Poesia: Faz sentido ?

 

Estamos num tempo de pausa porque a isso nos obriga o estado do planeta e da História. Vivemos num mundo desconhecido porque arrostamos com um inimigo que nos ameaça sem regras, nem plano de ataque, completamente entregue a uma luta intrínseca de sobrevivência, perigosamente mutante e imprevisível. Deixámos a antiga azáfama dos dias  úteis, para experimentarmos, muitos de nós, o  desencanto  dos dias vazios, onde a todo o custo instalamos novos hábitos e procuramos validar o processo da nossa existência com tarefas até há pouco impensáveis. Lamentamos a saída forçada das antigas rotinas, as rotinas que, embora tantas vezes desgastantes e coercivas, estabeleciam o nosso equilíbrio e acautelavam  os proventos necessários à vida. Falamos de virtudes aleatórias que precisamos de trazer novamente à prática para manter a lucidez e recuperamos pequenos ofícios que nos remetem para velhas idades e aprendizagens. Paciência, persistência, resiliência, viver sem pressa em cada dia, para agarrar bem o tempo que nos parece fugir.  Não há previsões possíveis que nos garantam o sucesso dos projectos, não há sinais precisos sobre os futuros caminhos da  civilização. O que nos resta ?

Nunca o nosso corpo acusou uma tal rejeição aos contactos humanos, não apenas  pela  prescrição imposta, mas de motu próprio, reprimindo de maneira frustrante a vontade essencial de manifestarmos os afectos. Nunca os objectos de certas lutas nos pareceram tão pueris; nunca, como hoje, a fragilidade dos ganhos obtidos em anos e anos de perseverança na defesa de legítimos ideais, nos confrontou com a crueza duma verdade invencível fora do nosso alcance. Nunca a palavra Esperança ganhou tanta ênfase como aquela com que todos , agora, a pronunciamos, num recurso instintivo a uma desejada benesse que possa salvar-nos. É, à volta desta procura de energia, a fé  que nos resta.

Cuidar duma atitude essencial:  Não desistir de defender o substracto anímico como elemento primordial capaz de elaborar, a partir de uma especial força integradora, uma matéria secreta e misteriosa como aquela que se encontra ou na religião ou na poesia e supera  o sentimento e o instinto. A religião é, para os crentes, semelhante ao que a poesia é para os sensitivos.  Não há como negar que a poesia existe pela necessidade que alguém alguma vez sentiu de ir para além do objecto real que aflora os sentidos do corpo e apela aos «sentidos» da alma.

Desde Platão, a verdadeira beleza teria que superar o mundo transitório, representava o eterno sempre «idêntico e simultaneamente geral e necessário». E as manifestações da ciência eram consideradas «reminiscência» de algo desconhecido, mas presente no «mito», ou seja, na representação dum acto simbólico que procura entender e reflectir sobre a origem das coisas e da vida. Assim, para Platão, o problema do belo liga-se ao mistério do amor e do impulso criador. Sabemos como, apesar das tentativas do seu discípulo, o grego  Sócrates, para definir o belo, essa aspiração nunca foi conseguida e apenas se plasmava numa teoria de entusiasmo poético que pretendia explicar a origem da arte dum modo geral. Podia considerar-se a arte um meio, embora imperfeito, de ascender ao «absoluto». Um dom divino capaz de projectar o artista para o «Além» no encalço dessa entidade maior, pressentida, mas inexplicável, que é Deus.

Abolido esse conceito de «dom divino» que as sucessivas civilizações foram rejeitando, com a evolução do pensamento humano, mantém-se uma verdade evidente nos criadores de arte que é esse apelo constante pelo desconhecido e a saudável pretenção de desvendá-lo, através dos vários meios ao seu alcance.

Esta evocação do pensamento clássico pode inserir-se numa teoria de fé, ou de procura duma justificação para as várias crenças que distinguem os humanos de todas as criaturas viventes. Cada um de nós precisa duma fé, para sobreviver. A crença num bem que, de algures, proceda a uma solução para as dores. O sofrimento é um rombo na nossa passagem pela vida. Mas a morte é inevitável, mais cedo ou mais tarde.

Entre os muitos lenitivos, a arte da poesia pode ser um processo de reconciliação com as forças desconhecidas que agem sobre os nossos dias. A poesia confronta-se de modo dialogante com as próprias aflições e cria uma aura de sentido anímico, pelo poder  imagético que nos coloca em cenários passíveis de amenizar as perturbações do espírito.

Dia 21 de Março de 2021, tempo de muitas e inexoráveis perturbações. Tempo de sofrimento e de morte. Primeiro dia da Primavera e Dia internacional da Poesia. Por algum motivo a Poesia é hoje evocada. Por algum motivo continuamos a falar de Esperança. Por algum motivo os crentes das muitas religiões falam de Fé. Poesia, Fé, valem-nos, as duas, para manter a lucidez e essa forma interior de conhecimento duma realidade maior responsável pelas nossas vidas.

Por muito que a ciência nos ajude a entender os fenómenos físicos, há sempre um «oculto» a agir no segredo dum fenómeno transfigurador que nos ultrapassa ,mas que nos alicia e nos faz pensar no permanente renascimento da Natureza, nas aspirações do amor e nos fascinantes impulsos da alma humana que se revê na poesia.

Eis um pequeno apontamento de David Lawrence:

«…E se eu tivesse o desejo de olhar de frente o rosto duma árvore? Seria impossível porque a árvore não tem rosto….Só nos resta sentarmo-nos entre as suas raízes, apoiarmo-nos ao seu corpo vigoroso e não cuidar de mais nada.. Tal como agora faço enquanto escrevo…Aos pés duma árvore, esquecido da minha existência pela força do poder do tronco…É um indivíduo gigantesco, sem rosto, sem lábios, sem olhos nem coração. Uma fortaleza viva…Sinto-me como um insecto preso, domina-me o silêncio…Para onde olhará a sua alma ? Onde teremos a nossa ?…»

E este encantamento de Gauguin, quase em atitude votiva, perante a floresta primitiva.

«…E a velha floresta cuja seiva/ se enriquece expandindo-se em descuidadas ondas/

…o pau-rosa e o mango que enchem o ar/ com um fausto de sombra e perfume, árvore de ferro/ e as que são pródigas em doces frutos – …carnes e pão – e as que se oferecem por si, / muros e telhados de casas ,altivas naves e tálamos / tornam a vida um sonho belo / abolidas …   a fome, a miséria e a inveja. /A floresta inteira ao cabo da vida imensa,/ morte perpétua, renascença sem fim.» O ciclo da vida em inextinguível unidade.