Requiem para Helena Marques

“[Em Lisboa] Já não vivia numa ilha, mas trazia sempre

a ilha dentro de mim, ninguém se liberta de uma ilha.

[…]. O mar faz parte intrínseca da teia da minha vida

desde os confins do tempo”

Helena Marques

Raízes no mar, JL: Jornal de Letras, Artes e Ideias, 8-10-1997

 

(Pretexto)

 

Pedi emprestada a epígrafe a um belíssimo texto de Ana Isabel Moniz sobre a escrita de Helena Marques “Da ilha ao Mundo” (disponível na Internet) e que percorre, com rigor literário e saudade estética, a obra desta escritora. Filha de pais madeirenses, nasceu no espaço continental do país de onde cedo regressou e para onde retornou, escolhendo aí viver a idade maior.

(Do Cais, o último)

Num pertinente ensaio sobre “As ilhas, a literatura e a traduzibilidade” (também disponível na rede), Stephanides e Bassnett referem que “Os espaços insulares são utilizados para explorar e criar pontes entre o real e o imaginário em resposta às realidades culturais e sociais, assumindo frequentemente a forma de utopias / distopias, Edens, Arcadias, nações, metatextos, encruzilhadas culturais. Os espaços virtuais das ilhas são suscetíveis de traduzibilidade e articulam perspectivas sobre a relação mutante entre eu e o outro, centro e periferia, servindo como locais de mediação entre culturas”. A obra de H. Marques constitui um permanente omen do regresso à ilha (espaço de onde nunca se ausentou literaria e esteticamente) recordada em múltiplas viagens: translações de saudade e naufrágio. Mas este não pretende ser um ensaio sobre a sua obra. Um requiem assinala sempre um termo, do cais das palavras, o último, da música que o exprime. Maria Teresa Horta refere as “pequenas cintilações musicais” (em O último Cais) como se H. Marques tivesse então, simulado, através da Literatura, as notas dessa composição última, o retorno à Mater insular.

 

(“Nenhum homem é uma ilha, por si só; todo homem é um pedaço do continente, uma parte do continente”. – John Donne, Meditation 17)

 

Mas as mulheres que tecem as narrativas de H. Marques, são. São ilhas, elas também, nas suas forças e fragilidades, na intrincada construção de uma Liberdade delongada no tempo da narrativa e da vida. Em A deusa sentada, o meu texto de eleição, H. Marques ensaia o retorno ao Éden (identitário) e a derradeira viagem: “(…) Ignorar a omnipresença da morte é privilégio dos vinte anos, talvez mesmo dos trinta, mas aos quarenta, nos meus contados quarenta e seis anos, já não é admissível iludir o conhecimento de que o futuro tem limites muito concretos, desconhecidos, mas muito concretos, e a morte acontecerá inapelavelmente e será terrível (…)”.

 

(Da Literatura como insularidade)

  1. Marques desenhou um percurso literário próximo do rugir dos calhaus, quando o mar está bravo e da quietude poética que a tempestade abandona. Da magia das suas palavras, há resquícios de J. Borges, um perfume ingénuo de Hemingway e as notas agrestes e doces de uma Sinfonia de Beethoven. Pode ser a Quinta.

 

É Outono. Que sejam as folhas, caídas, as metáforas da promessa da Primavera vindoura que sempre encontraremos nos seus livros, Helena. Até sempre.