O “Problema”

Em muitas organizações públicas, existe um ou mais trabalhadores denominados, pela hierarquia, de Problema ou de Problemas. Não me refiro aos que faltam frequentemente, nunca se adaptaram às novas tecnologias e métodos ou pouco ou nada produzem. Esses são os baldas, tantas vezes, bem considerados, bufos estimados e úteis em certos servicinhos das chefias. Para algumas lideranças, o Problema é aquele que põe em causa o funcionamento deficiente da instituição, em especial quanto à legalidade dos procedimentos, e que pugna por uma administração pública moderna, transparente e democrática.

Existem organismos que, infelizmente, ainda funcionam como corporações, onde a endogamia, amedrontamentos e vinganças originam redes de fidelidades interesseiras.

Determinados chefes habituaram-se a gerir o seu departamento com autoritarismo e prepotência, não respeitando regras do procedimento administrativo e ignorando ou desprezando os mais elementares princípios democráticos, sempre temendo a sombra. Neste domínio, quanto mais pequeno for o grupo, maior violência se verifica na marginalização e perseguição do Problema.

Há outros que governam a sua secção como a sua casa. Julgam-se donos da copa e vão distribuindo iguarias, que não lhes pertencem, aos apaniguados, e tramando quem não caiu nas suas graças.

Os especialistas classificam esses procedimentos como mobbing. A médica Patrícia Zlamalik explica no artigo ‘Mobbing (ou assédio moral no trabalho): moda ou realidade?’:

«O mobbing define-se como sendo qualquer comportamento abusivo (gesto, palavra, comportamento, atitude) que atente, de forma reiterada ou pela sua sistematização, contra a dignidade ou a integridade psíquica ou física de uma pessoa.» Enumera depois as muitas formas de assédio: «críticas constantes relativamente ao desempenho laboral ou características individuais da vítima, inferiorização e ridicularização da vítima na presença de outros funcionários, impedimento da execução de tarefas da sua área de responsabilidade ou, por outro lado, sobrecarga com inúmeras tarefas e prazos impossíveis de cumprir.» Tudo isto, conclui, provoca «elevado stress que pode culminar em Burnout ou mesmo, em casos extremos, em suicídio.»

Há, no entanto, Problemas de rija têmpera, difíceis de vergar, que continuam a resistir contra as ilegalidades, o compadrio e as injustiças no seu ambiente de trabalho. Para esses, o caminho é difícil e, por vezes, solitário.

Marginalizam, não cumprimentam nem falam, mudam de passeio para evitar encontros indesejados pelos chefes, tratam de assuntos da instituição às escondidas, instruem os comparsas nas votações, não atribuem ou distribuem determinadas tarefas ou, então, sobrecarregam. Ameaçam. Insultam. Tudo fazem para prejudicar a vida profissional do Problema, numa sanha de indisfarçada vingança. Elogiam e promovem prevaricadores da sua tribo. Maltratam quem, no cumprimento dos seus deveres e uso dos seus direitos, aponta, com provas, erros cometidos por interesse ou má-fé.

Apesar de tudo isto, a persistência e a firmeza racional valem a pena. Ajudam, pelo menos, a adquirir imunidade para percorrer rumos diferentes. Os denominados Problemas acabam, quase sempre, por merecer respeito e admiração no seu meio, porque se distinguem dos rastejantes, que se sujeitam a toda a porcaria.

Conheci, desgraçadamente, alguns casos de assédio moral no trabalho, ao longo de 45 anos de exercício ininterrupto de funções públicas. Lamento muito o destino dos que não conseguiram resistir à pressão e ao desgaste emocional, em especial os que sofreram e os que ainda padecem de doenças provocadas pela alteração do seu equilíbrio biopsicossocial. Mais lastimo os que, infelizmente, se suicidaram.

Muitas situações desta natureza seriam evitadas com líderes democráticos e respeitadores da lei, em particular do Código do Procedimento Administrativo e legislação diversa sobre boa gestão, acesso aos documentos administrativos, responsabilidade no cumprimento de prazos e códigos de conduta.

Infelizmente, passados 46 anos do 25 de Abril, ainda há quem se oriente pela cartilha do «quero, mando e posso», prática, por sinal, não exclusiva dos saudosistas do «Estado Novo» ou da direita, mas também de alguns ditos socialistas.

Esquecem esses abusadores do poder que, afinal, são eles o problema, o cancro do organismo, que mata tudo o que é diferente. Exibem espaventosamente títulos, vaidades e pretensas inovações.  Todavia, perseguem quem perfilha opiniões diversas, quem avança com iniciativas, nas quais não vislumbram protagonismo, quem não pactua com ilegalidades, quem não aceita a corrupção e quem não lhes presta vassalagem. Vêem sempre o adversário como inimigo a abater. Trabalham com estratégias bem definidas para a eternização no poder, em prejuízo da instituição e da comunidade. Eles são, de facto, o problema.

Post scriptum: Problemas à parte, o verdadeiro e preocupante problema é a pandemia. Sobre o resto: Difficile est satiram non scribere (É difícil deixar de escrever uma sátira), Juvenal, 1, 30.