O famoso Natal de Marbella

Há uns dias ouvia na RFM, na voz profunda daquele senhor que diz que já agora vale a pena pensar nisto, que ser altruísta é fazer algo pelos outros simplesmente pelo amor ao próximo e não pelo sentimento de bem estar que nos possa trazer. Que fazer em prol dos outros, mas também para satisfação própria não é amor puro. E eu pensei nisto.

Pode até ser. Mas qual é a diferença? O resultado é exatamente o mesmo. Que diferença faz a motivação? Qual é o mal de nos sentirmos bem ao fazê-lo? Não me refiro a oferecer um saco de bens essenciais a quem precisa e não se calar sobre isso. Fazer alarde para sentir-se validado.

Não é isso. Mas aquele calorzinho na alma por fazermos alguma coisa pelo outro também não há de ser pecaminosa. Eu gosto dessa sensação.

Não que ande por aí a fazer grandes coisas. Faço muito menos do que deveria, é certo. Mas sempre lá vou fazendo alguma coisa. Nem que seja ouvir, escutando mesmo. Mas gosto de saber, ou pelo menos pensar, que alguém fica melhor com uma ajuda minha. Feliz pelo outro, mas também por mim. E neste pseudo altruismo egoísta lá me vou conseguindo ver ao espelho. Não sei o que revelaria um retrato como o do Dorian. Melhor não saber.

Mas depois há situações em que só sou egoísta. Como com as luzes de Natal e o fogo de artifício.

E se mas tiram, depois da peça que ia estrear agora e já não vou, de dizer às minhas filhas que provavelmente não terão parque de diversões, de ter de considerar a possibilidade de um Natal sem a família alargada, a essência do Natal, não poder sequer ver a cidade engalanada e ainda ficar a olhar, à meia noite do dia 31, para as outras quatro pessoas com quem posso estar, em vez de olhar para o céu, eu juro que faço uma birra. Como a do Trump.

Ah, que em Marbella ou seja lá onde for, vão distribuir pelas empresas o dinheiro que habitualmente gastam em iluminações de Natal por diversas empresas. Que gesto bonito e altruista.

Será sequer comparável?

Será Marbella um destino para onde vão milhares de turistas atraídos pela magia do Natal com clima ameno e por um dos mais luxuriantes espetáculos pirotécnicos?

Terá Marbella sido eleita o destino de Natal mais seguro da Europa este ano?

Terão os habitantes de Marbella enraizado no seu ADN a Festa, como nós madeirenses temos?

Valerá a pena hipotecar tudo isto por um prémio de três mil euros, um de dois mil euros e outro de mil euros, com prémios de trezentos e cinquenta euros para as restantes empresas, como em Marbella?

Por favor.

Que as empresas têm de ser ajudadas, têm. Apesar de não ser exatamente apologista de intervenções diretas na economia, este é um tempo de exceção e as empresas, garante de postos de trabalho, criadoras de riqueza e dinamizadoras da economia têm de ser apoiadas. Como estão e devem continuar a ser apoiadas. Obviamente.

Mas sem necessidade de uma medida simplista como esta. Pouco eficiente, com muito mais prejuízo que benefício. Pior, populista.

Que seja reduzido, mais discreto e menos pomposo, aceito. Não ter nada, não aceito.

Também por egoísmo. Mas um egoísmo pseudo altruista. A pensar no bem geral.

Assim já me posso continuar a ver ao espelho. No retrato como o do Dorian não sei. Melhor não saber.