Capitólio: retrato de um mundo cada vez mais inseguro

Rui Marote
Os mais recentes acontecimentos no Capitólio dos EUA, onde sexta-feira se verificou mais um triste incidente, com a invasão de um carro da zona de acesso à entrada principal, abalroando dois polícias (um dos quais morreu esfaqueado pelo condutor, que por sua vez morreu abatido a tiro) ressuscitaram a sombra do temor terrorista. E não foi há muito tempo que se verificou a invasão, por autênticos “hooligans”, deste símbolo da democracia dos Estados Unidos.

Segundo o artigo XIX da Declaração Universal dos Direitos Humanos: Todo o ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras. Mas que o façam de forma pacífica, não violenta.

Considero-me um felizardo: tive há anos a liberdade de percorrer as ruas, os edifícios e os jardins ao redor do Capitólio, em Washington, fotografando tudo livremente. Hoje é fruto proibido. São as imagens que aqui apresento.

O mundo mudaria para sempre no século 21 depois do derrube das Torres Gémeas, que visitei 3 dias antes desse atentado terrorista. Nos aeroportos e portos não estávamos então sujeitos a revistas, nem máquinas de raio x e aos modernos scanners.
Até no nosso país as coisas mudaram, e muito. Recordo os embarques na TAP para jogos decisivos de futebol, de subida de divisão, em que a bordo da aeronave, o garrafão fazia parte da bagagem de mão… Hoje nem uma garrafinha de água se pode levar, a qual acaba muitas vezes jogada para os recipientes do lixo.
Na Quinta Vigia não havia proibições; havia entrada livre, os turistas chegavam muitas vezes a abrir a porta e entrar no gabinete de AJJ. O porteiro era o Chino do Marítimo. Nem havia Polícia. Na Assembleia Regional, que funcionava no salão nobre da antiga Junta Geral, não havia seguranças nem PSP. Era um contínuo que encaminhava as pessoas para um estrado improvisado no final da sala.
Muitas vezes a sessão era interrompida devido à presença de uma curiosa figura que se intitulava o “Rei” e que resolvia botar palavra, geralmente aos gritos de “abaixo a República, viva o Rei”…
Emanuel Rodrigues, o primeiro presidente da Assembleia, gritava então “Ponha esse senhor lá fora”… Mas o funcionário, já de uma certa idade era impotente para o colocar fora do Parlamento. Surgiu mais tarde a requisição de um polícia nas sessões.
Hoje a Assembleia tem raio-x de detecção para o público que assiste. Tudo mudou, até aqui na terrinha. Há proibições para todos os “gostos”, até para fotocopiar o cartão de cidadão e recente circulação entre concelhos.
Dizia Gandhi que “a prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua”
Aqui ficam as fotos de outros tempos, de um Capitólio sem barreiras, de uma era onde havia terrorismo, sim, mas ainda não tinha afectado as nossas vidas de uma forma tão palpável.