Prismas e vértices

Lenta, lenta, muito lenta. Assim me lembro da minha infância. Dias grandes, que se sucediam, mais ou menos iguais aos anteriores. Sem surpresas de maior.

Não sou a melhor pessoa para falar disso, porque tenho lapsos de memória desses tempos. Nos encontros de turma das “meninas da Apresentação de Maria”, que tentamos fazer pelo menos uma vez por ano, passo metade do tempo a ouvir as histórias como se não as tivesse vivido. Não sei de metade dos pormenores que relatam e não me recordo de pessoas que, concluo pela unanimidade apresentada, foram pessoas que existiram de facto e não produto da imaginação das minhas colegas, assim como num estranho fenómeno de alucinação coletiva.

Mas lembro-me do vagar. Disso tenho perfeita noção.

De repetir as curvinhas e os risquinhos até à exaustão. De desenhar o a e o A, o b e o B, o c e o C e por aí fora até me doerem as mãos. De fazer contas em pé, de somar e de subtrair, ad nauseum. De estudar as vezes, vezes e vezes sem conta. Das tabuadas do livro do Ratinho, meu fiel e inseparável amigo. Ainda hoje as sei. Menos a dos 7. Dessa nunca gostei.

Os problemas. Adorava problemas. Sempre gostei de ter respostas, ainda mais na matemática, onde só há uma resposta certa. A impagável tranquilidade que advém da certeza matemática.

E isto tudo repetido, dia após dia. Sempre mais do mesmo, parecendo que não avançávamos nunca. O certo é que tudo ficava (mais ou menos) retido na cabeça.

A minha filha mais velha está no segundo ano que é, como quem diz, na segunda classe. Eu sou antiga. Oriento-a nos trabalhos de casa, coisa que, antes de ser mãe, sempre disse que não faria. Se eu ganhasse um euro por cada coisa que disse que não faria e dou por mim a fazer… Mas esse já é assunto para outra conversa.

Voltando à escola.

O ritmo imposto à aprendizagem parece-me que, em nada, se assemelha ao dos meus tempos. São coisas e mais coisas, matérias e mais matérias, estratégias e mais estratégias.

Para fazerem uma simples conta são tantas as estratégias possíveis, que até eu me baralho. Eu percebo que a ideia é fazê-los pensar e não fazer as coisas automatizadas como nós fazíamos. Percebo. Mas juro que não sei se não é contraproducente.

E isso sem falar das retas, dos prismas, das pirâmides, das arestas e dos vértices.

Ou dos nomes, dos verbos e dos adjetivos. Mas nós aprendíamos isso na segunda classe? Não me lembro. Será que ficou perdido, lá naquele canto escuso onde está a memória das pessoas que afinal as minhas colegas não imaginaram?

E as vezes que tenho de googlar isto ou aquilo para a ajudar? É melhor nem contar. Fui ver o que era um prisma na Wikipédia. Vão lá ver. Até pensei que estava a ler noutra língua. Como as aulas de direito administrativo que tinha na faculdade, dadas pelo Professor Caupers. Sim, esse mesmo, o agora presidente do Tribunal Constitucional com opiniões, pelos vistos, pouco ortodoxas. Não, aliás. Opiniões verdadeiramente ortodoxas.

E o tal vagar, quase aborrecimento, que pontuou e caracterizou a minha infância, parece que se desvaneceu. E isto, mesmo tendo a minha filha um professor que é de uma paciência e calma quase infinitas, talvez fruto do tal vagar da sua infância que foi na mesma altura que a minha. Mas os programas, já se sabe, são para se dar.

Ou será que estou errada? Será que a minha filha também vai recordar a sua infância como tempo de calma e reter o que aprendeu? Será que estou a fazer um revisionismo do que foi a minha primária? Assim como o Ascenso Simões e o Padrão dos Descobrimentos.

Não sei. Pena que isto não é um problema de matemática daqueles para saber com quantas laranjas ficou a Luísa depois de distribuir as 15 que tinha por si e pelas suas duas amigas.

Que saudade que tenho da impagável tranquilidade da certeza matemática.

Mas daquela da segunda classe do meu tempo.