Úteis e moderníssimos conselhos para um currículo

Numa tentativa de dar aplicação a uma, no mínimo, surpreendente e insólita interpretação, recentemente divulgada, a propósito de declarações falsas num currículo, que, pasme-se, constituem procedimento de somenos importância, não considerado crime, e a pedido de quem prepara candidaturas para concursos da carreira docente, elaborei breve guia de conselhos úteis, como se se tratasse de receita culinária, desvendando logo, e contra a tradição, o segredo do pitéu, indicando depois ingredientes e o modo de fazer, para finalmente mencionar a degustação no banquete.

Segredo:

Ponha a máxima atenção na escrita do seu nome, copiando-o devagar e fielmente do Cartão do Cidadão. O mesmo procedimento deverá ter para com a filiação e a data de nascimento. Procure o recibo da electricidade e copie o endereço da sua residência. De seguida, consulte o recibo do vencimento e escreva a profissão, a categoria e o local de trabalho. Registe o endereço de correio electrónico, com este aberto, e o número do telemóvel, depois de o ligar. Nestes itens, não pode falhar. Deve mesmo ler várias vezes, para verificar se tudo é verdadeiro.

Ingredientes:

Para a confecção do currículo, utilize produtos de elevada qualidade. Aqui não conta a veracidade dos factos. Permaneça tranquilo e relaxado, para que o devaneio flua livremente. Há que aprimorar. Adicione, com frequência, abundante delírio. Boas pitadas fazem crescer laços e abraços.

Escolha uma das melhores universidades mundiais para o seu título académico. Não seja modesto na classificação a indicar. Oxford, Stanford, Harvard, MIT, München, Heidelberg, Aachen, Konstanz, Université PSL (Paris Sciences & Lettres) ou a Sorbonne são boas opções. Se não pretende privilegiar instituições estrangeiras, opte por Coimbra, Lisboa ou o Porto. Aquela sua universidade, onde fez mestrado, doutoramento e agregação no meio do Atlântico, não é para si.

ESCULTURA DE TÉMIS, PERSONIFICAÇÃO DA JUSTIÇA PARA OS GREGOS. UNIVERSIDADE DE TÓQUIO. FOTO: BRITTANICA.COM

Quanto à docência, orientações de mestrados, doutoramentos, pós-doutoramentos e conferências, dê asas à sua imaginação. Mas voe alto e para longe. Não se coíba de mencionar regências, seminários e aulas até nos anos em que, por acaso, não esteve ao serviço. Não deixe também de furtar regências e leccionação de alguns colegas, delas se servindo como suas, de facto. Eles depois confirmarão ter sido erro informático.

Pode sempre dizer que publicou em revistas indexadas, mesmo que o tenha feito somente na da paróquia. Fale ainda dos livros que tenciona publicar, mas como se já estivessem editados.

Relativamente a congressos ou colóquios, considere-se da Comissão Organizadora ou da Comissão Científica de qualquer um, mesmo daqueles em que o seu nome não figurou nos documentos oficiais distribuídos aos participantes, em especial livros de resumos das comunicações ou de actas.

Para prémios, tudo vale, com excepção do Nobel, pois este é largamente difundido em cerimónia pública. Seja ambicioso. Recomendo o Pulitzer ou o Man Booker. Tenha em atenção com os Grammy Awards, BAFTA Awards ou do Festival de Cannes. Podem não ser da sua especialidade.

No que diz respeito a patentes, não aponte coisas de pouco ou nenhum valor. Sirva-se de um reputado registo internacional e copie um número qualquer. Confie. Ninguém irá verificar.

Convém exercitar permanentemente a criatividade. Escreva o que realizou e o que ainda não fez, pois o que já está, na sua cabeça, é fruta pronta a servir, mesmo sem aquelas fases da necessária maturação. Atrás da mentira, mentira vem. (Provérbio popular). Proceda exactamente como noutras ocasiões da sua vida. Um cálice de brandy Constantino, o da fama que vem de longe, inspira o seu retorno ao passado. O sucesso carrega coerências dessa natureza.

Leia tudo umas quatro vezes. Se, entretanto, lhe ocorrer mais uma fantasia, não tenha pudor em acrescentar. Polvilhe tudo com um pouco de Ética, cultivada num jardim sombrio e empestado. Sempre atenua amargos de boca. Interiorize tudo ser verdade. A mente fará o resto. Os seus amigos constantemente dirão como a mulher de Pantaleão, personagem criada por Chico Anysio, que, após cada mentira espalhafatosa, perguntava: «– É mentira, Terta?» e ela sempre lhe respondia «– Verdade!». Tudo aparece encoberto no reino da vaidade e da indigência cultural.

Modo de fazer:

Aqui não há mistérios nem canseiras. Tudo já foi disposto de forma convincente. O conluio há muito foi preparado. É só uma questão de tempo em forno vigiado.

Banquete:

No banquete, as sumidades convidadas, com uma folha de cálculo à mão, não têm paciência nem tempo para apreciar ou verificar, com rigor, currículos. Um braço comprido já lhes apontou o melhor, qual o que devem saborear. Na sua indicação confiam, como sempre. Um dia também eles estenderão o seu braço, e a lei da corporação imperará. O contraditório traz dores de cabeça e muitas preocupações. É de evitar problemas com os iluminados, antes inimigos e agora ternos confrades.

Témis foi escorraçada e Astreu fugiu para o céu. A Justiça jamais habita no Casarão. Nem no esconso de velho armário.

Resultado:

O preparado e esperado.

Conclusão:

Quanto à identidade e estado, pela infalibilidade do processo de fabrico, jamais poderá haver declarações falsas.

As restantes mentiras enquadram-se dentro dos factos relevantes de outra qualidade, que a lei atribui efeitos jurídicos, próprios ou alheios. Mas ninguém quer saber disso. Mentir num currículo não faz parte do conceito de ‘declarar falsamente’ – dizem. Nesta engenhosa premissa, reside a inovação bombástica, a porta do futuro, o cerne deste guia, a esperança da juventude desempregada e dos professores que patinam há anos na mesma categoria.

Como diz o povo, são mentiras para arremedeio da nossa vida. Logo, não haverá problemas, mesmo quando premeditadas. Fique descansado quanto àquele documento que o obrigam a assinar na admissão ao concurso, no qual declara serem verdadeiros os elementos e factos constantes da sua candidatura, tendo pleno conhecimento de que a prestação de falsas declarações implicará a exclusão do concurso, porque, se a conveniência assim o exigir, será completamente esquecido, impiedosamente queimado ou levará sumiço. Ninguém se lembrará de que se trata de contra-ordenação muito grave.

Candidatos, dai largas à imaginação e, no vosso currículo, menti com quantos dentes tendes na boca. Arrogai-vos sempre de experiências que não tendes. A mentira corre mais que a verdade. (Provérbio popular).

 

Apelo (in)útil:

Tomai em atenção o provérbio popular: Mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo.

Parafraseando os últimos versos do soneto «Já Bocage não sou!»: Oh se me creste gente ímpia / Rasga estes conselhos, crê na honestidade»

P. S. O meu currículo está online desde 2007, tendo vindo a ser actualizado com frequência. Quem nada tem a esconder, publica-o com livre acesso. O meu está aqui:

https://passosnacalcada.wordpress.com/curriculo-2/