabalhadores, para não irem trabalhar para o outro jornal. Mas foi falso alarme.
O jornal, para não ficar atrás, comprou uma rotativa de segunda mão na Holanda e instalou-a num Pavilhão nova do Parque da Cancela. Acontece que a nova impressora a offset, depois de montada a saída dos jornais, depois de dobrados, os mesmos eram projectados para a parede, uma vez que não havia espaço para recolha. Passado um ano ou dois, o Jornal adere à rotativa que imprimia o Diário e cede o pavilhão ao DN para distribuição. Mas o Diário impôs regras; as fotolites do jornal tinham de dar entrada  até às 23 horas na Cancela, e o Diário podia entrar até à  01horas do dia seguinte. Havia multas por atrasos e o jornal era impresso só depois do Diário. A administração do jornal da Igreja ficou prejudicada. Se às 23.30h acontecesse um incêndio, o Diário trazia essa cobertura na edição, e o jornal no dia seguinte. A distribuição do jornal tempos mais tarde era também feita pelo Diário. Tudo estava controlado pela Rua da Alfândega.
Em 2000, o DN sabe que o Correio da Manhã tinha sondado comprar  o Jornal. Envia o director geral a Lisboa para entrar no negócio. Meses depois é o Diário que se propõe  comprar o Jornal. As conversações estavam bem encaminhadas em 95%, mas à última hora, Alberto João Jardim fez abortar a venda.
O Notícias  da Madeira entretanto passou à história. Surge então o Noticias da Madeira versão 2. Blandy, Jaime Ramos, Estanislau Barros e Carlos Pereira formam uma sociedade com o título Notícias da Madeira, que funciona na Rua dos Netos num edifício de Avelino Farinha, que nunca recebeu rendas. O director foi Miguel Cunha e uns suplentes do Diário. Passados um ano ou dois, surge um novo director, Jorge Luís, e mais tarde Paulo Santos. Até hoje… um mau negócio para Richard Blandy.
Hoje as coisas não são diferentes: o Blandy vende a jóia da coroa a Luís Miguel Sousa, que tem 51% do DN; Avelino Farinha 39% e a Blandy os restantes.
Avelino Farinha é o maior accionista  do JM e tinha no projecto comprar uma rotativa de 1 milhão de euros. Recuou e é accionista de 50% da rotativa do Diário e 40% da promoção de eventos.
Mas o futuro não é nada risonho no negócio de comunicação social. Os jornais em papel têm os dias contados. Em breve vão ouvir falar  que o DN e JM  passam exclusivamente a online. Poupam na impressão e distribuição, e nos trabalhadores umas duas dezenas. Vejam o que se está passando com a TSF: é uma amostra do que esconde o pano.
Entretanto, o Sindicato de Jornalistas está mais interessado em realizar cursos de fotografia em telemóvel por 20 euros. Agora os jornalistas são motoristas, fotógrafos de telemóvel e vídeo, e levam o gravador da rádio para gravar. Hoje o jornalismo vive das noticias do governo e da CMF a 80%. São comunicados que chegam ás redacções, onde os profissionais pssam a maior parte do tempo fechados, na companhia do telemóvel e de um gravador portátil e uns auriculares. Lá foi o tempo em que a janela da Redacção da rua da Alfândega era uma montra aberta para o mar, e o Apolo a segunda Redacção, de onde se traziam milhantas notícias. Hoje os jornalistas estão instalados em bunkers, pouco sabendo do que se passa no exterior. E praticamente já não têm no interior das redacções memórias de profissionais muito experientes, para quem virar-se para dicas ou recomendações.