Uma princesa africana, afilhada da Rainha Vitória, que viveu e morreu na Madeira

Foto de Sarah Bonetta, da autoria de Camille Silvy (National Portrait Gallery, da Grã-Bretanha)

Nascida numa família real da África ocidental em 1843, Aina perdeu o seu pai numa guerra quando tinha apenas cinco anos de idade. Foi capturada e feita escrava por Gezo, então rei do Daomé (hoje o país africano Benim). Acabaria por ser trazida para Inglaterra por Frederick Forbes, capitão da Marinha Britânica que chegou ao Daomé em 1850, numa missão falhada para persuadir o rei Gezo a desistir do tráfico de escravos. Tudo o que Forbes acabou por conseguir foi a pequena negrinha, como presente diplomático, embarcando-a no seu navio HMS Bonetta, conforme recordava há dias o “The Guardian”.

Ao chegar a Inglaterra, Forbes apresentou a rapariga à rainha Vitória, que se deixou encantar por ela, considerando-a inteligente e viva e que a tornou sua afilhada, tendo-a encontrado múltiplas vezes, incluindo em Osbone, sua residência à beira-mar na ilha de Wight. A soberana assumiria as despesas da educação de Sarah na Serra Leoa e em Gillingham, no condado de Kent.

O novo retrato pintado pela artista Hannah Uzor

Sarah Bonetta acabou por se tornar, de certo modo, um símbolo da “missão civilizadora” do império britânico, na época. A reinterpretação artística que agora surgiu, da artista Hannah Uzor, ela própria de origem nigeriana, recorda o evento do casamento, mostrando Sarah no seu vestido matrimonial. “Com a minha arte, estou interessada em explorar as pessoas negras esquecidas na história britânica, pessoas como Sarah”, disse a artista plástica ao jornal “The Guardian”. “O que acho interessante acerca da Sarah é que ela desafia as nossas assumpções acerca do estatuto das mulheres negras na Grã-Bretanha vitoriana”.

Sarah Bonetta viveu em Lagos, na Nigéria, e mais tarde na Madeira, onde morreu de tuberculose, como acontecia a tanta gente na altura. Chamou à sua própria filha Vitória, em homenagem à sua madrinha real. E também ela, Victoria, se tornou afilhada da famosa e homónima rainha britânica.

O retrato tem o apoio da “English Heritage”, uma instituição protectora e divulgadora do património.

Zaris-Angel Hator representou Sarah Forbes Bonetta na série de televisão da ITV “Victoria”, em 2017.

O seu viúvo, o capitão Davies, com quem Sarah Bonetta teve três filhos, no total (Victoria, em 1863, Arthur (1871) e Stella (1873), mandou erigir um obelisco de granito em Lagos, onde tinha uma fazenda, com a inscrição “Em memória da princesa Sarah Forbes Bonetta, esposa de J. P. L. Davies, que partiu desta vida na Madeira, a 15 de Agosto de 1880, com 37 anos”.